Índia começa a abandonar carvão e aposta em energia renovável

Geeta Anand

Em Mumbai (Índia)

  • KUNI TAKAHASHI/NYT

    Painéis solares no topo de casa em Bangalore, na Índia

    Painéis solares no topo de casa em Bangalore, na Índia

Poucos anos atrás, o mundo assistia com apreensão a uma Índia que saiu construindo usinas termoelétricas a carvão a torto e a direito, mais do que dobrando sua capacidade e alegando que mais delas seriam necessárias. Autoridades diziam que a produção de carvão quase que triplicaria, chegando a 1,5 bilhão de toneladas, até 2020.

Os planos da Índia foram citados por americanos críticos do acordo climático de Paris como prova de que seria inútil nações desenvolvidas tentarem limitar sua emissão de carbono. Mas agora, mesmo com o presidente Donald Trump tirando os Estados Unidos do pacto, a Índia passou por uma impressionante reviravolta, motivada em grande parte por uma queda brusca no custo da energia solar.

Os especialistas dizem agora que não somente a Índia não terá nenhuma necessidade de novas usinas termoelétricas por pelo menos uma década, considerando que as termoelétricas existentes estão operando a menos de 60% de sua capacidade, como também depois disso ela poderá contar com fontes renováveis para todas suas demandas adicionais de energia.

Em vez de construir usinas termoelétricas a carvão, o país está cancelando muitas em seus estágios iniciais de planejamento. E este mês o governo reduziu sua meta anual de produção de carvão, de 660 milhões para 600 milhões de toneladas.

A brusca mudança, uma notícia bem-vinda para líderes mundiais que estão tentando evitar os efeitos potencialmente fatais do aquecimento global, é um reflexo tanto da mudança dos aspectos econômicos da energia renovável quanto do aumento da conscientização ambiental em um país que apresenta um dos piores índices de poluição atmosférica do mundo.

O que a Índia faz importa, uma vez que ela é a terceira maior emissora mundial de gases de efeito estufa, atrás da China e dos Estados Unidos. E suas demandas de energia são impressionantes: quase um quarto de sua população não tem eletricidade e muitas pessoas só a recebem de forma intermitente.

ATUL LOKE/NYT
Rua com trânsito intenso na Índia

Como as necessidades de energia da Índia devem crescer substancialmente com a continuidade da expansão de sua economia, seu uso de energia influenciará muito nas chances de o mundo conter os gases de efeito estufa que estariam levando ao aquecimento global, como acreditam os cientistas.

Na época da assinatura do acordo de Paris, boa parte da atenção estava focada no papel que o presidente Barack Obama teve em pressionar o primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, a assinar. Ao fazer isso, Modi comprometeu a Índia a obter 40% de sua eletricidade a partir de fontes não-fósseis até 2030.

Menos conhecido era o antigo comprometimento pessoal de Mori em levar a Índia para uma direção mais ecológica. Isso foi fortalecido nos últimos anos pelos indícios crescentes de que um caminho mais verde também faz sentido do ponto de vista político e econômico, diz Harsh Pant, membro da Observer Research Foundation, uma organização de pesquisa baseada em Nova Délhi.

"O eleitorado de Modi é a classe média, e a classe média nas cidades indianas está se sufocando com a poluição", diz Pant. "Modi sabe que a mudança climática é uma boa estratégia. A mudança climática faz sentido para Modi porque ele acredita que ela seja uma boa oportunidade econômica e política".

Dois principais fatores econômicos foram essenciais para a Índia se afastar do carvão. O primeiro é que o índice de crescimento do país, embora seja mais rápido do que o da maior parte das grandes economias, caiu para 6,1% no último trimestre, de 7% no trimestre anterior. E boa parte desse crescimento veio da indústria de serviços, mais do que de manufaturas que consomem muita energia.

Igualmente importante foi a queda brusca no preço das fontes de energias renováveis. Muitos especialistas em energia dizem que os renováveis estão prestes a se tornar uma alternativa mais barata do que o carvão dentro da próxima década.

"Ele perdeu o barco. O sr. Trump chegou tarde demais" para desacelerar a transição para a energia renovável, diz Ajay Mathur, diretor-geral do Energy Resources Institute, um centro de pesquisas de Nova Délhi próximo do governo. "Quando as usinas termoelétricas a carvão atingirem sua capacidade total por causa da maior demanda, o preço dos renováveis estará menor que o preço do carvão".

Com base nos dados de dezembro da Autoridade Central de Energia Elétrica, o instituto de Mathur relatou em março que a Índia poderia ser capaz de atender às suas demandas adicionais de energia no futuro com energia renovável.

Foram eles que deram a base para a previsão sobre a notável queda no custo da energia solar. Ao aprovar propostas para novas usinas de energia solar, o governo indiano está atrás de ofertas de possíveis construtoras que concorram para oferecer o preço mais baixo pelo qual pretendem vender energia.

