Advogados tentam conter as investidas de Trump no Twitter

Peter Baker e Glenn Thrush

Em Washington (EUA)

  • Josh Haner/The New York Times

    Donald Trump navega pelo seu perfil no Twitter

    Donald Trump navega pelo seu perfil no Twitter

Houve um tempo, num passado não muito distante, em que o presidente Donald Trump evitava atirar mensagens flamejantes no Twitter.

Esse tempo acabou.

Não importa que seus assessores lhe tenham pedido para parar. Não importa que agora os advogados lhe disseram para parar. Apesar de a Casa Branca ter sido avisada de que os tuítes poderão ser usados como provas contra ele, Trump deixou claro, dias após voltar de uma viagem ao exterior que ficou praticamente livre de tuítes, que pretende absolutamente conservar seu meio de comunicação preferido.

Desde o fim de semana, ele foi atrás de seus alvos preferidos, como a mídia das "notícias falsas" e os democratas, e até de alguns novos, como a Alemanha. Denunciou a "caça às bruxas" nas investigações sobre os contatos entre seus associados e a Rússia. E alimentou um mistério global com uma postagem em plena noite que acrescentou uma nova palavra à língua: "covfefe".

Durante toda a campanha no ano passado e nos primeiros meses de sua Presidência, a preocupação entre os assessores de Trump era principalmente política. Cada vez que o presidente soltava uma de suas explosões de 140 caracteres, afastava-se de sua agenda e provocava um frenesi na mídia que podia durar dias.

Mas agora a preocupação se tornou cada vez mais jurídica. Com diversas investigações sobre se os associados do presidente colaboraram com a Rússia para influenciar a eleição, qualquer tuíte aleatório, não filtrado, pode se tornar parte de um processo legal.

"Há uma razão para o provérbio do velho advogado --o peixe morre pela boca", disse Robert Bauer, um advogado da Casa Branca sob o presidente Barack Obama. "Tuitar pensamentos e sentimentos espontâneos pode ser emocionalmente satisfatório no meio da noite, mas os advogados de Trump certamente irão lembrar a ele que sempre há pescadores por aí, atirando suas linhas."

Mais que nunca, a Casa Branca examina o caso da Rússia por um prisma legal e espera isolá-lo da governança diária. Os assessores do presidente estão montando uma equipe de advogados, incluindo alguns que entrariam para a equipe de governo e outros que ficariam fora da Casa Branca. Assessores individuais também estão em busca de advogados.

Em seu comunicado diário na quarta-feira (31), em que recebeu perguntas durante apenas 7 minutos e meio, o secretário de imprensa da Casa Branca, Sean Spicer, recusou-se a abordar questões relacionadas às investigações sobre a Rússia, dizendo que de agora em diante essas indagações devem ser dirigidas a Marc Kasowitz, o advogado pessoal do presidente. O escritório de Kasowitz, que ainda estava montando as operações, disse na quarta que não tinha comentários a fazer.

Spicer não deu explicação sobre o curioso tuíte do presidente postado depois da 0h na manhã de quarta: "Apesar da constante 'covfefe' negativa da imprensa". Parece que ele quis dizer "coverage" [cobertura] e desejava dizer mais, mas usuários da rede social em todo o mundo trocaram teorias e piadas sobre o significado da estranha palavra.

Spicer pareceu sugerir que era uma brincadeira interna ou uma espécie de código. "O presidente e um pequeno grupo de pessoas sabem exatamente o que ele quis dizer", disse Spicer com total seriedade, mas depois não quis explicar melhor.

Seu tom contrastou com o de seu chefe, que pareceu se divertir com a atenção e brincou a respeito em um tuíte quando acordou na manhã de quarta. "Quem consegue descobrir o verdadeiro significado de 'covfefe'???", escreveu Trump. "Divirtam-se!"

Todos os advogados consultados pelos assessores da Casa Branca nos últimos dias disseram a mesma coisa sobre o presidente e seus tuítes: ele pode ganhar força durante as investigações, mas é seu pior inimigo se continuar dando vazão online. Os advogados comentaram que as palavras de Trump já foram usadas contra ele em ações judiciais contestando suas ordens que barraram temporariamente visitantes de países de maioria muçulmana. Os juízes citaram suas declarações durante a campanha como evidências de seus motivos.

Se o mesmo pode se aplicar a processos criminais não ficou claro, segundo alguns advogados, mas eles perguntaram por que ele correria esse risco. Alguns de seus tuítes nas últimas semanas forneceram munição para críticos que o acusaram de obstruir a justiça ao demitir James Comey, o diretor do FBI que comandava a investigação sobre a Rússia.

