Opinião: Mulheres na Arábia Saudita enfrentam uma sentença perpétua de domínio masculino

Mona Eltahawy*

No Cairo

  • Efe

Uma semana depois de Dina Ali Lasloom, uma saudita de 24 anos, ter sido arrastada para dentro de um avião de Manila para Riad amordaçada e com braços e pernas amarrados, a ONU votou a favor de nomear a Arábia Saudita para um mandato de quatro anos em sua Comissão dos Direitos da Mulher. Belos direitos esta mulher saudita teve!

No dia 10 de abril, as autoridades do aeroporto de Manila —pela escala nas Filipinas entre o Kuwait, de onde ela havia escapado ao fugir de um casamento forçado, e a Austrália, onde ela pretendia se candidatar ao asilo —confiscaram o passaporte e o cartão de embarque de Lasloom para Sydney e a mantiveram em um hotel do aeroporto até que seus tios chegassem. Quando chegaram, eles a espancaram e a repatriaram forçadamente.

Feministas sauditas acreditam que Lasloom está sendo mantida em uma prisão feminina. Ela certamente não estava presente quando Ivanka Trump disse a um grupo de mulheres sauditas, com quem ela se encontrou no domingo, que a Arábia Saudita havia feito progressos "animadores" na emancipação das mulheres. A mesa-redonda foi conduzida pela princesa Reema Bint Bandar al-Saud, vice-presidente de Assuntos da Mulher na Autoridade Geral Esportiva, um título um tanto irrelevante considerando que se trata de um país onde meninas e mulheres não têm permissão para praticar esportes.

Em resposta, uma mulher saudita chamada Ghada tuitou: "Ivanka Trump só conheceu e viu algumas das fantoches escolhidas que são da classe alta ou da realeza, e elas não representam a maioria de nós!"

As mulheres sauditas devem estar acostumadas a ver mulheres que são protegidas pela riqueza e pela proximidade com o poder exercendo direitos que são negados para a maioria delas. O trato é o seguinte: o pai de Ivanka, o presidente Donald Trump, fechou um acordo de armamentos no valor de US$ 110 bilhões (R$ 360 bilhões) com a Arábia Saudita durante sua visita a Riad. Enquanto isso, os sauditas e os Emirados Árabes Unidos prometeram doar US$ 100 milhões (R$ 327 milhões) a um fundo de mulheres proposto por Ivanka. Durante a campanha eleitoral, seu pai criticou a Fundação Clinton por aceitar dinheiro justamente desses dois países, que segundo ele "querem as mulheres como escravas e a morte de gays".

Usar mulheres sauditas em barganhas é uma tradição antiga. No dia em que Lasloom pousou em Riad, o presidente das Filipinas, Rodrigo Duterte, também chegou à capital saudita para uma visita oficial. Foi tão simples assim fazer o cálculo? Aparentemente sim, já que valeu a pena sacrificar a liberdade de uma mulher saudita do abuso para agradar um país onde trabalham 760 mil filipinos. De fato, a Arábia Saudita —o segundo maior empregador estrangeiro de filipinos— disse a Duterte que precisava de mais trabalhadores filipinos.

"Como mulheres sauditas, somos desgraçadas o suficiente para ter abusadores ricos e bem relacionados neste mundo corrupto", me contou a advogada e ativista Moudi al-Johani. "A mentalidade saudita patriarcal e extremista vê as mulheres como uma propriedade que pertence ao Estado e à família".

Poucos dias depois da repatriação forçada de Lasloom, outra mulher saudita tentou escapar de uma família abusiva, desta vez dentro da Arábia Saudita. Maryam al-Otaibi conseguiu fugir da província de Qassim e se esconder em Riad, mas as autoridades a prenderam e enviaram de volta para casa, onde ela foi presa. Al-Otaibi havia tentado denunciar seu irmão abusivo para a polícia no ano passado, mas sua família revidou com uma queixa por desobediência, um crime para mulheres sob a legislação saudita, pelo qual ela foi presa brevemente e depois devolvida à família.

Na semana passada, ativistas sauditas circularam nas mídias sociais um vídeo de duas jovens, identificadas somente como Ashwaq e Areej, aparentemente irmãs, que disseram estar na Turquia e sob risco de serem repatriadas para a Arábia Saudita, onde elas sofreriam violência, segundo alegavam. Graças a casos como os delas, uma campanha nas mídias sociais feita por mulheres sauditas com a hashtag #StopEnslavingSaudiWomen (parem de escravizar mulheres sauditas) viralizou.

