"Efeito Trump" e custos baixos levam a aumento de alunos estrangeiros em faculdades no Canadá

Craig S. Smith

  • Jim Wilson/The New York Times

    Sofía Solar Cafaggi, da Cidade do México, obteve seu bacharelado na McGill University, em Montreal

    Sofía Solar Cafaggi, da Cidade do México, obteve seu bacharelado na McGill University, em Montreal

As universidades canadenses terão um ar mais internacional neste ano.

A matrícula de estudantes estrangeiros será acentuadamente maior, dizem as universidades, e entre os calouros estão um grande número de estudantes formados no ensino médio nos EUA. Com o aumento ocorrendo durante o primeiro ano de uma presidência contenciosa, fala-se muito da tendência ser uma reação óbvia ao presidente Donald Trump.

"O chamado efeito Trump é real quando se trata de matrículas no Canadá", disse Alan Shepard, presidente da Universidade Concordia, em Montreal. "As matrículas de estudantes estrangeiros para o segundo semestre aumentaram."

Mas não é tão simples. Apesar de muitos estudantes que escolheram o Canadá para cursarem o ensino superior terem citado o clima político nos EUA, diretores e estudantes dizem que a economia continua sendo o motivo principal.

Maddie Zeif, 18 anos, uma estudante colegial de Sunderland, Vermont, disse que os custos no Canadá são mais baratos do que nos Estados Unidos e comparáveis até ao preço com desconto para moradores do Estado na Universidade de Vermont. Ela cursará a Universidade da Colúmbia Britânica (UBC, na sigla em inglês) no segundo semestre.

"Na UBC, estarei bem na cidade, em uma grande universidade, à beira-mar, a uma hora de Whistler", ela disse por e-mail, referindo-se ao popular resort de esqui canadense, "e pagarei quase o mesmo valor que as despesas daqui para moradores do Estado, ainda sem levar em consideração qualquer ajuda financeira".

Além do custo e do clima político, os estudantes também se dizem atraídos pelo atendimento de saúde a preço acessível, relativa segurança e a atmosfera mais relaxada no Canadá. Os estudantes de fora da América do Norte também apontam para a facilidade de imigração para o Canadá.

Com cerca de 1 milhão de estudantes estrangeiros dentro de suas fronteiras, os Estados Unidos ainda são os líderes mundiais em educação. A população estudantil estrangeira do Canadá, entretanto, aumentou 92% de 2008 a 2015, chegando a mais de 350 mil, segundo o Escritório Canadense de Educação Internacional.

Os números finais para o período de matrícula deste ano ainda não estão disponíveis. Mas representantes das universidades canadenses dizem que os primeiros números sugerem que o Canadá educará muito mais estudantes estrangeiros do que nunca no segundo semestre, particularmente dos EUA.

Michael Stravato/The New York Times
Nancy Gorosh, de Houston, acabou de terminar o primeiro ano como caloura na Concordia University, em Montreal


Na Universidade Ryerson, em Toronto, por exemplo, o número de estudantes estrangeiros, incluindo dos EUA, que confirmaram que a cursarão no segundo semestre aumentou quase 50% em comparação ao mesmo período do ano passado.

Representantes da Universidade de Toronto disseram que a matrícula de estudantes dos EUA para o segundo semestre dobrou em comparação ao último ano letivo, com um "rendimento", o percentual de estudantes aceitos que confirmam que cursarão a universidade, de 25% em comparação a cerca de 20% no ano passado.

"Veremos números recordes de estudantes dos EUA", disse Ted Sargent, vice-presidente da universidade, a maior do Canadá.

Os representantes da Universidade de Toronto também disseram ter visto um aumento de matrículas de outros países, com um aumento de 75% da Índia e mais de 60% do Oriente Médio e Turquia.

Universidades menores, como Mount Saint Vincent, em Halifax, Nova Escócia, disseram que o número de candidatos dos EUA mais que dobrou neste ano.

O preço das faculdades canadenses é, em geral, mais baixo que o das universidades americanas equivalentes, mesmo com os estudantes estrangeiros pagando um valor mais alto que os canadenses.

Além disso, a desvalorização da moeda canadense em relação ao dólar americano dá aos alunos que estudarão no Canadá um desconto instantâneo de cerca de 26%.

Megan Ludwig, 23 anos, de Prather, Califórnia, se formou pela Universidade de Nevada em eco-hidrologia, que estuda a interação entre a água e os ecossistemas. Mas para seu diploma de mestrado, ela optou pelo Canadá, pois os aspectos econômicos eram atraentes.

