Grávida aos 18 anos, ela foi aplaudida por inimigos do aborto e punida por uma escola cristã

Sheryl Gay Stolberg

Em Boonsboro (Maryland)

  • Nate Pesce/The New York Times

Maddi Runkles nunca teve problemas disciplinares.

Ela tem uma média de 4.0 na Heritage Academy, a pequena escola particular cristã que frequenta, jogava na equipe de futebol e foi presidente do conselho estudantil. Mas quando seus colegas de último ano do ensino médio estiverem na cerimônia de formatura no começo do próximo mês, com suas becas e capelos azuis, Runkles, de 18 anos, não estará entre eles.

O motivo? Sua gravidez.

A decisão tomada pela diretoria da escola de impedir a participação de Runkles na formatura —e de removê-la de seu cargo no conselho estudantil— não teria vindo a público, se sua família não tivesse decidido procurar ajuda da Students for Life. O grupo anti-aborto, que a levou até um comício em Washington recentemente, argumenta que ela deveria ser elogiada, e não punida, por sua decisão de ficar com o bebê.

"Ela tomou a corajosa decisão de optar pela vida, e definitivamente não deveria ser humilhada", diz Kristan Hawkins, presidente da Students for Life, que tentou sem sucesso convencer o administrador da Heritage Academy a reverter a decisão. "Deve haver um meio de tratar uma jovem que engravida de uma forma elegante e carinhosa."

David Hobbs, administrador da Heritage Academy, uma escola independente não denominacional de Hagerstown, em Maryland, onde os alunos têm diariamente aulas sobre a Bíblia, se negou a falar sobre Runkles.

Em uma declaração por escrito emitida em nome do conselho de diretores da escola, ele disse que Runkles teria seu diploma e que sua gravidez era "uma questão interna sobre a qual foram realizadas muitas preces e discussões".

Nate Pesce/The New York Times
Maddi Runkles segura foto de seu ultrassom, em Boonsboro, Maryland (EUA)

A história de Runkles coloca em evidência uma questão delicada: como as escolas cristãs, que defendem a abstinência antes do casamento, lidam com adolescentes que engravidam.

"Você tem esses dois valores concorrentes", diz Brad Wilcox, sociólogo na Universidade de Virgínia e diretor do National Marriage Project, que conduz pesquisas sobre casamento e família.

"Por um lado, a escola está procurando manter algum tipo de comprometimento com o que tradicionalmente se chamava de castidade, ou o que hoje pode se chamar de abstinência. Ao mesmo tempo, há uma expectativa em muitos círculos cristãos de que estamos fazendo tudo que podemos para honrar a vida".

Conseguir esse equilíbrio é extremamente difícil para educadores cristãos, e as escolas respondem de maneiras diversas, diz Rick Kempton, presidente do comitê da Associação Internacional de Escolas Cristãs, que representa cerca de 3 mil escolas nos Estados Unidos e muitas em outros países.

"Existe um termo bíblico que muitas escolas cristãs usam, e é toda a ideia da graça: o que Jesus faria?", diz Kempton. Sobre Runkles, ele ainda acrescenta: "Ela está tomando a decisão certa. Mas não queremos criar uma comemoração que faça as outras meninas pensarem: "Hum, essa parece uma ótima opção."

Ele diz que algumas escolas podem insistir que alunas grávidas terminem o ano escolar em casa. Essa foi uma opção considerada para Runkles. Ela recebeu uma suspensão de dois dias enquanto o comitê da Heritage, na época liderado pelo pai dela, Scott, se debatia sobre o que fazer com ela.

Scott Runkles, vice-presidente de um banco, se declarou não apto a tomar decisões envolvendo sua filha, mas no final ele deixou o comitê furioso com a forma como ela estava sendo tratada.

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Maddi Runkles em sua casa em Boonsboro, Maryland (EUA)

"Normalmente, quando alguém quebra alguma regra, você pune a pessoa no momento em que ela quebra a regra. Dessa forma, o castigo fica para trás e ela segue em frente começando do zero", ele diz. "Com Maddi, a punição dela foi determinada depois de quatro meses. Arruinou seu último ano letivo."

Em 2009, a Associação Nacional de Evangélicos, baseando-se em números da Campanha Nacional de Prevenção de Gravidez Não Planejada e entre Adolescentes, relatou que 80% dos jovens evangélicos faziam sexo pré-marital. Contudo, uma porta-voz do grupo evangélico disse que sua própria pesquisa sugeria que o número seria muito menor.

