Visita de Trump não consolida plano de paz na Palestina, mas pode construir pontes

Ian Fisher, Peter Baker e Isabel Kershner

Em Jerusalém (Israel)

  • AP Photo/Ariel Schalit

    22.mai.2017 - Netanyahu aplaude o discurso de Trump em Jerusalém

    22.mai.2017 - Netanyahu aplaude o discurso de Trump em Jerusalém

Caso haja alguma dúvida, o presidente Donald Trump deixou bem claro: ele quer um acordo. "Pretendo fazer tudo o que puder", ele disse na terça-feira (23).

Além disso, ele partiu após uma visita de 28 horas a Israel e à Cisjordânia ocupada convencido de que conta com parceiros para a paz, após se encontrar com o presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, e com o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu. 

"O presidente Abbas me assegurou que está pronto para trabalhar em boa fé para esse fim", disse Trump em Belém, com Abbas a seu lado. "E o primeiro-ministro Netanyahu prometeu o mesmo."

O que Trump não fez foi revelar o que estava por trás daquilo: ele aplicou pouca pressão pública sobre cada um dos líderes. Não se falou como de costume sobre fronteiras, assentamentos, incitação de terrorismo ou da história longa e cheia de nós de dois povos na mesma terra. 

Ele nada disse sobre transferir a embaixada americana para Jerusalém e nem reconheceu a cidade como capital de Israel. Nem havia um processo para o que virá a seguir. 

"Essa é uma visita sem substância", disse Khalil Shikaki, um analista político e de pesquisas palestino. 

Mas isso não significa, ele e outros foram rápidos em acrescentar, que a rápida visita a Israel e aos territórios ocupados, na primeira viagem de Trump ao exterior, não tenha sido útil para construir pontes, para o estabelecimento de um tom diferente, para demonstrar pleno apoio aos israelenses e respeito aos palestinos. 

Trump deixou claro que o novo relacionamento que Israel busca com seus vizinhos árabes sunitas, alguns dos quais ele se encontrou antes na Arábia Saudita, está vinculado ao progresso com os palestinos. Trump pareceu conseguir tudo isso, concordou a maioria dos especialistas, com poucos dos tropeços que o perseguem em casa. 

Netanyahu, pressionado pelos conservadores em sua coalizão, conseguiu grande parte do que queria em um discurso feito na terça-feira por Trump, no Museu de Israel, que adotou grande parte da visão de mundo do primeiro-ministro, de um Israel dinâmico, democrático, defendendo-se corajosamente de inimigos como o Irã. 

"Em meio a tudo isso, eles resistiram e, na verdade, prosperaram", disse Trump. "Fico maravilhado com as realizações do povo judeu e faço esta promessa a vocês: meu governo sempre estará com Israel." 

O presidente foi ovacionado em pé e Netanyahu apertou sua mão. Trump prosseguiu notando que o Irã está comprometido com a destruição de Israel. 

"Isso não ocorrerá com Donald J. Trump, acreditem", ele declarou, e de novo a plateia respondeu vigorosamente. "Obrigado", disse Trump. "Também gosto de vocês." 

E apesar da viagem ter se concentrado principalmente em Israel, Abbas, lutando para se manter influente após anos no poder, conseguiu ao menos parte do que queria, ao receber Trump em Belém como um aparente igual.

A viagem de Trump e a reunião de uma hora com Abbas contou com toda a pompa de uma visita de Estado (uma agenda pública rapidamente corrigida da Casa Branca até mesmo fez referência à "Palestina", algo que provocou objeção de muitos israelenses como sendo um reconhecimento do Estado palestino) e sem uma repreensão pública que os israelenses gostariam. 

Abbas, que se encontrou com Trump neste mês em Washington, repetiu "nosso compromisso em cooperar com você para se chegar à paz e a um acordo de paz histórico". 

No mundo extremamente complicado dos acordos de paz do Oriente Médio, o cálculo da Casa Branca parece ser de que essa falta de clareza seja boa neste estágio inicial. Em vez de pressionar e ditar, como nos esforços fracassados pela paz do ex-secretário de Estado, John Kerry, segundo alguns, os conselheiros de Trump disse que a ambiguidade lhe deixa espaço para manobra. 

