Moradores de Michigan, nos EUA, acusam Nestlé de destruir fontes de água potável

Steve Friess

Em Evart (Michigan)

  • Gary Howe/The New York Times

O riacho atrás da casa de Maryann Borden já foi "um belo córrego que só fluía e isso nunca mudou por décadas", ela diz. Hoje talvez tenha pouco mais de 3 metros de largura —metade do que tinha, ela calcula— com ilhas de grama obstruindo o que costumava ser um fluxo ininterrupto.

"O que aconteceu?", pergunta Borden. "A Nestlé aconteceu. É isso que acho". Vários de seus vizinhos pensam o mesmo.

A Nestlé consegue bombear mais de 490 milhões de litros de água por ano de um poço perto dessa cidadezinha a noroeste de Michigan para envasar e vender. É um grande negócio: no ano passado, pela primeira vez, vendeu-se mais água engarrafada do que refrigerantes nos Estados Unidos.

E agora a Nestlé quer mais. Ela solicitou um aumento de 60% em sua concessão de bombeamento do poço. A solicitação, que deve ser decidida pelo Departamento de Qualidade Ambiental de Michigan dentro de meses, catalisou uma oposição em parte por causa do que a Nestlé paga pela maior parte da água que ela engarrafa: nada. Aliás, ela paga somente uma taxa anual de US$ 200 (R$ 660) para bombear de poços de sua propriedade (como este) ou alugados.

"Alguém vir aqui e tirar parte da melhor água que deveria estar indo para os riachos e o Rio Muskegon, e depois para o Lago Michigan, já é um problema", diz Jeff Ostahowski, vice-presidente da Cidadãos de Michigan pela Conservação da Água, que vive a 40km de Evart. "A Nestlé fazer isso de graça é simplesmente absurdo".

Na verdade é uma prática padrão: proprietários de terras e negócios comerciais durante muito tempo tiveram direito em boa parte dos Estados Unidos de usar o quanto quisessem de água gratuitamente se perfurassem e bombeassem eles mesmos. Até clientes de sistemas hídricos municipais tecnicamente pagam não pela água que eles usam, mas sim pela infraestrutura e pela energia envolvidas no abastecimento.

Ainda assim, em um Estado onde o acesso a uma água limpa e acessível, sobretudo em Flint e Detroit, dominou as notícias, é ofensivo para muitos que uma empresa estrangeira possa lucrar engarrafando tanto por tão pouco. Mesmo nessa parte extremamente conservadora do interior dos Estados Unidos, o medo de uma espoliação ambiental e uma sensação de estar sendo explorado está levando muitos a denunciarem a demanda da Nestlé por mais.

Outras grandes indústrias usam muito mais água pela mesma taxa de US$ 200 —a Pfizer, por exemplo, usou 26 bilhões de litros em 2015 para sua fábrica de medicamentos perto de Kalamazoo, de acordo com dados do Estado— mas a maior parte dessa água é devolvida para a mesma bacia após o uso, observam críticos da Nestlé.

A escala da operação da Nestlé nessa região esparsamente povoada, a cerca de 290 km a noroeste de Detroit, é imensa. A empresa envasa uma média de 4,8 milhões de garrafas de água por dia —mais de 3.000 por minuto— com todas as linhas funcionando em uma fábrica a cerca de 64 km ao sul de Evart, diz David Sommer, gerente da fábrica.

A fábrica retira água de nove poços, inclusive dois que são de propriedade da prefeitura de Evart, pela qual ela paga a tarifa municipal local de US$ 3,50 (R$ 11,50) por quase 4 mil litros. Dois estão no terreno da fábrica e os outros cinco estão espalhados por dois condados rurais, inclusive no poço de White Pines, perto de Evart, que é alvo do pedido de aumento.

Todo esse bombeamento produz a marca de água mineral Ice Mountain, que é vendida em toda a parte de cima do centro-oeste, e a linha de água filtrada Pure Life, de distribuição nacional. Água mineral, que é definida por sua origem de fontes que fluem naturalmente na superfície da terra, vende mais porque é vista como mais autêntica e mais saudável, segundo representantes da Nestlé.

