CIA aponta diretor linha-dura para lidar com Irã

Matthew Rosenberg e Adam Goldman

Em Washington (EUA)

  • Doug Mills/The New York Times

    Selo da CIA na sede da agência em Langley, Virgínia

    Selo da CIA na sede da agência em Langley, Virgínia


Ele é conhecido como Príncipe Sombrio ou Aiatolá Mike, apelidos que ganhou como diretor da CIA (Agência Central de Inteligência) responsável pela caçada a Osama Bin Laden e pela campanha de ataques com drones que matou milhares de militantes islâmicos e centenas de civis.

Agora o diretor, Michael D'Andrea, tem um novo cargo. Ele está comandando as operações da CIA que envolvem o Irã, segundo atuais e ex-funcionários de inteligência, uma nomeação que é o primeiro sinal de que o governo Trump está assumindo a linha dura que o presidente adotou contra o Irã durante sua campanha.

O novo papel de D'Andrea é uma das várias decisões dentro da agência de espionagem que sinalizam uma abordagem mais dura para as operações secretas sob a liderança de Mike Pompeo, o ex-parlamentar republicano conservador, disseram as autoridades. A agência também nomeou recentemente um novo chefe de contraterrorismo, que está buscando maior liberdade de ação para atacar militantes.

O Irã é um dos alvos mais difíceis para a CIA. A agência tem acesso extremamente limitado ao país (não há nenhuma embaixada americana aberta para fornecer disfarce diplomático) e os serviços de inteligência do Irã passaram quatro décadas combatendo a espionagem e operações secretas dos Estados Unidos.

O desafio de executar os planos do presidente Donald Trump cabe a D'Andrea, um convertido ao Islã que fuma sem parar, que chega com uma enorme reputação e um retrospecto à altura; talvez nenhum outro funcionário da CIA seja mais responsável pelo enfraquecimento da Al Qaeda.

"Ele pode executar um programa bastante agressivo, porém de forma muito inteligente", disse Robert Eatinger, um ex-advogado da CIA que está profundamente envolvido no programa de drones da agência.

A CIA se recusou a comentar o papel de D'Andrea, dizendo que não discute as identidades ou trabalho de agentes secretos. Os funcionários só falaram sob a condição de anonimato, porque D'Andrea continua sendo um agente secreto, assim como muitos dos altos funcionários baseados no quartel-general da agência em Langley, Virgínia. Eatinger não usou o nome dele. O "New York Times" dá nome a D'Andrea porque sua identidade já foi anteriormente divulgada em reportagens e ele está liderando uma importante nova iniciativa do governo contra o Irã.

Trump chamou o Irã de "Estado terrorista número um" e prometeu ao longo de toda sua campanha abandonar ou revisar o acordo histórico entre o Irã e seis potências mundiais, no qual Teerã concordou em limitar seu programa nuclear em troca de relaxamento das sanções.

O presidente não cumpriu essa ameaça e seu governo tem discretamente se certificado do cumprimento do acordo pelo Irã. Mas ele tem invocado sua linha dura em relação ao Irã de outras formas. O secretário de Estado, Rex Tillerson, descreveu o acordo como um fracasso e Trump nomeou para o Conselho de Segurança Nacional falcões ávidos em conter o Irã e pressionar por uma mudança de regime, que provavelmente ocorreria por meio de ações secretas da CIA.

O general de exército H.R. McMaster, o conselheiro de segurança nacional, foi um comandante de infantaria durante os primeiros anos da guerra no Iraque e acredita que agentes iranianos que estavam auxiliando os insurgentes iraquianos foram responsáveis pela morte de vários de seus soldados. Derek Harvey, diretor sênior para o Oriente Médio no conselho, também é considerado um linha-dura em relação ao Irã.

E Ezra Cohen-Watnick, o diretor sênior do conselho para inteligência, o principal funcionário de ligação entre a Casa Branca e as agências de inteligência, disse a outros funcionários do governo que deseja usar os espiões americanos para ajudar a derrubar o governo iraniano, segundo múltiplas autoridades de defesa e inteligência.

Pompeo, que representou a região centro-sul do Kansas na Câmara, foi um dos maiores críticos no Congresso do acordo com o Irã. Dois meses antes da eleição, ele publicou um ensaio na revista "Foreign Policy" intitulado, "Amigos não deixam amigos fazerem negócios com o Irã".

Ele prometeu durante sua audiência de confirmação no Senado, em janeiro, que caso o acordo continuasse vigente, ele vigiaria atentamente para assegurar o cumprimento dos termos por Teerã.

