No Afeganistão, Taleban assassina teólogos para barrar sua influência

Em Togh-Bairdi (Afeganistão)

  • JIM HUYLEBROEK/NYT

    Um guarda e alguns estudantes em frente à entrada de um seminário, em Togh-Bairdi, no Afeganistão

    Um guarda e alguns estudantes em frente à entrada de um seminário, em Togh-Bairdi, no Afeganistão

Uma sepultura solitária, com seu monte de terra sombreado pelos galhos pendentes de uma amoreira e enfeitado com flores, se tornou uma parada diária para alunos e funcionários do seminário perto de Togh-Bairdi, no norte do Afeganistão.

É onde está enterrado Mawlawi Shah Agha Hanafi, um venerado teólogo que fundou o seminário há cerca de duas décadas e ajudou a transformá-lo em uma bem-sucedida escola para 1.300 estudantes, incluindo 160 meninas. Este mês, o Taleban plantou uma bomba que o matou enquanto ele conduzia uma discussão sobre as tradições do profeta Maomé, e seu túmulo, em um canto no terreno do seminário, se tornou um lugar de orações e luto.

"Quando venho trabalhar, a primeira coisa que faço é recitar um verso do Alcorão diante de seu túmulo", diz Jan Agha, diretor do seminário, na província de Parwan. "Depois eu choro, e depois vou para meu escritório".

Hanafi entrou para uma lista que vem crescendo rapidamente de teólogos islâmicos que se tornaram vítimas da guerra afegã.

Há muito que os teólogos são alvos, de um jeito ou de outro, no Afeganistão. Suas palavras têm peso em muitas partes da sociedade, e eles são assiduamente cortejados por seu apoio —e frequentemente mortos por suas críticas.

Acredita-se que centenas deles tenham sido mortos nos 16 últimos anos de guerra, e nem sempre pelo Taleban. Mas definitivamente houve um aumento no assassinato direcionado de estudiosos —conhecidos popularmente como ulemás— com a intensificação das ofensivas do Taleban nos dois últimos anos, de acordo com autoridades.

Esse aumento está sendo interpretado como um claro lembrete do peso que os insurgentes dão não somente às vitórias militares, mas também à influência religiosa em sua campanha para perturbar o governo e se apoderar de territórios.

"A razão pela qual o Taleban tem recorrido a tais atos é que eles querem se certificar de que sua legitimidade não será questionada pelos sermões desses ulemás", diz Mohammad Moheq, um proeminente teólogo afegão que também atua como conselheiro para o presidente Ashraf Ghani.

"A única coisa que mina a legitimidade deles é a capacidade e o poder desses ulemás se pregam e argumentam contra eles", continuou Moheq. "Somente eles podem questionar a ideologia do Taleban, não os estudiosos progressistas ou outros, e o Taleban entende isso".

O número exato de teólogos que pregam o Islã, mas não do tipo que o Taleban prefere, é difícil de avaliar. Mas se estimativas de diversas províncias são indicativo de qualquer coisa, é um número enorme e isso tem semeado temor entre pregadores que sabem que suas palavras no púlpito poderia lhes custar suas vidas.

Só na província de Candahar, a base de poder original do movimento do Taleban, cerca de 300 pregadores foram mortos desde 2004, de acordo com Mawlawi Obaidullah Faizani, diretor do Conselho de Ulemás da província. Em Badakhshan, 20 foram mortos só no último ano, de um total de 110 em 16 anos, disse Abdul Wali Arshad, diretor do departamento de assuntos religiosos da província. Na província de Logar, na semana passada, o vice-diretor do Conselho de Ulemás da província foi morto a tiros enquanto voltava da oração da madrugada para casa, sendo que uma das balas atingiu seu lábio superior.

"A razão pela qual esses ulemás estão virando alvos é porque eles dizem a verdade, e a verdade é que os combates contínuos são só pelo poder", disse Mawlawi Khudai Nazar Mohammedi, diretor do Conselho de Ulemás de Helmand.

Um dos membros do conselho de liderança do Taleban sugeriu que parte da razão da intensificação de ataques contra teólogos era a influência do novo líder da insurgência, Mawlawi Haibatullah Akhundzada. Ele é um ulemá, líder de madraçal, e é considerado um ideólogo religioso maior que seu antecessor, que foi morto por um drone americano em 2015.

