Coadjuvante, Melania mostrou em viagem que pode roubar a cena de Trump

Mark Landler

Em Taormina (Sicília)

  • L'Osservatore Romano via AP

    24.mai.2017 - Papa Francisco cumprimenta a primeira-dama dos EUA no Vaticano

    24.mai.2017 - Papa Francisco cumprimenta a primeira-dama dos EUA no Vaticano

É difícil imaginar o presidente Donald Trump se apresentando a uma sala cheia de repórteres como "o homem que acompanhou Melania Trump em Roma". Mas Trump poderia ter emprestado a memorável frase de John F. Kennedy depois que ele e a primeira-dama visitaram o Vaticano na semana passada.

Kennedy a pronunciou durante uma viagem a Paris em junho de 1961 quando sua mulher, Jacqueline Kennedy, encantou tanto os franceses que o presidente sugeriu, meio de brincadeira, que ele era pouco mais do que um acompanhante. "E eu gostei", acrescentou.

Trump não é afeito à falsa modéstia—nem a coletivas de imprensa, em sua recém-completa viagem de nove dias ao exterior. Mas, assim como Kennedy em Paris, ele pareceu completamente ofuscado quando apresentou sua mulher ao papa Francisco após uma audiência no Palácio Apostólico. O papa parecia sério e desconfortável ao lado do presidente, mas, quando Melania Trump apertou sua mão, com um véu preto sobre o cabelo, o rosto dele se abriu em um sorriso.

Fazendo um gesto na direção do marido, o papa perguntou, provocador: "O que você dá de comer a ele? Potica?" Melania Trump pareceu surpresa por sua referência a uma sobremesa de sua nativa Eslovênia: "Potica?", ela perguntou, com um sorriso. "Sim!"

Claramente deleitada, ela depois voltou para reaver um rosário entregue a ela por um assessor do Vaticano, que o papa havia abençoado. (Seu porta-voz confirmou que Melania Trump é católica; a última primeira-dama católica havia sido Jacqueline Kennedy).

Mais tarde, enquanto a delegação de Trump partia, Melania Trump disse ao papa que iria visitar o hospital infantil Bambino Gesù em Roma ainda naquele dia. Ela havia escrito a Francisco uma carta pedindo por sua permissão para fazer a visita. Eles desejaram sorte um ao outro.

Remo Casilli/Pool Photo via AP
24.mai.2017 - Melania durante visita ao hospital pediátrico Bambino Gesù, em Roma

O dia em Roma poderia ter sido o destaque da viagem de Melania Trump, que incluiu vários momentos enfadonhos onde ela permaneceu estoicamente parada atrás do presidente, olhando para frente sem dizer nada.

Mas, em uma sequência registrada em vídeo que desencadeou uma enxurrada de especulações inflamadas sobre o estado do casamento deles, a primeira-dama recusou a mão estendida de seu marido enquanto eles andavam pelo tapete vermelho depois de pousar no aeroporto de Ben Gurion, em Tel-Aviv, Israel.

Melania Trump não era a estrela dessa primeira viagem; esse papel só poderia caber a Donald Trump. Mas ela foi uma das figuras mais intrigantes, às vezes enigmática, às vezes expressiva, e sempre bem-vestida, com um guarda-roupa glamoroso que se alternava entre Michael Kors e Dolce & Gabbana. Ela era a atriz coadjuvante que por vezes roubou o centro das atenções. 

"Historicamente, primeiras-damas fizeram a diferença em viagens como essa", disse Michael Beschloss, um historiador especializado em presidências.

Kennedy, ele observou, tinha a preocupação de que Jacqueline pudesse ser uma desvantagem política porque os americanos a veriam como elitista. Mas ela foi uma sensação na França em 1961, encantando Charles de Gaulle com seu conhecimento sobre a língua francesa e a história do país. Ela ajudou a acalmar as relações entre De Gaulle e Kennedy e, mais tarde, entre Kennedy e o líder soviético Nikita Khruschchev. Ao fazer isso, ela se tornou uma figura cultuada nos Estados Unidos.

Considerando que Melania Trump tem sido uma presença espectral na Casa Branca de seu marido, ao ficar em Nova York na maior parte do tempo junto com o filho do casal, Barron, essa viagem foi como uma festa de debutante para ela.

E também pode ser uma pista para que tipo de primeira-dama ela provavelmente se tornará: nem a companheira independente em pé de igualdade que Hillary Clinton foi para Bill Clinton, nem a esposa dedicada e sofredora que Patricia Nixon foi para Richard Nixon. 

Quando a viagem chegou ao fim, Donald Trump parecia reconhecer seu discreto poder de estrelato. Ao falar com militares americanos na base aérea de Sigonella na Sicília, ele disse que os Estados Unidos não poderiam ter uma emissária melhor do que "nossa magnífica e maravilhosa primeira-dama, Melania".

"Os países do mundo têm um grande número de discordâncias", ele disse, "mas todos concordam comigo nisso, posso afirmar. Todos os lugares aonde vamos é a mesma história. Ela faz um excelente trabalho".

Melania Trump apresentou seu marido aos militares e falou que a semana havia sido um marco para ela também.

"Essa viagem, para mim, tem sido muito especial, e nunca vou me esquecer das mulheres e das crianças que conheci", ela disse. "Como uma das crianças no hospital que visitei disse em um desenho que fez para mim: Somos todos iguais."

Havia algo de comovente na forma como Melania Trump tentou mostrar um aspecto de simplicidade. Como ex-modelo, casada com um bilionário, vivendo em uma cobertura tríplex na Trump Tower, nunca será fácil para ela convencer os oprimidos que ela entende seus problemas. Mas ela passou por esses rituais com bravura.

No hospital em Roma, Melania Trump disse, ela passou algum tempo conversando com um menino que estava esperando por um coração novo. Algumas horas depois de ir embora, ela soube que haviam encontrado um doador. "Nunca vou me esquecer desse momento em que recebi a notícia", ela disse. "Espero que ele tenha uma rápida recuperação."

Assim como Jacqueline Kennedy, Melania Trump logo imprimiu sua marca na moda. Suas roupas, como a saia de couro cor de abóbora que usou no voo para a Arábia Saudita e o vestido verde-oliva que vestiu em Riad, instigaram milhares de fotos e matérias com análises.

E também levou à grande polêmica fashion da viagem: uma jaqueta com apliques de flores de seda, desenhada por Dolce & Gabbana, que ela usou enquanto passeava pela cidade durante a reunião do G-7 em Taormina, que pode ser comprada por US$ 51 mil (R$ 166 mil).

Os detratores questionaram como Melania Trump poderia justificar a escolha por uma jaqueta que custa pouco menos que a renda familiar média nos Estados Unidos. Seus defensores argumentaram que ela a escolheu com cuidado, pelo fato de o estilista ter raízes na Sicília. Além disso, Taormina é uma cidade espalhafatosa cheia de playboys velhos e russos ricos, não muito diferente de Palm Beach, na Flórida.

De qualquer forma, a escolha de Melania Trump chamou a atenção das pessoas, nada fácil quando seu marido é Donald Trump.

Tradutor: UOL

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