"Os iranianos são profissionais em trapacear", ele disse.

Em D'Andrea, o diretor encontrou um "workaholic" para ser seu sentinela no Irã. D'Andrea cresceu no norte da Virgínia, em uma família cujos laços com a CIA remontam duas gerações. Ele conheceu sua esposa, que é muçulmana, enquanto ocupava um posto da CIA no exterior, convertendo-se ao islã para se casar com ela, apesar de não ser particularmente devoto.

Na CIA, a reputação de D'Andrea de perspicácia operacional é equiparada por seu comportamento abrasivo. "Ranzinza" parece ser a descrição mais popular, dizem aqueles que trabalharam com ele e algumas pessoas na agência se recusam a trabalhar com ele.

Um ex-funcionário da agência disse ter perguntado certa vez a D'Andrea, que é conhecido por manter um sofá-cama em seu escritório, o que ele fazia por diversão.

D'Andrea respondeu: "Trabalhar".

Ao ser perguntado se a nomeação de D'Andrea era um sinal que a CIA planeja adotar uma linha mais agressiva em relação ao Irã, Eatinger disse: "Não creio que seja uma leitura errada".

As posições pessoais de D'Andrea a respeito do Irã não são de conhecimento público. Também não é sua função elaborar políticas, mas sim executá-las, e ele já demonstrou ser um diretor de operações agressivo.

Nos anos após os ataques do 11 de Setembro, D'Andrea esteve profundamente envolvido no programa de detenção e interrogatórios, que resultou na tortura de muitos prisioneiros e foi condenado por um relatório abrangente do Senado, em 2014, como desumano e ineficaz. Apenas o resumo executivo do relatório de 6.700 páginas se tornou público.

O governo Trump começou a devolver as cópias do documento ao Congresso, que não está sujeito a pedidos com base na Lei de Liberdade de Informação, aumentando a perspectiva de que nunca será divulgado.

D'Andrea assumiu o Centro de Contraterrorismo da agência no início de 2006 e passou os nove anos seguintes dirigindo a caçada a militantes por todo o mundo.

As operações sob sua direção tiveram um papel crucial em 2008 na morte de Imad Mugniyah, o chefe de operações internacionais do Hizbollah, o grupo militante xiita libanês apoiado pelo Irã.

Trabalhando com os israelenses, a CIA usou um carro-bomba para matar Mugniyah enquanto voltava para casa em Damasco, onde o Hizbollah conta com fortes laços e apoio do governo sírio.

Ao mesmo tempo, D'Andrea estava desenvolvendo o programa de drones dentro do Paquistão. Os drones se transformaram na ferramenta preferida de contraterrorismo do presidente Barack Obama, que aprovava pessoalmente os ataques visando líderes militantes.

Quando D'Andrea assumiu como chefe de contraterrorismo, apenas um punhado de drones da agência estava em uso no Paquistão e apenas três ataques tinham sido realizados naquele ano, segundo o "Long War Journal", que monitora a atividade de drones.

Em 2010, quando a campanha de drones estava no auge, a agência realizou 117 ataques contra militantes da Al Qaeda e outros jihadistas, abrigados nas áreas tribais montanhosas ao longo da fronteira noroeste do Paquistão com o Afeganistão.

A agência também expandiu seu programa de drones para o Iêmen sob a direção de D'Andrea, e muitos na CIA dão crédito a ele pelo papel crucial na debilitação da Al Qaeda.

Mas também ocorreram reveses. D'Andrea estava no comando quando uma fonte da CIA, que trabalhava em segredo para a Al Qaeda, detonou a si mesmo em uma base americana no Afeganistão, matando sete agentes da agência. Foi o ataque mais mortal contra pessoal da CIA em mais de um quarto de século.

E em janeiro de 2015, um drone atacou uma instalação da Al Qaeda no Paquistão onde, sem conhecimento da CIA, os militantes mantinham dois reféns: Warren Weinstein, um trabalhador de ajuda humanitária e consultor econômico americano, e Giovanni Lo Porto, um italiano de 37 anos. Ambos foram mortos no ataque.

Poucos meses depois, D'Andrea assumiu um novo posto, o de revisão da eficácia dos programas secretos.

Ex-funcionários da agência disseram que o novo cargo de D'Andrea, de supervisão das operações voltadas ao Irã, é mais adequado aos seus talentos.

"Muita gente que conheço tem medo dele e o acha imprudente, mas não é", disse Eatinger. "Ele era preciso e cobrava das pessoas o mais alto padrão."

 

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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