A figura de alto escalão do Taleban, que falou sob condição de anonimato para evitar irritar outros membros da liderança, disse que pelas ordens de Haibatullah, os sermões estavam sendo observados com mais atenção do que nunca, e que o distanciamento das interpretações do Taleban para a sharia (lei islâmica) estava sendo punido "o mais severamente possível".

A declaração dada pelo Taleban este mês depois de matar a tiros Abdul Ghafoor Pairoz, 32, um proeminente teólogo de Candahar que havia escrito ou traduzido mais de 50 livros, deixou claro o que está em jogo.

Eles disseram que ele foi morto por considerar "a atual guerra santa no Afeganistão como ilegítima". O Taleban disse que "remover um elemento tão nocivo" era um sinal para os outros de que eles estavam sendo vigiados, e que "a insolência para com ordens religiosas" não seria tolerada.

Durante o governo do Taleban nos anos 1990, Pairoz era um jovem estudante nos madraçais do Taleban em Cabul. Quando seu governo caiu, ele se manteve em seu caminho e se mudou para Quetta, no Paquistão, onde completou sete anos de ensino superior em religião para conquistar o título de mawlana. Ele permaneceu ativo nos círculos do Taleban em Quetta, onde o conselho de liderança do Taleban opera a partir do exílio.

Mas, à medida que Pairoz lia mais e a guerra se arrastava, ele começou a questionar a base religiosa sobre a qual o Taleban vinha combatendo. Ele decidiu que a única forma de resistir seria através de um discurso religioso ativo. Seu último livro, uma coletânea de ensaios intitulado "The Calling" (a vocação), lida com temas como o pluralismo religioso e a necessidade de tolerância.

"Ele traduzia oralmente o texto à sua frente, e eu digitava", disse seu irmão mais novo Waseel Pairoz, que também seguiu o ensino religioso.

Depois que o Taleban matou seu irmão e divulgou seu comunicado, o Pairoz mais novo deixou Candahar e hoje vive em Cabul.

"Pairoz sempre disse que amava este país, e que se morresse por ele, não seria uma lástima", disse outro de seus irmãos, Mohammed Rasoul Pairoz. "A mensagem que ele muitas vezes transmitia ao Taleban era que este mundo era para ser vivido —então vivam nele, e deixem os outros viverem".

Assim como Pairoz, Hanafi, o fundador do seminário em Parwan, era crítico em relação à trilha do Taleban, e costumava falar sobre política com veemência em seus sermões. Em um de seus últimos discursos, ele conclamou o Taleban a "dar as mãos para o povo do Afeganistão, em vez de dar as mãos para o Paquistão e a Rússia", um país que vem sendo acusado cada vez mais frequentemente de estabelecer ligações com a insurgência afegã.

Após diversos atentados contra sua vida, com bombas de beira de estada plantadas em seu caminho, Hanafi foi forçado a sair de Togh-Bairdi, seu vilarejo natal, e do seminário que ele construíra. Ele aceitou outro trabalho na capital da província, liderando um seminário maior.

Na manhã de 9 de maio, enquanto estava sentado junto com cerca de 30 alunos, uma bomba que havia sido plantada embaixo de sua almofada explodiu. Seu irmão, Mawlawi Jawed Hanafi, o sucedeu como diretor do seminário em Togh-Bairdi. Ele disse que o jovem que havia plantado a bomba —e que foi preso— era um aluno da classe, e que ele fora visto olhando através da janela para se certificar de que seu instrutor havia se sentado. Ele então se afastou e detonou a bomba.

O livro à frente de Hanafi estava rasgado e coberto de sangue. O teólogo chegou já sem vida ao hospital.

"Eu vi o Mawlawi deitado —quando ele me viu, mexeu os lábios para dizer algo, mas não conseguiu", disse Aziz Agha, seu guarda-costas, que entrou correndo na sala após a explosão. "Seu turbante não estava em sua cabeça. Suas roupas estavam rasgadas. Eu o segurei para ajudá-lo a se levantar, mas vi pedaços de pele caindo de suas costas".
 

Tradutor: UOL

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