Trump prepara 'sala de guerra' jurídica na Casa Branca para enfrentar investigações

Maggie Haberman, Glenn Thrush e Julie Hirschfeld Davis

De Nova York e Washington (EUA)*

  • AFP PHOTO / Brendan Smialowski

    27.mai.2017 Trump e Melania chegam à Casa Branca após viagem de 9 dias pelo Oriente Médio e Europa

    27.mai.2017 Trump e Melania chegam à Casa Branca após viagem de 9 dias pelo Oriente Médio e Europa

O presidente Donald Trump voltou para casa no sábado (27) para enfrentar uma crescente ameaça política e jurídica, enquanto seus principais assessores tentavam conter os efeitos das reportagens de que seu genro, Jared Kushner, é foco de investigações de possível conluio entre a Rússia e a campanha e equipe de transição do presidente.

Trump terminou uma viagem de nove dias ao exterior, que assessores consideraram a parte mais bem-sucedida de sua Presidência, e retornou a uma crise que cresceu muito durante sua ausência. A Casa Branca cancelou uma viagem presidencial a Iowa nos próximos dias e estava montando um plano de contenção de danos para expandir a equipe jurídica do presidente, reorganizar sua equipe de comunicações e bloquear o escândalo que pôs em risco sua agenda e agora ameaça envolver sua família.

A equipe jurídica privada de Trump, chefiada por seu advogado em Nova York, Marc Kasowitz, preparava-se para se reunir em Washington para enfrentar novas perguntas sobre contatos entre Kushner e representantes do presidente Vladimir Putin, da Rússia. Assessores recrutaram uma série de importantes advogados de Washington experientes em investigações políticas para Trump entrevistar, na esperança de que eles se somem à equipe jurídica.

Kushner, que organizou as escalas do presidente no Oriente Médio no início da viagem ao exterior, decidiu voltar a Washington vários dias antes e esteve incomumente discreto desde então. Mas ele não pretende descer de seu papel de assessor sênior ou reduzir suas funções, segundo pessoas próximas a ele.

Mas há sinais de que Kushner está se cansando do combate incessante e dos danos à sua reputação. Ele disse a amigos que ele e sua mulher, Ivanka Trump, não fizeram um compromisso de longo prazo de permanecer ao lado de Trump, dizendo que eles analisariam a cada seis meses se voltariam à vida privada em Nova York.

Os problemas de Kushner são apenas uma faceta da crise. Reince Priebus, o chefe de gabinete da Casa Branca, e Steve Bannon, o principal estrategista do presidente, também abandonaram cedo a viagem, em parte para voltar a lidar com o furor político sobre as investigações da Rússia e a decisão do presidente de demitir James Comey da direção do FBI.

A Casa Branca estava tentando descobrir como reagir às reportagens de que Kushner tinha falado em dezembro com o embaixador da Rússia, Sergey Kislyak, sobre estabelecer um canal secreto entre a equipe de transição de seu sogro e Moscou para discutir a guerra na Síria e outras questões. O jornal "The Washington Post" relatou primeiro essa sugestão na sexta-feira (26), e três pessoas informadas do assunto o confirmaram a "The New York Times".

A conversa ocorreu na Trump Tower em uma reunião que incluiu Michael Flynn, que serviu por breve período como assessor de segurança nacional de Trump, até ser obrigado a sair quando se revelou que ele havia enganado o vice-presidente Mike Pence e outros sobre um telefonema que teve com Kislyak. Não ficou claro quem propôs primeiro o canal secreto de comunicação, mas a ideia era que Flynn falasse diretamente com uma autoridade militar russa. O canal nunca foi montado.

Enquanto surgiam reportagens sobre o foco dos investigadores em Kushner, ele e Ivanka discutiram a possibilidade de Donald McGahn, o advogado da Casa Branca, emitir uma declaração negando que McGahn tivesse sido contatado por autoridades federais sobre Kushner.

McGahn, que está cada vez mais instável em seu papel desde que Trump ignorou seu conselho de adiar a demissão de Comey, disse que não era a pessoa certa para escrever tal declaração, sugerindo que fazer isso criaria um precedente que exigiria uma resposta a cada nova reportagem. Então o advogado particular de Kushner emitiu uma declaração.

Ivanka e Kushner se queixaram em particular sobre o que ele considera um nível injusto de análise de seus atos. Kushner considerou a atenção sobre ele um reflexo da abordagem inconvencional de seu sogro à diplomacia e sua inexperiência no governo, e não de algo incorreto que ele tivesse feito. Pessoas próximas a Kushner, que almoçou com Priebus na sexta-feira (26) e projetava um ar de calma, afirmaram que ele se prepara para uma longa briga, e não uma saída da Casa Branca.

As reportagens sobre Kushner dominaram uma entrevista coletiva sobre a viagem dada em Taormina, Itália, em que o tenente-general H.R. McMaster, assessor de segurança nacional do presidente, e Gary Cohn, seu principal assessor econômico, não quiseram comentar especificamente Kushner, mas tentaram reduzir a importância das revelações.