Conheci recentemente Al-Johani, a advogada, e outra mulher saudita, Daha, em Nova York. Elas são as "sortudas" que conseguiram escapar de famílias abusivas. Al-Johani disse que sua família a manteve trancada por oito meses quando ela voltou para casa para uma visita durante seus estudos nos Estados Unidos. Ela deu entrada em um pedido de asilo nos Estados Unidos. Danah também decidiu tentar ficar nos Estados Unidos. Um sociólogo saudita calcula que mais de mil mulheres fujam do reino todos os anos, enquanto um número ainda maior foge de Riad para Jidda, a cidade do Mar Vermelho, que é considerada mais liberal do que a capital.

Eu tinha 15 anos quando minha família se mudou do Reino Unido para Jidda em 1982. Viver na Arábia Saudita foi um choque tão grande para meu sistema que costumo dizer que entrei no feminismo pelo trauma. O reino aplica uma segregação dominante dos sexos. É o único país do mundo que defende uma proibição a mulheres de dirigirem. E o sistema de tutores masculinos torna as mulheres eternas menores de idade, que precisam de permissão de um pai, de um irmão ou até mesmo de um filho para viajar, estudar, se casar ou ter acesso a serviços do governo. (Um decreto recente do governo promete flexibilizar essas regras, mas se ele será aplicado de fato, ainda não se sabe.)

É impossível expressar como é a realidade vivida daquilo que é essencialmente um apartheid de gênero. Quando li pela primeira vez o romance de Margaret Atwood, "O Conto da Aia", foi a Arábia Saudita que eu conhecia que me veio à mente, e não um Estados Unidos em um futuro distópico, como na nova adaptação para a TV. A poeta saudita-americana Majda Gama me disse que ela não conseguia dormir depois de ver a protagonista, Offred, representada por Elisabeth Moss, nos primeiros episódios.

"Aquilo despertou pensamentos que nunca conto aos meus amigos caucasianos porque eles não entenderiam", ela disse, "porque o que Offred viveu como uma espécie de conto de advertência parecia muito com a realidade que eu vivi. A distopia de uma mulher é a realidade de outra".

É famosa a declaração de Atwood de que todos os horrores que ela incluiu em seu livro de 1985 aconteceram de fato em algum lugar e em algum momento. No que diz respeito à Arábia Saudita, muitos deles continuam a acontecer. Ali, Offred é arrastada de volta para o centro de reeducação depois de tentar escapar junto com sua amiga Moira. Aqui, Lasloom é arrastada para dentro de um avião com destino a Riad e depois para a detenção, onde somente funcionários do governo e familiares podem contatá-la, segundo ativistas.

"A maioria das jovens sauditas que estão presas aqui", explicou Hala al-Dosari, uma ativista de direitos das mulheres, "são condenadas por acusações relacionadas à moral, como serem pegas na companhia de um homem que não seja da família, serem acusadas de fugir de casa por um parente homem ou de desobedecer aos pais". Esta última, segundo ela, é tratada como "crime sujeito a detenção imediata na Arábia Saudita".

Al-Dosari publicou uma petição, assinada por mais de 14 mil mulheres sauditas no ano passado, com um apelo para que o rei Salman extinga o sistema de tutela completamente.

"O mais assustador é que uma vez que uma mulher é presa em qualquer instituição estatal", ela disse, "ela só será solta se estiver sob custódia de um parente homem, do contrário permanecerá na prisão ou no abrigo do Estado para sempre".

O sistema tem raízes históricas profundas no reino. "A renda de minha avó era controlada e investida para ela por seus filhos", disse a poeta Gama. "É tudo muito assustador e perturbador quando você vê a caucasiana Offred viver leis que a reduzem a uma propriedade de seu compreensivo e bondoso marido."

"Por sorte meu pai era um tutor compreensivo e bondoso como o marido de Offred mostra ser", ela lembra, "mas nem toda a bondade e risadas do mundo conseguem apagar o fato de que esse sistema é regularmente usado de forma abusiva".

A Arábia Saudita não é só um país conservador com valores diferentes que não deveríamos julgar. É uma Gilead moderna.

*Mona Eltahawy (@monaeltahawy) é autora de "Headscarves and Hymens: Why the Middle East Needs a Sexual Revolution" (Lenços de cabeça e hímens: por que o Oriente Médio precisa de uma revolução sexual) e de artigos de opinião
 

Tradutor: UOL

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