"Água mineral é algo muito diferente, é uma fonte preciosa", diz Nelson Switzer, diretor de sustentabilidade da Nestlé para os Estados Unidos. "Nós levamos isso às pessoas, essa conveniência, essa possibilidade de fechar novamente a garrafa, levá-la consigo, tê-la à mão quando precisarem. É uma ideia muito singular, um diferencial".

Para conquistar a agência ambiental estadual, a Nestlé precisa convencer as autoridades de que ela é uma boa monitora do meio ambiente. Arlene Anderson-Vincent, gerente de recursos naturais da Nestlé para o Michigan, insiste: "Nunca tiramos mais do que a natureza repõe".

O administrador municipal de Evart, Zackary Szakacs, apoia a Nestlé, afirmando que o fato de a empresa comprar água de poços municipais mantém o custo baixo para os 2 mil residentes de uma comunidade que têm uma renda anual média de US$19 mil (cerca de R$62 mil). A empresa também paga para um fundo de proteção ambiental, instalações recreativas públicas novas e, mais recentemente, para que cientistas e especialistas purifiquem um poço municipal que a Nestlé descobriu estar contaminado por perclorato, tóxico para a tireoide.

"Existe tanta água no Condado de Osceola, é inacreditável", diz Szakacs, que afirma não ter observado mudanças nos cursos d'água. "Temos muita sorte. Temos uma parceria com a Ice Mountain da Nestlé. É uma boa parceria. Só estamos tentando sobreviver de forma que a cidade viva mais 100 anos".

Contudo, é forte a oposição. Em abril, o conselho de zoneamento do município de Osceola, a área não incorporada fora de Evart onde fica o poço de White Pines, denegou, por 5 votos a 0, a solicitação da Nestlé para a construção de uma instalação de US$500 mil que aumentaria sua capacidade atual de bombeamento, caso o Estado permitisse.

A Nestlé está recorrendo dessa decisão, dizendo que a estação de bombeamento é a forma mais eficiente de transportar o volume extra de água. Se a empresa for incapaz de construir a estação, ela pode ampliar uma tubulação existente ou levar a água de caminhão até a fábrica, diz Anderson-Vincent.

Não há dados científicos conclusivos de que a Nestlé tenha exaurido ou alterado o ecossistema. Até mesmo hidrologistas locais incomodados com as operações da Nestlé reconhecem que as acusações de dano se baseiam em grande parte em observações casuais como as de Borden ou de pescadores que dizem que o estoque de trutas do riacho diminuiu.

"Ouvimos os argumentos deles, mas não vimos nenhum dado científico", disse Switzer. "Acredite, nós pedimos tantas vezes, convidamos para que eles viessem conversar conosco. Não se pode esquecer que temos 17 anos de dados científicos rigorosos com mais de 100 pontos de monitoramento que provam rigorosamente que o que estamos fazendo não tem um impacto significativo".

Opositores locais dizem que essas afirmações são enganosas. Ostahowski diz que ele e outros ambientalistas nunca tiveram a oportunidade de revisar os dados brutos da Nestlé. Eles observam que o pedido da Nestlé foi reprovado inicialmente quando submetido à Ferramenta de Avaliação de Retirada de Água do Estado, voltada para determinar se o bombeamento prejudicaria o ecossistema.

A Nestlé convenceu as autoridades a olharem para os dados de forma diferente, argumentando que a ferramenta era conservadora demais, e em uma segunda interpretação o Estado entendeu que um maior bombeamento não prejudicaria o meio ambiente local.

Melody Kindraka, uma porta-voz para a agência ambiental do Estado, disse que o departamento "ainda estava no processo de revisão e verificação de todas as informações que recebemos". Não foi dado nenhum cronograma para sua decisão.

No entanto, para essas partes, residentes antigos como Borden dizem que o bom senso pode ser um guia melhor do que a ciência.

"A conta não fecha", ela diz, olhando fixamente para o riacho ao lado do qual ela viveu desde que Dwight D. Eisenhower era presidente. "Não posso entender como eles tiram tanto. Como o riacho se recupera dessa retirada maciça? São milhões de litros. A água não volta para nosso aquífero, porque ela está sendo colocada em uma garrafa e enviada para outro lugar".

Tradutor: UOL

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