A pergunta é se a conversa leve de esperança e otimismo será capaz de transpor as barreiras monstruosamente altas para a paz. Nenhum dos parceiros de Trump moveu um milímetro sequer de suas posições há muito mantidas e usaram seu convidado americano em reuniões separadas para criticar o outro. 

Alguns analistas suspeitam que simplesmente disseram a Trump o que ele queria ouvir a respeito de trabalharem pela paz, sorriram enquanto lhe conduziam até a porta e se despediram dele para que pudessem voltar ao status quo em casa. 

Mas Isaac Herzog, o líder da oposição e chefe do Partido Trabalhista de Israel, disse que Jared Kushner, o genro de Trump e conselheiro para o Oriente Médio, lhe disse que os Estados Unidos pretendem dar andamento rápido ao processo para um acordo. Autoridades israelenses e palestinas permaneceram caladas sobre as conversas privadas. 

"Há algo por trás de tudo isso? Só o primeiro-ministro sabe", disse Mitchell Barak, um analista de pesquisas e ex-assessor político israelense. 

Sobre Trump, ele disse: "Essa provavelmente é a forma como ele faz negócios. Pelo que pude ver, ele vai a uma reunião, apresenta um show. Ele é o Liberace dos líderes mundiais". 

"Então ele deixa para Greenblatt, Friedman e Kushner e diz, 'Fechem o acordo'", disse Barak, referindo-se a dois dos advogados particulares de Trump, Jason Greenblatt e David M. Friedman, que ele nomeou, respectivamente, como seu principal emissário para a região e embaixador americano em Israel. 

Décadas de processo de paz liderado pelos Estados Unidos resultaram em muito pouco no que se refere a um acordo com os palestinos. Mas há precedente para um rígido sigilo nos primeiros estágios, caso isso esteja acontecendo. 

Autoridades israelenses e da Organização para a Libertação da Palestina se encontravam em sigilo em quartos de hotéis e propriedades no campo para chegaram aos princípios que levaram ao Acordo de Oslo, no início dos anos 90, tendo os noruegueses como mediadores. Os Estados Unidos não estiveram ativamente envolvidos. O tratado de paz israelense-jordaniano assinado em 1994 também foi a culminação de décadas de contatos bilaterais secretos. 

O discurso de Trump no Museu de Israel foi tão amistoso e cheio de consideração às emoções israelenses que um legislador israelense de direita o descreveu como profundamente expressivo da "narrativa sionista". Mas alguns analistas israelenses dizem que esse abraçar caloroso pode levar à construção da confiança necessária para um processo significativo. 

"A mensagem proveniente desse discurso reflete toda a meta da viagem", disse Avi Ben-Zvi, um especialista nas relações entre israelenses e americanos da Universidade de Haifa, em uma entrevista de rádio. Se a iniciativa de paz regional começar a cristalizar, ele disse, "Israel terá que pagar um preço, uma concessão dura e dolorosa. Israel só poderá fazer essa concessão a partir de uma posição de confiança; confiança na liderança de Trump e confiança de que os Estados Unidos estarão por trás dele." 

Se há alguma substância, o sigilo pode ser ainda mais essencial para Netanyahu porque a maioria dos membros de seu Gabinete se opõe a qualquer grande concessão aos palestinos ou ao estabelecimento de um Estado palestino. E vários ficaram contentes por Trump ter evitado fazer referência à solução de dois Estados, que enfrenta oposição da maioria dos aliados do primeiro-ministro. 

"O presidente falou sobre paz seis vezes e, no geral, evitou apoiar um Estado palestino, o que sem dúvida seria um obstáculo para se chegar a essa meta", disse Naftali Bennett, o ministro da Educação de Israel, que defende a anexação de áreas da Cisjordânia. 

"Uma boa visita", disse Michael Oren, um ex-embaixador israelense nos Estados Unidos e um historiador. "Agora veremos como poderemos construir a partir disso."

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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