"O preço por semestre canadense é metade ou menos que o da maioria das universidades americanas e as bolsas para posições de mestrado são menos competitivas e mais amplamente disponíveis", escreveu Ludwig por e-mail. Ela disse que conseguiu uma ajuda de custo que equivale a quase o dobro das ofertas que recebeu nos EUA.

Nancy Gorosh, 19, de Houston, acabou de concluir seu ano como caloura em Concordia. No ano passado, ela estava dividida entre cursar Concordia e a Universidade Hofstra, em Hempstead, Nova York. Gorosh disse que suas despesas e taxas escolares em Concordia serão de cerca de US$ 12.400 (cerca de R$ 40.450) por ano; na Hofstra seriam de cerca de US$ 44 mil (cerca de R$ 143.500).

Política passa pela cabeça dos estudantes que estão optando por cursar o ensino superior no Canadá, mas suas preocupações não se resumem a simplesmente não gostarem de Trump.

Karsten Moran/The New York Times
Maddie Zeif, estudante do secundário de Vermont, planeja cursar a Universidade da Colúmbia Britânica no Canadá


"Não quero passar meus anos como universitária preocupada com o que acontecerá caso eu precise de um aborto", disse Zeif. "Não quero passar meus anos como universitária preocupada com o que acontecerá caso seja pega com um pouco de maconha na minha bolsa."

Ankit Saxena, um engenheiro de 23 anos de Nova Déli, se candidatou a programas de pós-graduação no segundo semestre. Ele disse que as políticas de Trump foram um dos muitos fatores que o levaram a preferir o Canadá aos Estados Unidos. Ele planeja se candidatar a vaga na Universidade de Toronto, na Universidade de Waterloo e Universidade de Colúmbia Britânica, entre outras.

"A discriminação racial está se transformando em um grande problema, e é realmente assustador ouvir sobre um indiano sendo baleado nos Estados Unidos a cada semana", disse Saxena.

Alguns estudantes dizem que o processo de visto para entrada nos EUA é oneroso, especialmente considerando a incerteza a respeito de como as regras podem mudar. Mais da metade dos estudantes estrangeiros no Canadá planeja pedir residência permanente, segundo o escritório canadense de educação internacional.

Marius Poyard, da França, disse que tinha a opção de fazer seu mestrado em engenharia mecânica na Universidade Estadual de Michigan, na Faculdade de Manhattan ou na Universidade de Sherbrooke, em Quebec. Mas não conseguiu encarar o processo de pedido de visto para os EUA após tê-lo suportado para um programa de verão vários anos atrás.

Ele se queixou das perguntas irrelevantes feitas online, da necessidade de viajar para Paris para uma entrevista e depois esperar por horas por ela, que consistia de algumas poucas perguntas que ele já tinha respondido online. O processo canadense foi simples, ele disse. "Tudo foi feito pela internet e muito rápido."

Mas Poyard disse que o preço foi outro motivo atraente para ter escolhido o Canadá. A Universidade de Sherbrooke custará menos de um terço que as outras opções nos EUA.

Sofia Solar Cafeggi, 29 anos, da Cidade do México, obteve seu diploma de graduação pela Universidade McGill, em Montreal, após recusar o Instituto de Tecnologia de Massachusetts devido ao custo. Ela obteve residência permanente no Canadá dois anos após se formar. Agora ela cursará medicina. Ela disse que lhe ofereceram uma bolsa de estudos plena em uma escola nos Estados Unidos, mas optou pela Universidade de Toronto.

"Eu posso obter cidadania após me formar, enquanto nos EUA seria uma estrangeira por mais outra década e precisaria de que alguém se responsabilizasse para obtenção da residência", ela disse.

Jane White, de Carbondale, Illinois, citou o atendimento de saúde como principal motivo para cursar o programa de mestrado na Universidade Nipissing, em Ontário neste ano.

Segundo a Lei de Atendimento de Saúde a Preço Acessível, White contava com cobertura do plano de saúde de sua família até os 26 anos. Aos 27, ela estaria coberta pelo plano estadual, mas agora ela não sabe como pagará os US$ 300 (cerca de R$ 980) por mês que precisa para sua medicação para asma, caso as regras mudem.

Outros medicamentos exigem consulta periódica com um médico, elevando ainda mais o custo.

"Tanto meu marido quanto eu temos direito a atendimento de saúde por meio da universidade canadense", ela disse.
 

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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