Mianmar tenta conter monges ultranacionalistas que defendem leis contra muçulmanos

Mike Ives

Em Hong Kong

  • ADAM DEAN/NYT

    Ashin Wirathu, líder do grupo ultranacionalista Ma Ba Tha, reza com outros monges em Hmawni, em Mianmar

    Ashin Wirathu, líder do grupo ultranacionalista Ma Ba Tha, reza com outros monges em Hmawni, em Mianmar

Após uma série de ataques de justiceiros e brigas que abalaram Yangon, a maior e mais cosmopolita cidade de Mianmar, as autoridades religiosas do país estão aumentando a repressão contra monges budistas linhas-duras que têm exercido um papel público cada vez mais frequente como provocadores sectários.

Na terça-feira, a mais alta autoridade budista de Mianmar, o Comitê Estatal Sangha Maha Nayaka, ordenou que o Ma Ba Tha, um proeminente grupo liderado por monges ultranacionalistas, removessem seus cartazes que estão pelo país até o dia 15 de julho. Ele também disse que nenhuma organização teria a permissão de operar sob o nome de Ma Ba Tha.

As ordens foram só as mais recentes iniciativas para cortar as asas do grupo em meio a temores de que ele possa desestabilizar ainda mais um país recém-democratizado lutando para se livrar dos vestígios do domínio militar.

No entanto, líderes do Ma Ba Tha responderam dando de ombros insolentemente.

"Não temos certeza de se vamos obedecer a essa ordem ou não", disse Maung Thawe Chun, membro do Comitê Executivo Central do Ma Ba Tha, ecoando comentários feitos publicamente por seus colegas esta semana. "Se quisermos, obedeceremos. Se não quisermos, não obedeceremos".

A tensão sectária é uma realidade em partes de Mianmar, país predominantemente budista repleto de monastérios e pagodes dourados. Mas conflitos inter-religiosos escalaram bruscamente desde 2012, quando uma onda de violência étnica no Estado de Rakhine, no extremo oeste, deixou dezenas de mortos e deslocou de suas casas mais de 100 mil membros do grupo minoritário muçulmano dos rohingya.

JUSTIN MOTT/NYT
Monges em pagode Shwedagon, centro religioso budista em Mianmar

Outros conflitos sectários foram relatados depois no centro do país, e turbas budistas mataram mais de 200 muçulmanos. O Ma Ba Tha por muito tempo negou promover a violência, mas críticos dizem que suas declarações—que muitas vezes viralizam nas mídias sociais—claramente a alimentaram.

"Você pode estar pleno de bondade e amor, mas não consegue dormir perto de um cachorro louco", disse o monge ultranacionalista mais conhecido do Ma Ba Tha, Ashin Wirathu, em um sermão de 2013, referindo-se aos muçulmanos.

Analistas dizem que a diretiva da autoridade budista, e a resposta obstinada do Ma Ba Tha, ilustram o principal desafio enfrentado pela Liga Nacional pela Democracia, o partido político governista liderado pela laureada do Prêmio Nobel da Paz Aung San Suu Kyi.

A repressão do governo contra o Ma Ba Tha, segundo eles, poderia aliviar a pressão sobre Suu Kyi exercida por ativistas de direitos estrangeiros que criticaram sua incapacidade—ou talvez indisposição—para conter a violência permitida pelo Estado contra os rohingya que vivem no oeste de Mianmar.

No entanto, dizem os analistas, isso também poderia levar os partidários do Ma Ba Tha na direção de partidos políticos que vêm adotando cada vez mais uma retórica budista linha-dura, inclusive um partido que está associado à junta militar que governou Mianmar por décadas até o ano de 2011.

A Liga Nacional pela Democracia "continua a ignorar esse movimento em geral, por sua conta e risco", disse Matthew J. Walton, um pesquisador sênior da Universidade de Oxford que estuda religião e política em Mianmar, sobre o Ma Ba Tha.

O apoio popular ao Ma Ba Tha não prejudicou o partido de Suu Kyi nas eleições gerais de 2015 de Mianmar, as primeiras desde o fim do governo militar, porque muitas pessoas votaram a favor de mudanças amplas em vez de políticas específicas, disse Walton. Mas como isso poderia mudar até a próxima eleição geral em 2020, ele acrescentou, a Liga Nacional pela Democracia precisa pedir aos monges que a apoiam para "articular um discurso alternativo de proteção e promoção da religião budista que não requeira a expulsão de muçulmanos".

