Disputa selvagem leva risco de violência à visita a Estátua da Liberdade

Joseph Goldstein e Nate Schweber

Em Nova York (EUA)

  • Vincent Tullo/The New York Times

    Turistas observam a Estátua da Liberdade

    Turistas observam a Estátua da Liberdade

Juan Fermin estava ansioso devido à possibilidade de ser agredido devido ao seu trabalho, vender bilhetes para os passeios turísticos do Porto de Nova York.

Abordar os turistas no extremo sul de Manhattan não é algo que pareça perigoso. Mas coloca Fermin no meio de uma disputa territorial em escalada e às vezes perigosa por nada menos que a Estátua da Liberdade.

A Estátua da Liberdade pertence a todos. Mas por estar em uma ilha, ela pertence acima de tudo às empresas que transportam milhões de turistas para os passeios turísticos pelo porto a cada ano. A concorrência para encher as embarcações é feroz e provavelmente se acirrará com a chegada do verão.

Fermin, 30 anos, faz parte de um exército de pessoas que ganham cerca de US$ 20 (cerca de R$ 65) por cada turista que conseguem conduzir a uma embarcação particular. Vestindo camisas e coletes de cores vivas, eles são uma presença ruidosa no Battery Park e arredores, assim como com frequência nas ocorrências policiais.

Há relatos de uma facada; agressões, inclusive uma tão severa que um turista sofreu traumatismo craniano; e mais recentemente, em abril, um tiroteio que resultou em dois feridos. As vítimas incluem tanto outros vendedores de bilhetes quanto turistas, disseram a polícia e outros.

"Eu me preocupo com isso", disse Fermin sobre a violência potencial. "Você não quer se ver pego nela."

A polícia e os políticos têm uma série de explicações para a violência. Alguns apontam que os vendedores de bilhetes foram soltos recentemente da cadeia ou prisão. Outros responsabilizam os operadores das embarcações, dizendo que eles se recusam a conter as práticas agressivas de vendas.

Alex Wroblewski/The New York Times
Vendedores de ingressos se posicionam na saída do terminal de balsa em Nova York

Jessica Lappin, presidente da Aliança pelo Centro de Nova York, que busca melhorias nos negócios no distrito, disse que os homens que vendem bilhetes para os passeios turísticos parecem "envolvidos em guerras territoriais de gangues".

"Eles ganham muito dinheiro lá", acrescentou Lappin, "e o defenderão com armas se necessário".

Mas não é o primeiro negócio turístico a ser atingido por violência destrutiva. A guerra dos ônibus em Chinatown, há mais de uma década, foi muito mais mortífera. A concorrência para aluguel de bicicletas no Central Park tornou-se tão tensa que resultou em conflitos de rua. Foram tantos os incidentes perturbadores envolvendo personagens fantasiados em Times Square e outras partes (o Homem-Aranha agredindo um policial, Elmo gritando obscenidades) que a cidade criou zonas nas quais os personagens devem permanecer enquanto pedem gorjeta.

A violência perto do Battery Park começou há dois anos e ocorre apesar dos esforços das autoridades para acabar com ela. Durante alguns meses, a polícia chega a fazer mais de 20 prisões.

Mas turistas e transeuntes ainda se arrepiam ao descrever as práticas de vendas agressivas e às vezes desonestas. Com frequência é vendido aos turistas bilhetes para barcos que acreditam estar próximos, mas na verdade exigem uma longa espera por um ônibus ou van até outro píer. Outros turistas acreditam que poderão desembarcar na Ilha da Liberdade, apenas para descobrir que a embarcação apenas dá uma volta em torno da ilha.

Enquanto Marc Dumay aguardava para embarcar no sábado, ele começou a se perguntar se tinha sido enganado. Vindo de Boston, ele tomou um Uber até a Baixa Manhattan na esperança de encontrar uma embarcação que o levasse até perto da Estátua da Liberdade. Antes mesmo de ter a chance de descer do carro, ele foi cercado por vendedores de bilhetes que lhe perguntavam incessantemente: "Vai para a Liberdade?"

"Foi uma pressão enorme sobre mim", disse Dumay, 44 anos, que comprou um bilhete sem saber para onde a embarcação iria.

"Ainda não sei o que veremos", ele disse. "Posso ter sido enganado."

O passeio dele nunca se aproximou da Estátua da Liberdade, em vez disso seguindo para o norte pelo rio Hudson até a região central da cidade.

Por mais convidativa que seja a Estátua da Liberdade, não é tão fácil chegar lá como alguém poderia imaginar. O Serviço Nacional de Parques tem contrato com uma única empresa, a Statue Cruises, para levar os passageiros até a Ilha da Liberdade. Os bilhetes são vendidos no Castelo Clinton, um forte de arenito vermelho construído para repelir os britânicos, longe de ser um destino óbvio para turistas à procura de um passeio de barco. Antes de encontrarem seu caminho até lá, muitos turistas são interceptados por vendedores de outras embarcações que geralmente apenas contornam a ilha.

