Em Gaza, site desafia tradição e permite que mulheres escolham parceiro

Majd al Waheidi

Em Gaza (Faixa de Gaza)

  • WISSAM NASSAR/NYT

    Rami Shatali, com suas três filhas durante o seu casamento em Maghazi, em Gaza

    Rami Shatali, com suas três filhas durante o seu casamento em Maghazi, em Gaza

Ele procurava uma mulher com determinados atributos, de preferência a viúva de um homem morto na luta contra Israel, sem filhos, entre 25 e 30 anos, do sul de Gaza. A exigência dela não era menos importante: queria um homem casado.

Para Majdi e Ghada Abu Mustafa, a procura simultânea por um cônjuge deu certo, e hoje a dupla está casada.

"Ela é linda e a viúva de um mártir ao mesmo tempo", disse Abu Mustafa, usando a palavra preferida pelos palestinos para descrever um combatente morto, que para os israelenses é muitas vezes um terrorista. Ela é a segunda mulher de Mustafa.

"Quando eu ficar rico, me casarei com uma terceira."

O casal se encontrou no Wesal --que significa comunhão ou reunião em árabe--, o primeiro site de encontro de casais em Gaza. Ele tem feito sucesso, e não só porque o Tinder e outros apps de namoro são proibidos ou muito criticados aqui.

Seu fundador conhece bem os moradores da Faixa de Gaza, que são conservadores religiosos e têm uma cultura de resistência. Cerca de 1.400 homens foram mortos nas três guerras com Israel desde 2008, deixando muitas viúvas que gostariam de se casar novamente. A tradição, entretanto, dificulta que elas se casem com homens solteiros.

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Casais palestinos durante cerimônia em Hamas para Huffaz, na cidade de Gaza

Abu Mustafa, 34, um professor de matemática, disse que não teve motivos específicos para se casar mais uma vez, mas que queria dar "dignidade" a uma viúva. O primeiro marido dela morreu durante o conflito entre o Hamas e Israel, em 2012.

O islã permite que um homem tenha até quatro mulheres,

"Nossos homens lutam na guerra e morrem. As mulheres sobrevivem", disse o fundador do site, Hashem Sheikha. "É por isso que meu projeto apoia a poligamia."

Sheikha, 33, um palestino nascido na Arábia Saudita, disse que o site levou a 160 casamentos desde sua fundação em março, e mais da metade dos pedidos de casamento envolviam homens que buscavam uma segunda ou terceira mulher (mas ainda não uma quarta).

"Queremos disseminar a felicidade e as conexões entre as pessoas" e ajudá-las a "encontrar o amor e a paz depois de passar por muito sofrimento", disse ele.

"As mulheres que perderam seus homens nos últimos três anos têm uma vida difícil e poucas opções", disse Reham Owda, uma escritora e analista de questões femininas que vive em Gaza. "Na maioria dos casos, a família do marido pressiona a mulher a se casar com o cunhado para que ele controle sua vida e fique com a ajuda financeira que ela receber."

Owda acrescentou que se o marido da mulher for afiliado a um partido político ele pode intervir e pressionar a mulher a se casar com um homem do mesmo grupo, e ela muitas vezes concorda porque tem dificuldades financeiras e o grupo lhe pagará um salário.

"Esse serviço de encontro de casais é positivo, porque incentiva essas mulheres a escolherem o potencial marido sem medo e pressão nesta sociedade patriarcal e religiosa", disse Owda.

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O carro 'Cinderela' é utilizado para cerimônias de casamento na cidade de Gaza

O Wesal não apenas facilita o casamento para viúvas, mas também para divorciadas e solteiras.

Parte do sucesso imediato do site parece se dever a como ele segue de perto a tradição regional, apesar do meio digital. Quando preenchem o formulário, as pessoas devem abordar várias questões importantes para os que buscam um cônjuge ali: local de residência, ocupação, salário, situação conjugal, número de filhos. E há alguns termos tradicionais que os usuários devem aceitar: "Juro por Alá o Grande que toda a minha informação é precisa e que não usarei este site para diversão".

O que o Wesal não tem são fotos nos perfis ou bate-papo online, para proteger a privacidade das mulheres e porque isso seria considerado "haram", ou proibido pela lei islâmica, segundo Sheikha.

"Somos a versão 'halal' dos sites de namoro americanos", disse ele, usando a palavra que indica que é aceitável pela tradição islâmica.

O Wesal é sustentado por anúncios, e as pessoas que se casam depois de se conhecerem no site devem pagar cerca de R$ 300 cada.

Embora popular, com aproximadamente 100 mil visitantes em uma população de 2 milhões em Gaza, o site não é aprovado por todos.

"Esse site é repelente. As mulheres não são um saco de cebolas", disse Lina Zein, 25, uma mulher solteira de Gaza, explicando que o Wesal parece muito transacional em sua abordagem de arranjar casamentos. "Ele limita minhas ambições de casamento à renda da pessoa."

