Na França, Macron assume rapidamente uma postura presidencial

Adam Nossiter

Em Paris (França)

  • Stephane de Sakutin/AP

O presidente com jeito de menino da França já enfrentou o presidente Donald Trump, repreendeu Vladimir Putin e confrontou os poderosos sindicatos trabalhistas franceses, tudo isso em menos de três semanas.

Buscando eliminar qualquer dúvida sobre sua juventude e inexperiência, o presidente Emmanuel Macron, 39, mostrou ser mais enérgico e decisivo que o candidato morno que parecia em campanha. E está fazendo isso sem anotações.

Na semana passada, ele venceu Trump no aperto de mão na cúpula do G-7. Na segunda-feira, em um tapa na Rússia, ele alertou o visitante Putin sobre a Síria e os ataques de propaganda da mídia aliada ao Kremlin.

Ele confrontou de modo firme, porém educado, os sindicatos da França sobre a mudança do que considera como leis trabalhistas que matam empregos no país, a parte mais ambiciosa de sua agenda doméstica.

Também está dando dores de cabeça para os partidos estabelecidos da França da direita e esquerda. De modo improvável, ele provavelmente obterá a maioria parlamentar nas eleições de junho, apesar da dúvida dos céticos de que conseguiria reunir candidatos suficientes para seu novo partido.

A primeira impressão contrasta enormemente do estilo moroso, relativamente informal de seu antecessor, François Hollande, ridicularizado por suas "piadinhas", modo conversador com a mídia e desejo de ser um presidente "normal". Macron não é conversador, mantém a mídia a distância, não conta piadas e pode ser qualquer coisa, menos um político ou presidente "normal".

Em vez disso, na segunda-feira ele chegou perto de humilhar Putin frente a frente, a respeito das armas químicas na Síria, no cenário grandioso de Versalhes, escolhido deliberadamente. Na coletiva de imprensa no sábado, após a reunião do G-7 na Sicília, ele falou de forma fluente e improvisada sobre assuntos como a Líbia e o desenvolvimento africano, sem as respostas indiretas, hesitantes e pequenos sorrisos habituais de Hollande.

Macron projetou assertividade, dizendo aos repórteres, por exemplo, que insistiu junto a Trump quão "indispensável" era para a "reputação da América" a permanência no acordo do clima de Paris.

Fora isso, as declarações públicas de Macron são esparsas.

"Tem sido bastante presidencial. É possível vê-lo assumindo totalmente o cargo, a verticalidade do cargo", a presidência francesa como uma operação de cima para baixo, com o homem no topo dando as ordens, "e colocando uma certa distância entre si e a imprensa", disse Laurent Bouvet, um cientista político da Universidade de Versalhes.

"Também é possível ver isso nos cenários escolhidos pela presidência, na noite de sua eleição", quando Macron falou no grande pátio do Louvre, "e na recepção a Putin" em Versalhes, em um grande salão celebrando os triunfos militares franceses, prosseguiu Bouvet.

Ambos os cenários estão intimamente associados à antiga monarquia francesa. "Ele não hesita em projetar a majestade do poder presidencial", disse Bouvet.

Essa aura de autoridade é em parte uma resposta ao contexto internacional ameaçador ao qual Macron se referiu repetidas vezes durante a campanha, com a França e sua parceira, a Alemanha, ameaçadas dos dois lados por dois gigantes imprevisíveis sem compromisso com os valores europeus, a Rússia e os Estados Unidos de Trump.

Mas também se deve à crença de Macron de que a França de certa forma sente falta de um rei desde a execução de Luís 16 em 21 de janeiro de 1793, e que é seu trabalho preencher essa lacuna.

Em uma entrevista há dois anos, Macron fez uma declaração sobre o rei ausente da França que ainda é tema de comentários chocados. "No processo e função da democracia há algo faltando, a figura do rei, cuja morte, acredito fundamentalmente, o povo não queria", Macron disse ao jornal semanal "Le 1", dizendo que isso "criou um vácuo emocional".

Na França, nenhum político fora do círculo dos monarquistas de extrema-direita deve falar sobre a ausência de um rei. Essa forma de nostalgia é tabu para qualquer um que professe devoção aos valores republicanos.

Mas essa visão encapsula tanto a visão régia dele do poder (levemente compensada pela figura jovem que representa) quanto seu amor pelo paradoxo, combinando conceitos de monarquia e democracia.

A frase mais célebre de Macron em seus discursos reflete esse amor. "E ao mesmo tempo", Macron diz com frequência, tanto que o público começava a rir quando ele a pronunciava durante a campanha.

Os comentaristas traçaram esse desejo por parte de Macron (de conciliar dois pontos de vista opostos) ao seu treinamento filosófico como assistente de um dos mais célebres filósofos da França do século 20, Paul Ricoeur, que morreu em 2005.

A obra de Ricoeur, apontou mais recentemente o jornal "Le Monde", é marcada por seus aparentes paradoxos, que na realidade expressam uma espécie de desejo civilizador de encontrar um meio-termo. Macron foi seu assistente de pesquisa como estudante universitário no final dos anos 90.

Na política francesa, profundamente dividida segundo linhas ideológicas entre direita e esquerda, a tendência tem sido difícil de digerir para os oponentes de Macron. Mas ela lhe permitiu canalizar um grande número de figuras políticas centristas que não se veem representadas pelos velhos partidos.

Também lhe permitiu encontrar um resquício de esperança em suas discussões com Trump. No sábado, ele reconheceu as grandes diferenças entre Trump e os outros membros do G-7 a em torno do acordo do clima de Paris.

Mas ao mesmo tempo, como diria Macron, "percebi sua disposição de ouvir e seu desejo de conseguir um progresso conosco", disse o presidente francês em sua coletiva de imprensa, chamando Trump de "pragmático".

Foi uma visão notadamente menos pessimista do presidente americano do que a da chanceler Angela Merkel da Alemanha, que sugeriu que a Europa não pode mais contar com os Estados Unidos como sólidos aliados.

Em casa, o próprio pragmatismo de Macron será testado em breve. "Nunca fomos às raízes do desemprego em massa", ele escreveu em seu livro de campanha "Revolução". Ele diz achar que encontrou um caminho, na mudança das leis trabalhistas do país, que dificultam a contratação e demissão.

As tentativas de mexer nessas proteções ao trabalhador levaram milhares às ruas em protestos no ano passado. Os presidentes franceses costumam recuar diante desses protestos sindicais. Ocorrerá o mesmo com Macron?

Ele deseja limitar a quantidade de pagamentos concedidos a trabalhadores demitidos e deseja permitir que empresas negociem individualmente os acordos trabalhistas com os trabalhadores localmente.

Ambos são bandeiras vermelhas para os sindicatos fortemente centralizados do país. O método do novo presidente tem sido até o momento convocar os líderes sindicais para discussões no Palácio do Eliseu, em uma tentativa de engajá-los.

"Ele foi franco nas discussões", disse Jean-Claude Mailly, o líder do Force Ouvrière, um dos principais sindicatos. "Na superfície, ao menos, há um desejo de parceria. Ele não tem sido autoritário."

Laurent Berger, do sindicato CFDT, concordou. "Ele mostrou determinação, mas tem se mostrado aberto e tem dado ouvidos", disse Berger. Mas ele alertou aos seus colegas de que se não fizerem concessões a Macron, "ele o fará por conta própria".

Caso isso ocorra, as ruas da França poderão se ver lotadas de manifestantes de novo no fim do ano.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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