Alex Wroblewski/The New York Times
Passageiros a bordo de barco operado pela Statue Cruises, que leva os visitantes a Ilha da Liberdade

Para algumas pessoas isso é preferível, pois significa evitar as longas filas de segurança que aguardam os turistas que desembarcam na Ilha da Liberdade, disse Corey Etheridge, que comanda uma equipe de vendedores de bilhetes.

Etheridge e sua equipe são intermediários, trabalhando para empresas que compram milhares de bilhetes para embarcações com grande desconto para revenda. A polícia culpa esse arranjo por parte das práticas agressivas e enganadoras de vendas. O vice-inspetor Mark Iocco, comandante do 1º Departamento de Polícia da Baixa Manhattan, disse em uma reunião comunitária que as empresas de cruzeiros "vendem bilhetes a granel e lavam suas mãos" com o que acontece a seguir, segundo uma reportagem em um jornal do bairro, "The Tribeca Trib".

A prefeitura adotou várias medidas para tentar coibir a prática. Uma lei aprovada no ano passado exige que os vendedores de bilhetes obtenham uma licença, que pode ser revogada caso sejam condenados por algum crime enquanto vendem os bilhetes. E algumas empresas de turismo marítimo, diante das críticas da prefeitura e da mídia de notícias, concordaram em controlar melhor a venda de bilhetes.

Entre as empresas que romperam com certos intermediários no ano passado estão a Hornblower, uma empresa de Nova York escolhida para operar o novo sistema de balsas da cidade, e a New York Water Taxi.

Na reunião comunitária. o vice-inspetor Iocco identificou a New York Water Tours, que opera passeios turísticos, e uma embarcação chamada Queen of Hearts (rainha de copas) como fontes de muitos dos bilhetes vendidos na rua perto do Battery Park, segundo o "Tribeca Trib".

Pietro Vuli, o dono do Queen of Hearts, disse que as pessoas que vendem bilhetes para seu barco vestem um uniforme padrão, com identificação no peito e se comportam de modo apropriado. "Eu dei trabalho para muita gente", disse Vuli, um dono de restaurante. "Se achasse por um segundo estar causando mal a Nova York, eu pararia com tudo."

Jeff Mandel, diretor de desenvolvimento de negócios da New York Water Tours, disse que o uso de intermediários não é inerentemente um problema. "Se alguém me procura para comprar 5.000 bilhetes, eu vendo 5.000 bilhetes", ele disse.

Alex Wroblewski/The New York Times
Vendedor de ingressos usa estampa oficial no uniforme, em Nova York

"Não posso ter o luxo de dizer, 'Não vendo bilhetes para esse sujeito, para aquele sujeito ou para aquele outro'", ele acrescentou.

Mas Lappin, da Aliança pelo Centro, citou o tiroteio do mês passado e o crescente número de vendedores ambulantes como evidência de que as coisas "pioraram ao longo do último ano".

Etheridge, que administra uma equipe de vendedores de bilhetes, disse: "Quando comecei, eram 10 pessoas. Agora são 110 pessoas".

Para os vendedores ambulantes de bilhetes que cumpriram pena de prisão, a venda de bilhetes para as embarcações é mais lucrativa que a maioria dos trabalhos disponíveis para ex-condenados. Se um turista compra um bilhete por US$ 35, o vendedor pode ficar com US$ 17.

"Todo mundo precisa de outra chance", disse Gregory Reddick, 57 anos, um vendedor veterano de bilhetes com várias condenações por roubo.

Reddick já foi acusado em um artigo do "New York Post" de enganar turistas a comprarem bilhetes para a balsa de Staten Island, que, desde 1997, é gratuita. Reddick disse que não fez isso.

Ele insistiu que seu trabalho é honesto. A noção de que a atividade é violenta, ele disse, é uma mentira sendo vendida pela mídia de notícias e pela polícia. Até onde ele sabe, ele disse, o tiroteio em abril "não tinha nada a ver com a venda de bilhetes".

As autoridades disseram que o tiroteio em abril ocorreu devido a uma disputa de território entre dois vendedores de bilhetes. A polícia disse que um dos homens, Jason Wright, fez dois disparos com um revólver, que estava escondido no bolso de sua jaqueta, provocando um ferimento de raspão no tronco de seu rival e atingindo o joelho de um transeunte.

Wright, que se declarou inocente, tinha pouco a dizer sobre o assunto quando foi preso em 26 de abril, dois dias após o tiroteio.

"Posso tomar minha água e fumar meu cigarro?" ele disse durante o interrogatório gravado em vídeo na 1º Departamento de Polícia.

Ele evitava responder as perguntas do detetive, segundo autos do processo.

"Me diga você qual é seu nome", ele respondia.

Wright aparentava ter um corte em seu lábio. O detetive perguntou a respeito.

"Pessoas levam soco na cara todo dia", respondeu Wright.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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