Comerciantes chineses preenchem vácuo e prosperam no Senegal

Andrew Jacobs

Em Dacar (Senegal)

  • Sergey Ponomarev/The New York Times

    Lojista chinesa vende bijuteria baratas no bairro Centenaire, em Dacar, no Senegal

    Lojista chinesa vende bijuteria baratas no bairro Centenaire, em Dacar, no Senegal

Recém-saído da faculdade e frustrado com a falta de perspectivas de emprego em seu país, Cao Qihan, 23, fez o que várias gerações de chineses ambiciosos fizeram antes dele: ele se arriscou e foi para uma terra distante e totalmente desconhecida, onde as pessoas falam línguas que ele não entende.

Mas, diferentemente de compatriotas que sonham com uma vida melhor na América do Norte, na Europa ou na Austrália, Cao comprou uma passagem de avião para o Senegal, país de 14 milhões de habitantes que abriga cerca de 2 mil residentes chineses.

Cao tinha parentes em Dacar, a capital, mas pouca ideia do quê esperar.

"Nós, chineses, pensamos que a África é incivilizada e perigosa, mas descobri que não é tão ruim assim", ele disse poucas semanas depois de sua chegada, enquanto recheava pasteizinhos no restaurante de sua família na Chinatown de Dacar, que se encontra em expansão. "Acho que vou ficar por um tempo."

Hoje, mais de 200 lojas de chineses ocupam o Boulevard du Général de Gaulle, uma passagem soturna que atravessa o bairro de classe média de Centenaire e termina na imponente Grande Mesquita da cidade.

As lojas abarrotadas latejam de bijuterias repletas de strass, pilhas de utensílios de cozinha de plástico e sapatos femininos decorados com laços e detalhes brilhantes. Tudo é feito na China, e poucos itens custam mais do que US$ 5 (R$16).

Sergey Ponomarev/The New York Times
Chineses e senegaleses no festival de Ano-Novo chinês de Dacar, em janeiro, evento patrocinado pela Embaixada da China

Diferentemente das vibrantes Chinatowns do resto do mundo, o enclave chinês de Dacar é um lugar sem charme e caótico que oferece pouco apelo para aqueles que não estão no mercado do atacado. Não há templos budistas, são poucos os restaurantes e, na maior parte do dia, suas calçadas têm um clima decididamente letárgico.

A maioria dos comerciantes é originalmente de Henan, uma província central pobre e densamente povoada, cuja população de 94 milhões de habitantes equivale à do Egito.

Dentro da China, migrantes de Henan muitas vezes são vistos com desconfiança, sendo vítimas de discriminação devido a uma crença vaga, mas comum, de que eles são propensos à criminalidade. Muitos ocupam empregos mais braçais, trabalhando como motoristas de caminhão, lavradores ou operários.

"É assim que a vida é para nós", diz Zhu Haoming, 58, um homem impetuoso de fala rápida e sorriso fácil. "Precisamos sair de casa para ganhar a vida. Se você encontra um lugar bom, você acaba arrastando seus amigos junto, mesmo que seja do outro lado do mundo."

Zhu, de certa forma um pioneiro, chegou aqui 17 anos atrás vindo de Henan para montar uma feira de negócios para produtos chineses. Ele nunca mais foi embora.

"Percebi que a China tinha um monte de coisas e que as pessoas aqui precisavam de coisas, então foi uma boa combinação", ele disse.

Zhu abriu uma loja de flores artificiais e, sem querer, acabou se tornando o núcleo de uma presença chinesa crescente em Dacar que passou a dominar o mercado atacadista de bens de consumo de baixo custo.

Sergey Ponomarev/The New York Times
Cheng Lai trabalha como caixa em loja em Dacar

Para trabalhadores em busca de oportunidades em outro país, o Senegal raramente entra na lista dos destinos preferidos, mas a facilidade de se obter um visto muitas vezes prevalece sobre as apreensões que muitos chineses têm a respeito da África.

Os recém-chegados geralmente começam trabalhando para um atacadista que eles já conheciam de casa para depois seguirem por conta própria, assim que conseguem poupar o suficiente para sua primeira leva de mercadorias.

A vida raramente é fácil. Trabalha-se muito, os lucros são poucos e a solidão é implacável. Em geral os homens vêm sozinhos, mas até mesmo casais tendem a deixar os filhos em seu país para serem criados pelos avós.