Um exemplo citado pelos advogados foi quando Trump pareceu ameaçar Comey se ele falasse em público sobre seus encontros com o presidente. "É melhor James Comey esperar que não haja gravações de nossas conversas antes que ele comece a vazar para a imprensa!", escreveu Trump no Twitter. Alguns advogados disseram que isso pode ser interpretado como coerção de testemunha.

Comey pretende depor na próxima semana no Capitólio, onde os legisladores certamente perguntarão sobre relatos de que Trump lhe pediu para encerrar uma investigação sobre Michael Flynn, o ex-assessor de segurança nacional do presidente.

Trump considera o Twitter uma vantagem. "Trump em sua melhor forma é mais eficaz como político quando é menos envernizado, capaz de dizer coisas que outras pessoas não podem dizer --o que lhe permite moldar toda a conversa", disse Tim Miller, diretor de comunicações da campanha de Jeb Bush em 2016 e um crítico frequente do presidente.

"Muitas vezes eu acho que ele pode fazer isso como presidente, mas o maior problema é que ele não tem autocontrole", disse Miller. "Como você equilibra seu poder com sua propensão a um comportamento autodestrutivo? Depois há as questões jurídicas --não tenho certeza da importância que isso terá. Os advogados detestam quando ele tuíta."

Assessores de Trump, especialmente seu advogado na Casa Branca, Donald F. McGahn 2º, há muito imploram que o presidente reduza seus tuítes, especialmente sobre as investigações da Rússia. Mas McGahn não é visto como um par por Trump, ao contrário de Kasowitz, que o presidente respeita como um empresário muito bem sucedido por seu próprio mérito. Os assessores da Casa Branca esperam que Kasowitz, que aconselha Trump há anos, consiga convencer o presidente.

Trump demonstrou que pode domar seus impulsos de tuitar, pelo menos temporariamente. Enquanto viajava pelo Oriente Médio e a Europa, ele passou nove dias sem atacar, zombar, queixar-se ou contradizer sua equipe.

Sua presença na rede social foi notavelmente convencional e até conciliatória. "Uma honra única na vida encontrar Sua Santidade o Papa Francisco", escreveu Trump a certa altura, oferecendo um ramo de oliveira eletrônico ao pontífice com o qual discutiu durante a campanha.

A melhor maneira de manter Trump fora do Twitter, segundo assessores, é deixá-lo ocupado. Durante sua viagem ao exterior, ele teve ocupações de 12 a 15 horas por dia, raramente ficando a sós para fulminar sobre as investigações da Rússia e com menos tempo para assistir à televisão --embora tenha sintonizado a CNN International e reclamado em particular que ela foi ainda mais hostil a ele do que a rede americana.

Foi bom, disseram assessores, que Melania Trump, uma força às vezes moderadora que desde a posse ficou principalmente em Nova York, o tenha acompanhado na viagem.

Mas as esperanças de que Trump tenha virado uma página enquanto estava no exterior se dissiparam rapidamente quando ele voltou à Casa Branca durante o fim de semana. Às 7h33 de domingo (horário da costa leste dos EUA), em sua primeira manhã em casa, ele começou a reclamar no Twitter sobre supostas reportagens injustas na mídia. "É minha opinião que muitos dos vazamentos que saem da Casa Branca são mentiras fabricadas pela #FakeNews media", escreveu o presidente.

Na manhã de quarta-feira (31), ele atacou os democratas da Comissão de Inteligência da Câmara dizendo que eles estavam impedindo Carter Page, seu ex-assessor de campanha, de depor sobre seus contatos com a Rússia. E repetiu a afirmação de Page de que Comey e John Brennan, um ex-diretor da CIA, deram "depoimento falso ou enganoso".

O deputado Adam Schiff, da Califórnia, o principal democrata na Comissão de Inteligência, disse que os dois partidos concordaram em rever documentos antes de entrevistar testemunhas e que o grupo não impediria Page de contar sua história. A comissão enviou intimações na quarta-feira por documentos e depoimento de Flynn e Michael Cohen, outro advogado pessoal de Trump.

Para o presidente, o Twitter continua sendo uma maneira de revidar. E embora os advogados pedissem contenção ele deixou pouca dúvida nesta semana sobre sua determinação a continuar fazendo isso. "A Mídia Falsa trabalha firme criticando e inferiorizando meu uso da rede social", escreveu ele, "porque não quer que os EUA saibam a história real!"

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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