Cinco anos atrás a oferta mais baixa era de 7 rúpias (ou R$ 0,36) por quilowatt-hora. No início de maio, a oferta mais baixa foi de menos da metade desse preço, ou 2,44 rúpias por quilowatt-hora, pouco menos de R$ 0,13, dizem especialistas.

A última oferta faz com que a energia solar seja mais barata que o carvão, que é vendido a 3 rúpias por quilowatt-hora.

Os custos de armazenamento, um componente crítico dos sistemas de energia renovável, também caíram. "A questão crucial tem sido, 'Sim, mas o que você faz quando o vento não está soprando ou o Sol não está brilhando?", diz Adair Turner, presidente da Energy Transitions Commission, que estuda questões climáticas.

O custo das baterias de íon-lítio, referência de armazenamento de energia solar, caiu consideravelmente, diz Turner, em grande parte por causa das economias de escala. Há mais de cinco anos o preço era de cerca de US$ 1.000 por quilowatt-hora, e agora está em US$ 273 e continua caindo, diz Mathur.

O preço precisa cair até US$ 100 por quilowatt-hora para que a energia renovável seja comparável ao carvão em termos de preço, diz Mathur. Turner acredita que isso acontecerá muito antes de 2030, data que seu grupo vinha prevendo.

"Falando diretamente, o sucesso disso está sendo maior do que eu imaginava", diz Turner. "Havia os otimistas, e foram os otimistas que venceram".

Nova Délhi por muito tempo argumentou que era hipocrisia das nações ocidentais que queimaram combustíveis fosseis durante séculos pedir aos indianos que sacrificassem o crescimento para conter o aquecimento global. Mas o governo Modi estabeleceu metas ambiciosas para um futuro mais ecológico para a Índia.

O governo prometeu em 2015, quando a capacidade elétrica do país oriunda de renováveis era de 36 gigawatts, aumentá-la para 175 gigawatts até 2022.

Piyush Goyal, ministro das Energias da Índia, anunciou em um discurso no final de abril que o país tomaria medidas para garantir que até 2030 somente carros elétricos estariam sendo vendidos.

"Isso é bastante ambicioso", diz Rahul Tongia, do Brookings India. "As metas estão lá. A visão está lá. A questão é: 'Vai acontecer? Como?'"

O braço de pesquisa de políticas do governo indiano, o National Institution for Transforming India, ou NITI Aayog, divulgou recentemente um relatório em colaboração com o Rocky Mountain Institute em Boulder, no Colorado, que calculava que a Índia poderia economizar US$ 60 bilhões (quase R$ 200 bilhões) e reduzir suas emissões de carbono previstas em 37% até 2030 se adotasse o uso generalizado de veículos elétricos e mais transporte público.

Mathur diz que mesmo que a Índia não consiga atingir essas metas ambiciosas, só de chegar perto ela já terá um impacto imenso sobre a concentração de gases de efeito estufa no mundo e a poluição dentro do país.

"Até um ano e meio atrás, eu não esperava que fôssemos sair do limbo e dizer que veículos elétricos são uma meta de política pública para nós. É realmente animador", ele disse em uma entrevista.

Além de reduzir a poluição sufocante nas cidades da Índia, a transição para os veículos elétricos também faz sentido porque o país tem um excesso de capacidade de geração nas usinas termoelétricas a carvão e depende demais de importações de petróleo, o que representa um risco geopolítico.

"Durante muito tempo houve uma pressão para reduzir o aumento de importações", disse Mathur. "Esta é uma daquelas oportunidades perfeitas, com benefícios de curto e longo prazo".

Navroz Dubash, membro do Center for Policy Research em Nova Délhi, alerta que embora a Índia provavelmente atenda suas demandas em energia adicionais no futuro a partir de fontes renováveis, isso não significa que a Índia deixará de queimar carvão imediatamente.

"É importante não concluir a partir disso que o namoro da Índia com o carvão tenha necessariamente terminado", disse Dubash, "mas somente que existem sinais de que ele terminará mais cedo e em um nível mais baixo do que o esperado".

A Índia cancelou 13,7 gigawatts em usinas termoelétricas a carvão só no mês passado, segundo o Institute for Energy Economics and Financial Analysis. O governo admitiu que a construção de uma capacidade adicional de geração de 8,6 gigawatts a um custo de US$ 9 bilhões (quase R$ 30 bilhões) possivelmente não era mais viável financeiramente por causa da concorrência com fontes renováveis, diz o instituto.

Essa é uma notícia auspiciosa para o mundo, diz Tongia, porque o único meio de o mundo não ficar quente demais é se os "países em desenvolvimento, especialmente a Índia, fizerem mais, dentro do orçamento, e fizerem sua parte de uma divisão injusta".

E, diz Tongia, "a boa notícia" é que a Índia decidiu que é do interesse dela fazer sua "parte de uma divisão injusta".

* Com reportagem de Ayesha Venkataraman.

Tradutor: UOL

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