Em uma tarde recente, com o calor do meio-dia espantando as multidões das calçadas, lojistas entediados assistiam a filmes chineses em seus celulares enquanto seus funcionários senegaleses tiravam o pó das prateleiras e conversavam entre si em wolof, a língua franca, que poucos chineses entendem.

Minha pergunta sobre a vida no Senegal desencadeou uma enxurrada de reclamações dos patrões: concorrentes demais, clientes de menos e preços cada vez maiores para mercadorias adquiridas durante viagens anuais de compras para a China.

Wang Xu, 34, que vende pulseiras de cores vibrantes junto com seu irmão mais novo, atribui as vendas paradas ao excesso de empreendedores da China. "Para piorar as coisas, os senegaleses estão com cada vez menos dinheiro para gastar", ele diz.

Sergey Ponomarev/The New York Times
Crianças chinesas com babá em um café em Dacar

Também há reclamações sobre furto de mercadorias, e sobre a indiferença da polícia local, mas a maioria são queixas sobre saudades de casa e daqueles que ficaram para trás. Várias vezes se ouve a frase "chi ku", uma expressão clichê de paciência chinesa que significa engolir o amargor.

"Meu filho está crescendo sem um pai", diz Wang categoricamente, acendendo outro cigarro, parte de seu hábito de dois maços diários.

Para os senegaleses, a chegada de atacadistas chineses foi boa e ruim. As mercadorias baratas que eles importam sustentam inúmeros camelôs, muitos dos quais se espalham para o interior e até mesmo para outros países na África Ocidental. Menos contentes estão os comerciantes senegaleses que costumavam viajar até a China para comprar as mesmas mercadorias, mas que acabaram sendo excluídos.

Jean Noel Faye, 38, que vende sapatos femininos em um caído mercado ao livre em Dacar, diz ter pouca simpatia pelos comerciantes senegaleses ricos que reclamam dos chineses e de seus preços imbatíveis.

"Sem os chineses, não teríamos nada para vender", diz Faye, que ganha cerca de 80 centavos (R$ 2,60) em cada par. "Aqueles que têm impressões negativas dos chineses já são ricos."

Os senegaleses comuns têm queixas legítimas: sobre eletrônicos fajutos, medicamentos vencidos e os pesqueiros chineses que competem com pescadores locais por fazerem despencar os estoques de peixe.

Os residentes que trabalham em lojas de chineses se queixam das baixas remunerações e do que poderia ser descrito caridosamente como um abismo cultural escancarado. "Não temos nada em comum com os chineses", diz um balconista, enfatizando a falta de uma língua em comum. "O único motivo pelo qual eles vêm ao Senegal é ganhar dinheiro."

Mas são mais comuns expressões de gratidão, um sentimento reforçado pela infinidade de projetos bancados por chineses que melhoraram a vida nessa cidade gasta e congestionada. Há quilômetros de estradas novas e restauradas, um teatro nacional suntuoso e equipamentos de ginástica novinhos que atraem multidões de senegaleses ávidos por exercícios para um calçadão à beira-mar ao cair do Sol.

Contudo, as duas comunidades vivem em mundos separados. Zhu, o atacadista pioneiro de flores sintéticas, diz que só sabe de dois casamentos mistos em todos seus anos no Senegal. No Jade Sea, Blue Sky, o restaurante chinês onde trabalha Cao, o migrante recém-chegado, clientes senegaleses são uma raridade.

Em uma tarde recente, na hora do almoço, os salões privados do restaurante estavam lotados: um com jovens engenheiros que estão ajudando a construir a nova via expressa do aeroporto, outro com comerciantes endurecidos da província de Fujian, que vêm atravessando um período de instabilidade política em Gâmbia. Um terceiro salão era ocupado por Wu Haohong, um empresário recém-chegado de risada nervosa e barriga avantajada.

Enquanto consume rapidamente um maço de cigarros chineses de ponta azul, Wu exalta as oportunidades da África, mas diz que os migrantes da China às vezes escolhem o lugar errado para se estabelecer. Ele sabe disso por experiência própria, uma vez que passou sete anos em Angola, mas foi embora depois de ser assaltado à mão armada várias vezes.

"Até os policiais em Angola são bandidos", ele diz, explicando por que havia abandonado sua empresa de materiais de construção e se mudou para o Senegal, abrindo um karaokê que atende homens chineses solteiros, e que emprega jovens chinesas de top que oferecem uma companhia breve e furtiva.

"A verdade é que lugares caóticos podem ser bons para os negócios porque reduzem a concorrência", ele diz. "Mas todos têm seus limites."

Tradutor: UOL

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