A diretiva do órgão estatal budista na terça-feira veio duas semanas depois de uma incursão em um bairro muçulmano em Yangun por justiceiros budistas à procura de rohingyas que, acreditavam, estariam se escondendo lá ilegalmente. Existe uma visão disseminada em Mianmar de que os rohingya são imigrantes ilegais de Bangladesh, independentemente de suas famílias terem vivido em Mianmar por várias gerações.

A incursão levou a confrontos de rua entre budistas e muçulmanos, uma raridade em Yangun, e deixou pelo menos uma pessoa ferida. Um grupo nacionalista budista, a União dos Monges Patrióticos, reivindicou posteriormente responsabilidade pela incursão, e várias pessoas foram acusadas de incitação à violência.

As tensões sectárias têm estado especialmente elevadas em Mianmar desde o outono, quando militantes rohingya mataram nove policiais em um posto de fronteira em Rakhine, incitando uma brutal campanha de contra insurgência que expulsou milhares de rohingya para a vizinha Bangladesh. Em março, relatos generalizados de estupros permitidos pelo Estado e de massacres em Rakhine levaram a ONU a convocar uma missão de averiguação para investigar acusações de violações de direitos pelo Exército e pelas forças de segurança de Mianmar.

Em outro possível golpe para uma harmonia religiosa, Ko Ni, um advogado muçulmano e assessor de alto escalão para a Liga Nacional pela Democracia, foi morto a tiros do lado de fora do aeroporto internacional de Yangun em janeiro, no que pareceu ser um assassinato político. Ko Ni vinha trabalhando em um plano para substituir a Constituição redigida pelos militares por uma que tiraria os poderes políticos dos militares.

A ordem emitida na terça-feira pelo comitê budista controlado pelo Estado é a mais recente de uma série de iniciativas tomadas pelas autoridades religiosas do país para resistir à influência do Ma Ba Tha. No verão passado, por exemplo, um oficial de alto escalão de Yangun disse que o grupo "não era necessário" para o país, e o comitê repreendeu uma afirmação feita por Ashin Wirathu, o monge nacionalista, de que o Ma Ba Tha estava operando sob autoridade do comitê. E em março o comitê o proibiu de pregar durante um ano.

Khin Maung Lwin, um taxista de Yangon, disse que eram bem-vindas as iniciativas da autoridade budista de reprimir as atividades do Ma Ba Tha. "Não precisamos do Ma Ba Tha" porque Mianmar já tem um clero budista oficial, ele disse. "Isso só criará divisões entre monges".

O Ma Ba Tha foi formado em 2013 e ganhou proeminência ao promover um pacote das chamadas leis de raça e religião que foram aprovadas por um governo apoiado por militares logo antes das eleições de 2015. As leis cobrem tópicos como monogamia e casamento inter-religioso e são vistas em geral por acadêmicos e grupos de direitos humanos como discriminatórios em relação aos muçulmanos.

Após a diretiva da autoridade budista esta semana, o Ma Ba Tha cancelou um evento que havia planejado para este fim de semana em Yangon em celebração ao seu quarto aniversário, de acordo com relatos da mídia local. Mas os líderes do grupo pediram a seus partidários que se reunissem em Yangon de qualquer forma para serem informados sobre os próximos passos do grupo.

Poucos esperam que o Ma Ba Tha saia sem resistência. Walton disse que o grupo havia criado recentemente uma filial, chamada Dhamma Wunthanu Rakita, "para fazer coisas que os monges não podem fazer, como entrar com processos por difamação". Ele prevê que o grupo vá basicamente se reformular.

"Isso não significará o fim de monges extremistas afiliados ao Ma Ba Tha", disse Matthew Smith, presidente da Fortify Rights, um grupo de pressão baseado na Tailândia que urgiu ao governo de Suu Kyi que parasse com a violência permitida pelo Estado contra os rohingya. "Eles ainda são mobilizadores, ainda têm um séquito considerável, e ainda estão tentando influenciar a cabeça dos jovens".

Mas embora a paciência da Liga Nacional pela Democracia com os grupos budistas linhas-duras tenha "claramente diminuído", o partido continua relutante em desafiar as leis de raça e religião e outras políticas que institucionalizam a discriminação, disse Gerard McCarthy, o diretor adjunto do Myanmar Research Center na Universidade Nacional da Austrália.

"O sentimento anti-muçulmanos é onipresente em Mianmar e não foi questionado pela Liga Nacional pela Democracia em nenhum sentido substancial ou legislativo até o momento", ele disse.

Tradutor: UOL

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