Jovens e desempregados, tunisianos se articulam por uma "segunda revolução"

Carlotta Gall

Em El Kamour (Tunísia)

  • Carlotta Gall/The New York Times

    Manifestantes da cidade de Remada acampam em El Kamour, na Tunísia

    Manifestantes da cidade de Remada acampam em El Kamour, na Tunísia

Pode parecer só um aglomerado de barracas armadas do lado de fora de uma estação de bombeamento de petróleo na beira do Saara. Mas, para as pessoas dessa região ao sul do país, essa é a segunda revolução da Tunísia.

Cansados de esperar para que o governo os tirasse da pobreza e criasse empregos, milhares de jovens estão aqui há semanas acampando e protestando na capital da província, Tataouine.

Na última semana, manifestantes fecharam o principal oleoduto em El Kamour e entraram em confronto com unidades da Guarda Nacional que tentaram incendiar o acampamento na segunda-feira. Uma delegacia de polícia e um posto da guarda nacional foram incendiados, na sequência. Um manifestante foi morto, e pelo menos outros dois ficaram gravemente feridos.

Seis anos após a revolução que derrubou o ditador que esteve por 23 anos à frente da Tunísia, Zine el Abidine Ben Ali, os protestos refletem uma frustração crescente com as promessas não cumpridas dos novos líderes democráticos do país, de trazer melhorias concretas para regiões mais pobres como esta.

No entanto, os próprios manifestantes são um sinal de mudança no país, assim como os desafios que o governo tem enfrentado. Os manifestantes são representantes de uma nova geração que cresceu em relativa liberdade, mas passaram a encarar a perspectiva de longos períodos de desemprego.

Grande parte deles são universitários formados, organizados e articulados. Todos desempregados, eles formaram um movimento unido a partir de manifestantes de uma faixa de cidades e vilarejos de toda a região.

Não houve um estopim em especial que tenha dado início aos protestos, sendo que o primeiro foi em Ksar Ouled Debbeb, uma cidadezinha na periferia de Tatouine, no dia 14 de março. A demanda principal dos manifestantes são simplesmente mais empregos.

"Estávamos fartos", disse Ali Ghaffari, 24, um estudante de inglês. "Éramos jovens de 20 e tantos anos. Fizemos uma lista de 260 pessoas que estavam desempregadas."

Carlotta Gall/The New York Times
Mustafa Sakrafi, cujo primo foi morto em um protesto por unidades da Guarda Nacional, em El Kamour

Outros protestos logo se seguiram em cidades vizinhas. Em abril, manifestantes começaram a acampar em frente ao gabinete do governador, e há um mês eles montaram acampamento no deserto.

O governo recentemente distribuiu novas concessões de exploração de petróleo na região, uma medida que só serviu como um lembrete de quão pouco a região tem se beneficiado do recurso. As empresas de petróleo em geral contratam pessoas de fora, e pouco é investido de volta no local.

As demandas dos manifestantes foram se consolidando continuamente: uma cota de empregos para locais nas empresas de petróleo que estão perfurando na região, a criação de empregos em uma agência ambiental e um fundo de investimentos para programas de criação de empregos.

O governo acusou os líderes dos protestos de terem ligações com terroristas ou de serem ferramentas de chefes da máfia. Mas ele foi continuamente elevando suas respostas de acordo com suas demandas.

Os manifestantes estão esperando por mais e uma trégua precária se fez depois que milhares apareceram para enterrar o homem que foi morto —Muhammad Anouar Sakrafi, que tinha 23 anos e estava desempregado.

No acampamento montado no deserto, cerca de 200 km ao sul de Tataouine, 200 manifestantes faziam vigília na quinta-feira, e o oleoduto permaneceu fechado.

Enquanto descansavam do inclemente Sol saariano à sombra de suas barracas, eles disseram que permaneceriam até que o governo aceitasse as 17 demandas apresentadas.

"Todos vieram pelos nossos direitos e por empregos", disse um dos manifestantes, Walid Abdelmollah, de 27 anos. "Ficaremos aqui até o fim. Sem recuo!", ele acrescentou, usando uma frase que se tornou um bordão.

Em Tataouine, os manifestantes controlam a vida nas ruas. Eles estão acampados do lado de fora do gabinete do governador e nos principais cruzamentos, em cenas que lembram a revolta popular de 2010 e 2011.

O governador renunciou na terça-feira e deixou a cidade, e não havia polícia e Exército à vista. Alguns policiais à paisana surgiram dos restos carbonizados da delegacia de polícia para conversar com repórteres. A situação ainda era tensa, eles disseram, e não estavam usando uniforme para manter a discrição.

"Esta é a segunda revolução", disse Ahmed Wafi, um servidor público aposentado cuja filha, Sabrine Wafi, é uma proeminente ativista feminista na cidade. "E esta é mais séria."

Os manifestantes se organizaram quase que totalmente pelo Facebook e têm compartilhado e feito transmissões ao vivo dos eventos em seus perfis nas mídias sociais. Eles ignoraram amplamente a grande mídia tunisiana e continuam desconfiados dos jornalistas.

"Existe um problema de confiança em relação à grande mídia, então todos usam as mídias sociais", disse Youssef Zorgui, que administra uma página do Facebook em sua cidade natal, Bir Lahmar, e cobriu os protestos no acampamento. "Podemos compartilhar tudo no Facebook, ao passo que a mídia tem censores ou só mostra um ou dois minutos dos acontecimentos."

Os manifestantes optaram explicitamente por não eleger líderes do movimento. "É um movimento democrático. Decidimos todos juntos", como disse um deles. Ele pediu para que somente seu primeiro nome, Naim, fosse publicado.

O movimento rejeitou qualquer envolvimento de partidos políticos —no acampamento não é permitido aos manifestantes discutir política— e eles evitaram qualquer associação com grupos da sociedade civil e boa parte da mídia tunisiana, a quem acusam de parcialidade, banindo-os do acampamento no deserto.

O governo fez esforços para atender às suas demandas, ainda que erraticamente. O primeiro-ministro, Youssef Chahed, viajou até a região para conversar com os manifestantes em abril e enviou seu ministro do Trabalho para negociações.

Não está claro quem ordenou que a Guarda Nacional interviesse com o uso de força na segunda-feira. O governador havia afirmado publicamente que não haveria uso de força minutos antes de a Guarda Nacional entrar no acampamento. Assessores sugeriram que sua renúncia se devia, em parte, ao solapamento da sua autoridade.

Além de empregos e investimentos, os manifestantes estão exigindo um pedido de desculpas pela violência policial; eles acusam a guarda nacional de perseguir manifestantes no acampamento.

Testemunhas disseram que Sakrafi havia sido atropelado por trás por uma viatura policial em velocidade. Ele sofreu fraturas múltiplas nas pernas, cabeça e torso e morreu na hora, segundo seu primo Mustafa Sakrafi. Manifestantes disseram que entregaram vídeos do episódio para o investigador militar no dia seguinte.

Ainda não está claro quem ateou fogo à delegacia de polícia e ao posto da Guarda Nacional em Tataouine. Muitos manifestantes alegam que foram pessoas de fora, determinadas a saquear. O movimento prometeu dar início a uma ação voluntária para limpar e consertar os prédios.

"Nosso objetivo é legítimo", disse Tarek Haddad, 33, um operário desempregado de Tataouine e porta-voz do movimento. A nova constituição reconheceu o direito ao trabalho, ele diz, acrescentando: "Se fizemos estudos ou não, ainda estamos desempregados."

 

Tradutor: UOL

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