Nos EUA, programa insere 'cães terapeutas' em escolas infantis

Elizabeth A. Harris

Em Nova York (EUA)

  • JOHN TAGGART/NYT

    Crianças interagem com cachorro na Escola Pública 209, em Nova York

    Crianças interagem com cachorro na Escola Pública 209, em Nova York

A sala 125A da Escola Pública 75, em Manhattan, tem todos os elementos habituais de uma sala de aula do ensino básico. Há mesas baixas e cadeiras pequenas. Há trabalhos dos alunos na parede, cobertos de letras tortas e um ocasional arco-íris. Há um computador para a professora e um tapete colorido.

Mas também há uma cama de cachorro, fofa e amarela, com brinquedos enfiados nas frestas. Ela pertence a Maisy, uma cadela mistura de beagle e jack russell terrier que trabalha nesta escola pública no Upper West Side. Ela vai diariamente para a escola de metrô com sua dona, uma professora do jardim de infância que carrega Maisy em uma grande bolsa preta.

Maisy faz parte do programa Cão de Conforto do Departamento de Educação, que coloca em certas escolas cães da North Shore Animal League America, uma organização de adoção e resgate de animais de Long Island. Um funcionário da escola adota um cão especialmente selecionado, que então é recebido na escola como uma dose de apoio emocional peludo.

Até o momento, sete escolas participam do programa, que teve início no último trimestre do ano passado, com 10 cães entre elas. Há cães grandes e pequenos, cães velhos e novos, assim como dois chamados Peter (ou Petey) Parker. Todas as escolas fazem uso de um currículo chamado "Mutt-i-grees", de autoria de pesquisadores de Yale, que estrutura as interações com os animais em torno de lições sobre coisas como empatia e resiliência. Mas além disso, cada escola usa os cães de modo um pouco diferente.

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Cody Rosen, uma professora da Escola Pública 75, leva sua cachorra Maisy em uma bolsa todos os dias para o colégio


Maisy tem um compromisso permanente com um menino com necessidades especiais todo oitavo período. Um beagle chamado Izzy é enviado para reduzir as birras. Jumah é oferecido como incentivo para encorajar bom comportamento. E Peter Paker, uma mistura de golden retriever e border collie, dá ouvidos, sem julgamento, a alunos que fazem terapia de fala.

"Quando dizemos aos pais que temos um cachorro, alguns deles nos olham como se tivéssemos sete cabeças", disse Glenda Esperance, diretora da escola de ensino médio 266, Park Place Community, no Brooklyn, onde Peter Parker trabalha. "Primeiro, eles nos olham como se fôssemos loucos, mas depois querem fazer parte do circo."

Petey Parker, sem relação com Peter, é o cão de conforto da Escola de Ensino Médio 88, no Brooklyn. A diretora, Ailene Altman Mitchell, o descreveu como um shih-tzu idoso.

Petey tem uma agenda bem rígida. Ele começa o dia saindo para passear com três alunas da oitava série, Stacey Jordan, Chiara Cruz e Sanell Rosario, que o levam até uma árvore do lado de fora, diante da porta da frente da escola. Cada garota tem um papel.

"Ela leva para passear, ela é a tratadora e eu cato o coco", disse Stacey, evidentemente sem se incomodar com a tarefa. "Eu tenho três cachorros em casa."

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Brianna Celaya, faz carinho em cachorro que faz parte do programa Cão de Conforto do Departamento de Educação


Petey passa grande parte de suas manhãs participando das reuniões com a orientadora, proporcionando conforto e uma trilha sonora de ronco gentil para alunos com dificuldades ou com necessidades especiais. À tarde ele vai para a sala da diretora para um longo cochilo.

"Quando o vejo, ele me deixa calma", disse Alyona Podchosova, uma aluna que passa algum tempo com Petey. "Às vezes meu temperamento me atrapalha e Petey me ajuda com isso."

Bonnie Durgin, diretora assistente e que às vezes leva o cão para passear, disse que parte do trabalho mais importante de Petey é com estudantes com dificuldade por um motivo ou outro. Mas ele pode ser de ajuda a estudantes de todo tipo.

"As crianças podem se tornar ilhas quando têm 13 anos", disse Durgin. "Ele se torna uma forma de tirá-los de si mesmos."

Por mais estranho que possa parecer ter um cachorro perambulando pelos corredores, Carmen Fariña, a superintendente das escolas da cidade de Nova York, o descreveu como um programa bem-sucedido, e um que a cidade pode expandir caso outras escolas estejam interessadas em ter uma "não pessoa" no prédio.

"Se uma criança está tendo uma birra, um adulto poderia resolver, mas um cão ajuda", ela disse. Também há alunos, como aqueles com autismo, que têm dificuldade em se conectar com outras pessoas, mas pode ter mais facilidade em se conectar com um animal, ela acrescentou.

"Para mim, trata-se de bom senso", disse Fariña.

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Aluno brinca com cachorro, em colégio de Nova York


Os adultos também parecem gostar do programa. Fariña disse que recebeu fotos de docentes da escola de ensino médio 88 avaliando trabalhos com Petey em seus colos. Um pequeno cachorro marrom e branco chamado Sugar perambula livremente pelas manhãs na escola de ensino médio 209, Clearview Gardens, no Queens, para receber os funcionários.

Imaginar a maioria dos cães cercada por centenas de crianças não é um exercício particularmente tranquilizador. Mas Jayne Vitale, a diretora de divulgação e programas jovens da North Shore, disse que um terapeuta comportamental de animais trabalhou arduamente para fazer boas combinações.

"O terapeuta comportamental pergunta à educadora: como você vai para a escola diariamente? Você toma o trem?" disse Vitale. "Se sim, o terapeuta levará o cão ao trem. Eles asseguram que o cão não seja agressivo com comida ou agressivo com brinquedos. Eles passeiam com eles em ruas muito, muito movimentadas. E também olhamos para o ambiente em casa."

Vitale disse que grande parte do que torna esses cães adequados para as escolas não tem nada a ver com treinamento. Veja o caso de Shelby, um dos três cães da Shell Bank Junior High School, no Brooklyn. Teri Ahearn, a diretora da escola, disse que certa vez, um menino pequeno com necessidades especiais estava brincando com Shelby, quando de repente puxou os pelos da cadela. Shelby simplesmente se levantou e foi embora.

"Não é possível ensinar isso", disse Vitale. "Trata-se de temperamento."

Apesar de serem eficazes terapeutas de fala e conselheiros, eles ainda são cães. Shelby é uma mestiça de border collie, explicou Ahearn, de modo que tentam mantê-la fora dos corredores nos intervalos entre as aulas, porque ela tentará reunir as crianças.

"Ela não gosta de ver as crianças espalhadas por toda parte, elas precisam ficar em fila", ela disse. "Quando ela está nos corredores nos intervalos, ela late e pode tentar empurrar você para a parede. Se há muita confusão, ela late, porque não deveriam estar fazendo aquilo, deviam estar andando em silêncio."

"Isso faz parte da raça dela", disse Ahearn, "e usamos isso como experiência de aprendizado".

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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