"Temos comunicações sigilosas com um grande número de países", disse McMaster. "Por isso, falando de modo geral sobre comunicações sigilosas, elas permitem que você se comunique de maneira discreta. Não o predispõe a qualquer tipo de conteúdo nessa conversa."

Ele não disse se concordava com a ideia de que um cidadão privado, como era Kushner na época, abrisse esse canal sigiloso.

Nos bastidores, assessores de Trump trabalham para criar uma operação de comunicações de controle de crise na Casa Branca, para separar as investigações da Rússia e escândalos relacionados dos assuntos cotidianos do governo e o trabalho de governar, segundo várias pessoas inteiradas sobre seus planos que falaram sob a condição de anonimato porque não tinham autorização para divulgar detalhes de uma estratégia ainda em evolução.

O objetivo, segundo essas pessoas, é dar a Trump mais canais para comunicar sua mensagem de maneira tosca, enquanto contém as oportunidades de assessores serem confrontados publicamente com fatos prejudiciais ou reportagens desfavoráveis.

Assessores da Casa Branca estavam tentando montar uma força-tarefa fora da equipe jurídica, em que eles esperavam incluir advogados experientes de Washington da estatura de Paul Clement, Theodore Olson ou Brendan Sullivan, e planejavam apresentar alguns deles a Trump. Mais advogados poderão ser contratados para a equipe da Casa Branca para ajudar McGahn.

A abordagem tem como modelo a 'sala de guerra' usada pelo presidente Bill Clinton durante várias investigações, inclusive a que levou ao seu impeachment por mentir sob juramento sobre seu caso com Monica Lewinsky. Clinton manteve uma equipe jurídica pessoal e criou um escritório separado para lidar com questões das investigações, de modo que a Casa Branca pudesse preservar a imagem de governança e manter seu enfoque principal na mensagem mais ampla do presidente.

Assessores estão falando em trazer Corey Lewandowski, o ex-diretor de campanha de Trump, e David Bossie, seu vice-diretor, para a equipe da Casa Branca para administrar a 'sala de guerra'.

No cenário futuro, Sean Spicer, o secretário de imprensa da Casa Branca, teria um papel público menor, com comunicados diários à TV substituídos por interações mais limitadas com jornalistas, enquanto Trump aproveitaria mais oportunidades para se comunicar diretamente com seus apoiadores principais por meio de comícios, aparições em redes sociais como vídeos ao vivo no Facebook e entrevistas com organizações noticiosas amigas.

O presidente, que tem mais de 30 milhões de seguidores no Twitter, ouviu conselhos de seus advogados para limitar suas postagens. Eles afirmam em particular que cada uma delas pode ser usada como prova em um caso jurídico contra ele, e o presidente fez toda a viagem ao exterior sem postar uma única mensagem incendiária.

Entre os mais decididos a limitar o acesso de Trump à mídia noticiosa estava Kushner, que criticou internamente a operação de imprensa da Casa Branca e tentou marginalizar Spicer, que ele considera indisciplinado demais para controlar a mensagem do presidente. Kushner também preferia criar uma equipe de resposta rápida para atacar reportagens como as que surgiram na sexta-feira.

Em uma medida que muitos na Ala Oeste consideram emblemática de sua tentativa de tomar o controle das comunicações de Spicer e Priebus, Kushner deslocou um oficial de operações do escritório em frente ao seu e instalou no lugar dele seu porta-voz, Josh Raffel, segundo duas pessoas inteiradas do assunto.

Os filhos de Trump Don Jr. e Eric, que hoje dirigem os negócios da família, ficaram frustrados pela falta de um sistema de apoio sólido ou uma operação efetiva para combater a série de reportagens negativas, segundo três pessoas que falaram com eles. Os filhos passaram algum tempo na quinta-feira (25) na sede do Comitê Nacional Republicano, o que foi relatado primeiramente pelo "Post". Eles também tiveram antes uma conversa com pelo menos um agente republicano sobre um reforço das comunicações no comitê de campanha.

Estrategistas republicanos disseram que é vital para Trump se concentrar na promoção de uma agenda legislativa, para mostrar aos eleitores que o governo pode gerar mudanças políticas e aliviar os temores dos legisladores de que os problemas do presidente possam prejudicar suas chances de reeleição.

"O que eles precisam fazer é reforçar o lado legislativo das coisas e dizer: OK, isso está caminhando, e Trump vai ser Trump, mas enquanto isso eles estão na verdade trabalhando para conseguir aprovar algum tipo de plano de saúde pública no Senado, algum tipo de reforma fiscal, e o que eles prometeram que fariam", disse Rich Galen, um alto assessor de Newt Gingrich quando ele foi presidente da Câmara durante o mandato de Clinton.

*Colaboraram Peter Baker, de Washington, e Mark Landler, de Taormina (Itália)

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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