Amal Seyam, o diretor da Associação de Assuntos das Mulheres de Gaza, uma ONG, disse que o serviço parece chegar em um momento oportuno para aproveitar as mudanças na sociedade local.

"A poligamia atingiu altos índices em Gaza nos últimos anos, aparentemente devido ao aumento da inclinação religiosa das pessoas, especialmente depois que o Hamas assumiu o poder em 2007", disse Seyam, referindo-se ao grupo militante que governa Gaza.

Os índices de casamento gerais estavam em declínio em Gaza, e o divórcio está em ascensão por causa dos altos índices de pobreza e desemprego, segundo o chefe do Conselho Judicial Supremo da Xariá em Gaza, xeque Hassan al Jojo. O próprio Hamas tenta incentivar o casamento ao pagar o equivalente a R$ 5 mil a todo homem que memorizar o Corão, como uma ajuda financeira para o próximo passo na vida.

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Filha de Rami Shatali , na esquerda, durante casamento do seu pai em Maghazi, na cidade de Gaza

O xeque Abdul Khaleq Buhaisi, outra autoridade no Conselho da Xariá, que tem autoridade sobre os casamentos, disse que prefere uniões arranjadas do modo tradicional, em geral por meio de uma "khattaba" --uma mulher que faz visitas em companhia da mãe do noivo em busca de noivas.

A khattaba inspeciona a noiva prospectiva: formato do corpo, cor da pele, dentes, cabelos e outras características físicas. Tradicionalmente, a maneira educada de a família do noivo indicar uma proposta é pedir para ir à casa da noiva para tomar um café.

Com o serviço do Wesal, um noivo prospectivo recebe o endereço da mulher depois que ambos trocaram "curtidas" online. Então o homem tem 48 horas para fazer a proposta, o que geralmente é feito durante o tradicional café na casa dela.

Kholoud Sobouh, 27, disse que se cansou de ser mostrada a homens que batiam à porta com suas mães para convidá-la. Por meio do Wesal, ela e seu noivo se conheceram em menos de 24 horas. Ela pediu um homem instruído, que não fumasse e que pudesse manter uma casa em Gaza. Seu noivo, Tareq --Sobouh não quis dar o sobrenome dele, por medo de ser criticada por encontrar o marido na rede--, disse que queria uma mulher alta, de pele clara e maneiras religiosas. Será o primeiro casamento dos dois.

"O serviço do Wesal foi a melhor descoberta da minha vida", disse Sobouh. "Sou eu que vou me casar, não minha família ou a sociedade."

Em alguns casos, o fundador do Wesal age como uma khattaba tradicional.

Nour Ahmad, 25, deixou Gaza depois que sua família concordou que ela se casasse com um palestino que vivia na Arábia Saudita.

"O fundador do Wesal foi à minha casa e convenceu minha família de que o homem é honesto e quer se casar comigo", disse Ahmad. "Eu concordei porque queria um homem que tenha uma boa vida e trabalhe para construir um futuro."

Sheikha, o fundador do Wesal, disse que quer que o site desafie antigos costumes em torno da formação de casais em Gaza, e dar às mulheres mais influência no processo. "Nosso site as incentiva a procurar maridos por si mesmas, para realmente escolherem e dizerem do que gostam no homem", explicou. "Também combatemos antigas tradições que dizem que as divorciadas não devem se casar."

Mas enquanto Sheikha é a favor de mais opções para as mulheres na escolha de um marido, ele não defende a opção de continuar solteira. Além de ajudar as viúvas e divorciadas a encontrar maridos, ele disse esperar que o site também aborde "o número crescente de 'solteironas' de 20 e 30 anos. O provérbio árabe diz que viver à sombra de um homem é melhor do que viver à sombra de uma parede, o que significa que ter um marido é melhor do que ficar solteira.

O site também foi aprovado por homens divorciados.

Rami Shatali, 38, trabalha em uma fábrica de biscoitos e ganha menos de 1.000 shekels por mês (R$ 1.000) e tem quatro filhas de um casamento anterior que acabou em divórcio e que moram com ele no campo de refugiados de Al Maghazi.

Sua nova mulher, Majd Shatali, 26, também divorciada e com um filho, o conheceu no Wesal em março.

Cerca de 400 pessoas compareceram ao casamento. A primeira dança foi a do casal, em ritmo lento.

As filhas do noivo, junto com o filho da noiva, dançaram alegremente. De vez em quando parentes do noivo espirravam purpurina e neve de casamento no ar.

"Senti-me o homem mais feliz do mundo no dia do meu casamento", disse Shatali, "porque encontrei uma mulher que se apaixonou loucamente por mim, a única que pode me fazer esquecer minha dor."

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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