Civis estão na linha de fogo no último bastião do Estado Islâmico em Mosul

Ivor Prickett

Em Mosul (Iraque)

  • Ivor Prickett/The New York Times

O domínio do Estado Islâmico em Mosul foi reduzido a um perímetro mais estreito de bairros na zona oeste da cidade. Mas muitos civis continuam presos nessas áreas, e os militantes não cedem terreno com facilidade.

Enquanto percorremos com as forças iraquianas o bairro de Rifai, no mês passado, havia por toda parte evidências de uma luta brutal. A destruição era imensa, e parecia que nenhuma casa estava livre de buracos de balas --ou pior.

Enquanto ainda ocorriam choques nos últimos bolsões controlados pelo EI em Rifai, pessoas desalojadas começaram a sair ao anoitecer. O número das que conseguiam fugir parecia muito menor que nas primeiras fases da batalha pelo oeste.

Fora um grupo ocasional de moradores exaustos e silenciosos que de repente escapava da linha de frente, as ruas estavam quase livres de presença humana. Outra exceção eram as forças iraquianas estacionadas lá. No entanto, há muitos civis na área, a maioria apegada a suas casas por medo do fogo cruzado ou de ser apanhada por combatentes do EI.

Em uma esquina, diante de uma base das forças especiais iraquianas próximas da linha de frente, cinco combatentes mortos do EI se decompõem sob o sol do verão --uma rara concentração de militantes, que cada vez mais lutam em equipes menores, de dois ou três homens. Alguns soldados iraquianos disseram que os combatentes provavelmente foram atingidos pelo fogo do canhão de um helicóptero ou avião.

Os corpos estavam inchados e cobertos de moscas, que parecem brotar do entulho que cobre as ruas de Mosul.

Soldados das forças de operações especiais assumiram posições defensivas na borda de Rifai depois que o bairro foi retomado e esperavam suas próximas ordens.

Então veio o contra-ataque do EI. Sob a cobertura de uma tempestade de areia repentina, os jihadistas combateram as tropas durante horas antes de serem expulsos. Os militantes raramente parecem perder a oportunidade de usar tempestades ou outras condições climáticas severas, quando as aeronaves da coalizão não podem visá-los, para intensificar a luta.

Na linha de frente na manhã seguinte, soldados contaram que o intenso tiroteio durante a batalha na tempestade havia incendiado suas trincheiras de sacos de areia. Eles pareciam surpresos de que o EI continuasse bem equipado e capaz e descreveram como os militantes foram disciplinados no uso de veículos e paramédicos para recuperar seus feridos.

Na manhã de 29 de maio, uma segunda-feira, quatro batalhões de forças de operações especiais do Iraque se deslocaram para o que parecia uma parte muito pequena do bairro ocidental de Al Saha, para tentar liberá-lo de algum combatente restante do EI.

Partindo cedo, os homens se dividiram em equipes e entraram na área em etapas. A segunda equipe teve tempo para descansar e tomar o desjejum antes de ser convocada a entrar em operação.

O trabalho das tropas iraquianas tem sido exaustivo enquanto tentam limpar os bairros ao norte da Cidade Velha, muitas vezes sob tiros de militantes ainda escondidos lá.

Al Saha é uma das áreas de aproximação, e as forças especiais iraquianas tomaram cuidado para usar as "ratoeiras" que os militantes cortaram nas paredes das casas para se deslocar com maior segurança.

Em uma esquina na borda de Rifai, um franco-atirador do EI estava posicionado e atirava contra os veículos que atravessavam a rua. Ele disparou contra um grande grupo de civis em fuga, errando o alvo por pouco. Seu tiro passou sobre as cabeças deles e atingiu um carro virado atrás do grupo. Os tiros dividiram as pessoas, e a metade delas voltou para o lugar de onde tinha saído.

Não havia outra maneira de eles chegarem à segurança, por isso esperaram que um veículo militar cruzasse a rua e usaram a poeira que ele levantou para se ocultar e correr. Mulheres carregando crianças, parentes carregando os enfermos, todos se moveram o mais depressa que puderam em busca de segurança. De alguma forma eles conseguiram passar ilesos.

Pouca coisa ficou inteira nesses bairros, que suportaram uma quantidade enorme de tiros do céu e do solo.

Ataques aéreos da coalizão ainda se verificam com frequência no meio de áreas densamente povoadas, e as baixas civis foram incalculáveis. Mas as forças iraquianas parecem relutar em avançar sem apoio aéreo.

Quando perguntado por que os homens não enfrentam os combatentes do EI mais diretamente, em vez de pôr em risco mais civis usando ataques aéreos, um jovem soldado disse que eles querem terminar a luta sem baixas do seu lado.

Talvez esse modo de pensar explique o alto índice de atrito que as forças iraquianas tiveram durante os últimos anos de combate aos militantes, incluindo um grande número de baixas na elite das forças de contraterrorismo nos últimos meses de luta urbana em Mosul. Ou talvez seja um indício de uma luta tão amarga que a destruição total é aceitável, desde que o inimigo seja derrotado.

À frente está a Cidade Velha de Mosul, e talvez a pior luta até agora. Enquanto a batalha se aproxima das ruas estreitas e desalinhadas dessa área, o número de civis em fuga caiu acentuadamente.

Alguns dos soldados aqui, assim como um morador que conseguiu fugir, disseram que os homens do EI reuniram todo mundo que ainda morava na área e os obrigaram a recuar com eles para a Cidade Velha.

É uma ideia assustadora, mas terrivelmente coerente com o modo como o EI trava essa batalha há meses. A última posição dos militantes poderá ser atrás de um muro de civis.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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