Confronto com grupo ligado ao EI nas Filipinas vira teste para Duterte

Felipe Villamor

  • Xinhua

    25.mai.2017 - Soldados filipinos preparam ação contra o grupo Maute, na província Lanao del Sur

    25.mai.2017 - Soldados filipinos preparam ação contra o grupo Maute, na província Lanao del Sur

Tropas das Filipinas entraram em confronto com combatentes associados ao Estado Islâmico em conflitos intensos na quinta-feira (25), nas proximidades da cidade de Marawi, ao sul, enquanto as Forças Armadas enviavam tanques para proteger instalações vitais em uma batalha que se tornou um teste importante para o governo do presidente Rodrigo Duterte.

Com milhares de pessoas fugindo da cidade e combatentes mantendo um padre católico e outros como reféns, imagens de TV mostravam uma fumaça preta subindo perto da prefeitura de Marawi, enquanto civis que haviam resistido na cidade sitiada assistiam a partir dos telhados.

As explosões e os disparos podiam ser ouvidos à distância, enquanto as Forças Armadas afirmavam estar fazendo progressos na expulsão de combatentes "desesperados", forçando-os a se dividir em grupos enquanto corriam pela cidade tentando fugir.

Os combates levaram Duterte a impor a lei marcial no sul das Filipinas esta semana. As alegações de sucesso das Forças Armadas no combate aos insurgentes pareciam ser contrariadas por imagens e relatos da cidade e áreas circundantes que sugeriam uma situação caótica.

"O que eles estão fazendo agora são jogadas desesperadas", disse o tenente-coronel Joar Herrera, porta-voz do Exército, sobre os insurgentes. "É por isso que estão cometendo ações terroristas para distrair o foco de nossas Forças Armadas", ele acrescentou, falando a partir de um acampamento militar fora da cidade.

Ele disse que tropas haviam começado a se movimentar em torno da cidade sitiada de 200 mil habitantes, retirando residentes que estavam presos em suas casas, quando membros do grupo extremista Abu Sayyaf, apoiado pelo grupo radical Maute, atacaram na terça-feira.

As Forças Armadas começaram a lutar depois de receber relatos de que Isnilon Hapilon, líder de uma facção do Abu Sayyaf que declarou lealdade ao Estado Islâmico, foi visto na área. Mas as tropas do governo se surpreenderam ao encontrar uma força Maute de 100 pessoas com armas altamente potentes.

Herrera disse que Hapilon ainda deveria estar preso na área, descrevendo a movimentação do inimigo como "muito fluida".

"A movimentação do grupo terrorista local não é fixa", ele disse. "Nossas Forças Armadas estão constantemente se reposicionando. Precisamos nos movimentar para estar à frente deles e derrotá-los."

"Nós identificamos alvos que precisamos eliminar, e precisamos neutralizar os remanescentes desse grupo terrorista local", disse Herrera.

Os combates estavam concentrados em pelo menos três vilarejos na periferia da cidade, e tropas têm avançado para dentro da área para expulsar combatentes. Helicópteros armados com metralhadoras tentaram expulsar os insurgentes que haviam tomado uma ponte na cidade, segundo relatos da Reuters. Herrera disse que cerca de 40 rebeldes ainda estariam supostamente espalhados pela cidade.

Ainda não havia notícias sobre o destino do padre e dos demais reféns. Embora as Filipinas sejam o centro do catolicismo na Ásia, a cidade de Marawi é predominantemente muçulmana.

Houve relatos de tiroteios esporádicos na quinta-feira, e o número de mortos chegou a 31 jihadistas,  11 soldados, dois policiais e dois civis. Pelo menos 30 soldados ficaram feridos, de acordo com as Forças Armadas.

Também houve relatos de atiradores matando civis, ainda não verificados, de acordo com o Exército. Um policial foi visto estirado morto em uma delegacia de polícia que foi atacada por atiradores.

A intensidade dos combates pegou o governo de surpresa, levando Duterte a abreviar uma viagem para a Rússia além de declarar a lei marcial no sul.

Na quarta-feira, ele levantou a possibilidade de rebeldes associados ao Estado Islâmico se estabelecerem no norte das Filipinas e alertou que ele poderia impor uma lei militar ao resto do país. Isso alarmou grupos de direitos humanos, que disseram que seria um retorno para a ditadura de Ferdinando Marcos, cujo nome foi invocado por Duterte.

Grupos de direitos humanos alertaram que a declaração de lei marcial poderia levar a mais abusos, inclusive a mais mortes na sangrenta guerra às drogas do presidente, que até o momento deixaram milhares de mortos desde o ano passado.

A "referência casual [de Duterte] ao ditador falecido deveria ser especialmente alarmante", disse James Ross do associação de direitos humanos Human Rights Watch, residente em Nova York.

"Duterte enfrenta um obstáculo significativo para se tornar o próximo Marcos: a Constituição filipina de 1987, que coloca restrições sobre a imposição e a condução da lei marcial", ele disse, acrescentando que o Congresso poderia revogar a proclamação de lei marcial por uma votação majoritária e que a Suprema Corte poderia deliberar sobre a base factual para sua declaração.

Vários legisladores já manifestaram preocupação, e o líder da oposição Francis Pangilinan promete "se opor vigorosamente a uma declaração de lei marcial em nível nacional".

"Embora possa haver atos terroristas isolados nessas áreas, não há uma invasão ou rebelião em nível de Visaya ou de Luzon que mereça uma declaração de lei marcial", disse Pangilinan, referindo-se à ameaça do presidente de expandir a lei militar para as ilhas centrais e do norte para cobrir o país inteiro.

Tradutor: UOL

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