Análise: Estado Islâmico atinge 'medo máximo' ao atacar crianças e adolescentes

Dan Bilefsky e Rick Gladstone*

De Londres (Reino Unido) e Nova York (EUA)

  • REUTERS/Jon Super

    22.mai.2017 - Jovens buscam abrigo após o atentado terrorista em Manchester

    22.mai.2017 - Jovens buscam abrigo após o atentado terrorista em Manchester

Algumas das meninas mal tinham atingido a puberdade. Muitas vieram com os pais a tiracolo. Pelo menos uma tinha apenas 8 anos.

Não está claro se o homem que matou 22 fãs de Ariana Grande, feriu 59 e provocou pânico em massa em seu show na Manchester Arena na noite de segunda-feira (22) sabia que sua bomba caseira explodiria entre vítimas jovens, entre elas muitas meninas.

Mas os efeitos traumáticos colocam o ataque na mesma categoria que o sítio à escola em Beslan, na Rússia, o massacre na escola em Peshawar, no Paquistão, e o sequestro em massa de escolares em Chibok, na Nigéria. Ele capturou a atenção do mundo adulto de maneiras que alguns ataques indiscriminados não conseguem.

"A intenção é chocar", disse William McCants, um bolsista sênior no Centro para Política do Oriente Médio no Instituto Brookings e uma autoridade sobre o grupo Estado Islâmico (EI), que reivindicou a responsabilidade pelo ataque em Manchester. "Você consegue o medo máximo atacando uma população vulnerável como as crianças."

McCants, autor do livro de 2015 "The ISIS Apocalypse: The History, Strategy and Doomsday Vision of the Islamic State" ["O apocalipse do EI: a história, estratégia e visão do julgamento final do Estado Islâmico", não lançado no Brasil], disse que "o negócio do EI é que não se preocupa em ofender a opinião pública".

Na noite de terça-feira (23), a polícia de Manchester havia identificado publicamente apenas alguns dos mortos. Os detalhes que surgiam sobre as vítimas reforçavam o que McCants e outros descreveram como o valor de choque desejado pelos planejadores desses ataques.

AP
Saffie Roussos, 8, foi ao show com sua mãe e sua irmã

Saffie Rose Roussos, 8, a mais jovem entre os mortos confirmados, foi descrita pelo diretor de sua escola, Chris Upton, como "uma menina linda" que era "tranquila e reservada, com um dom criativo".

Saffie, que era de Lancashire, no noroeste da Inglaterra, assistiu ao show com sua mãe e a irmã mais velha. Reportagens apontaram que as duas foram hospitalizadas com ferimentos.

"A ideia de que alguém pode ir a um show e não voltar para casa é de partir o coração", disse Upton.

A primeira vítima identificada publicamente foi Georgina Bethany Callander, 18, uma estudante de assistência social e de saúde conhecida pelo grande sorriso e o amor pela música pop.

A conta de Callander no Instagram mostrava uma mulher jovem e alegre que parecia adorar animais e filmes da Disney. Ela também tinha postado uma foto de sua carteira de motorista, que recebeu em dezembro de 2016. Reportagens disseram que ela morreu ao lado de sua mãe. Antigas fotos nas redes sociais a mostram usando óculos e aparelho dental.

Ela era uma aluna do Runshaw College em Leyland, região de Lancashire, cujos administradores manifestaram "uma enorme tristeza" e disseram que darão aconselhamento psicológico aos estudantes.

Callander era fã das bandas Fifth Harmony e One Direction. Em sua conta no Instagram, ela disse que seus filmes favoritos eram "A Bela e a Fera" e "Capitão América", e "Wicked" seu musical preferido.

Suas contas nas redes sociais mostram uma mulher jovem e idealista, que criticou um festival de carne de cachorro em Yulin, na China, e apoiou a Marcha das Mulheres em Londres em janeiro.

O "Manchester Evening News" identificou outra vítima, John Atkinson, 26, de Radcliffe, cidade na área de Manchester. Foi criada uma página de coleta de fundos para o enterro dele.

Uma quarta vítima foi identificada no final da terça-feira como Kelly Brewster, 32, de Sheffield, uma frequentadora assídua de shows que tinha ido ao de Grande com sua irmã, Claire Booth, 34, e a filha desta de 11 anos, Hollie. Parentes disseram que Brewster morreu tentando protegê-las da explosão. As pernas de Hollie foram quebradas, assim como a mandíbula de sua mãe, e ambas sofreram ferimentos de estilhaços, inclusive parafusos cravados em seus corpos, como relatou "The Guardian".

Payton Williams, um dos amigos de Brewster, que confirmou sua morte, disse que ela era "muito inteligente, uma mulher engraçada com um coração de ouro".

Enquanto as autoridades se esforçavam para identificar os mortos e familiares vasculhavam os hospitais locais em busca de parentes e amigos, uma mãe segurava uma foto emoldurada de sua filha e fez um apelo terrível na televisão BBC por qualquer informação sobre ela, dizendo que estava doente de preocupação. Dezenas de outras publicaram fotos dos entes queridos nas redes sociais, pedindo informações sobre os desaparecidos.

Alguns cidadãos poloneses estavam entre eles, segundo Jakub Krupa, o correspondente britânico da Agência de Notícias Polonesa, citando o Ministério das Relações Exteriores do país.

Oli Scarff/AFP
Menina vestindo camiseta da cantora Ariana Grande deixa hotel em Manchester

A cantora americana Ariana Grande, 23, atrai legiões de jovens fãs a seus shows, muitas vezes acompanhados dos pais. Ela também ampliou sua base de fãs promovendo os direitos de gays e lésbicas e comemorando a diversidade --conceitos que são antiéticos para o Estado Islâmico e grupos extremistas semelhantes.

Embora seja possível que o público particular de Grande foi especialmente visado, alguns especialistas em terrorismo disseram que foram o tamanho e a juventude do público e a vulnerabilidade do evento que atraíram um grupo como o EI.

"Era especialmente interessante", disse Brian Nussbaum, professor no Colégio de Preparativos para Emergências, Segurança Interna e Cibersegurança na Universidade de Albany. "O EI está mais interessado na violência pela violência em si, e a mobilização que vem com isso."

DARREN STAPLES/REUTERS
23.mai.2017 - Milhares de pessoas se reúnem em vigília para as vítimas do atentado

Outros disseram que o gênero predominante do público de Grande pode ter sido diretamente relevante para os planejadores do ataque.

"São garotas que ainda não começaram a viver, então fica todo mundo dizendo 'meu Deus, elas foram se divertir e veja o que aconteceu'", disse Wagdy Loza, professor de psiquiatria na Universidade Queens em Ontário (Canadá) e ex-presidente da seção de Extremismo/Terrorismo na Associação Psicológica Canadense.

"O impacto psicológico é muito maior que matar um bando de pessoas em um escritório ou trabalhadores de 50 anos", disse ele. "Causa mais impacto quando você vê crianças."

*Iliana Magra colaborou na reportagem, de Londres.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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