Pouco mais da metade das mulheres que fazem aborto, 54%, se identificam como cristãs, de acordo com o Instituto Guttmacher, uma organização de pesquisa que acompanha políticas sobre o aborto.

Uma delas é Jessica Klick, 40, diretora esportiva da Heritage Academy, que tem atuado como mentora de Maddi Runkles. Klick fez dois abortos, um quando tinha 20 anos e o segundo aos 21, depois de engravidar de um homem com quem ela veio a se casar depois.

Klick, que tem dois filhos junto com seu marido, disse ter falado abertamente sobre seu passado para alunos da Heritage Academy. Ela disse que se sentiu pressionada a interromper suas gestações por sua própria criação religiosa. Ela ficou apavorada com o que seus pais pensariam. Quando ela ligou para uma clínica para marcar uma consulta, forneceu um nome falso.

"Fui até uma clínica de aborto sabendo que não deveria, e Deus era a última coisa que passava pela minha cabeça", ela disse.

Runkles, que se considera "uma cristã renascida praticante", espera criar seu bebê, um menino, com a ajuda dos pais, e tem a foto emoldurada de um ultrassom no criado-mudo na casa de sua família aqui em Boonsboro, uma cidadezinha rural de aproximadamente 3.500 habitantes não longe de Antietam, o campo de batalha da Guerra Civil.

Ela diz que a criança é uma "bênção", mas não quis falar sobre o pai do bebê, exceto pelo fato de que eles não pretendem se casar, e que ele não frequenta a Heritage Academy.

Nate Pesce/The New York Times
A entrada da Heritage Academy, uma escola privada cristã em Hagerstown, Maryland (EUA)

Runkles descobriu que estava grávida em janeiro, poucos dias antes de receber uma carta de aceitação para a faculdade que ela esperava frequentar: a Universidade Bob Jones, uma escola cristã de artes liberais em Greenville, na Carolina do Sul.

Inicialmente, ela tentou manter a gravidez em segredo. Ela diz também ter considerado brevemente um aborto. Mas, passados alguns dias, ela contou para sua mãe, Sharon, que trabalha em uma clínica psiquiátrica, e depois para seu pai, que convocou uma reunião de emergência, segundo ele, para informar Hobbs e os membros do conselho.

A Heritage Academy, que tem menos de 200 alunos, desde o pré-jardim de infância até a 12ª série, foi fundada em 1969, segundo seu website, por pais "que rogavam sinceramente por uma escola cristã onde as crianças pudessem ser ensinadas de acordo com a Palavra Sagrada de Deus".

Sua "declaração de fé" em nove pontos declara que "nenhuma atividade sexual deve ser praticada fora do compromisso matrimonial entre um homem e uma mulher".

Runkles disse que sabia que seria punida, "porque eu infringi o código da escola". Ela afirma que quando Hobbs decidiu anunciar sua gravidez para seus colegas de classe mais velhos, ela lhe disse que ela mesma anunciaria, e o fez durante uma comovente sessão no auditório da escola.

Muitos alunos lhe agradeceram. Ela disse que sentia estar sendo tratada mais duramente do que muitos alunos que foram suspensos, por exemplo, por beberem sendo menores de idade e mentirem a respeito.

"Eu mesma me entreguei", ela disse. "Eu pedi perdão. Pedi ajuda."

Sara Moslener, que leciona filosofia e religião na Universidade Central de Michigan e escreveu a fundo sobre evangélicos e sexualidade, disse que a situação de Runkles lhe parecia "muito com a de 'A Letra Escarlate'".

Runkles concorda. Ela está tentando fundar uma filial da Embrace Grace, uma organização que trabalha com igrejas para ajudar mulheres grávidas solteiras. Embora receba o apoio de muitas pessoas na escola, às vezes ela ainda se sente deslocada.

Ela usa uma jaqueta sobre o uniforme da escola, que consiste em uma camisa polo e uma saia cáqui, para cobrir sua barriga proeminente, de forma que os outros não se sintam constrangidos. Seus pais estão planejando uma cerimônia de formatura só para ela no dia 3 de junho, um dia após o evento da Heritage Academy.

"Algumas pessoas pró-vida são contra matar bebês não nascidos, mas não se pronunciam a favor da garota que opta por ficar com o bebê", ela disse. "Sinceramente, isso me faz pensar que um aborto teria sido melhor. Assim eles teriam simplesmente me perdoado, em vez de ter de lidar com esta consequência visível."

Tradutor: UOL

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