Análise: Terroristas transmitem sua mensagem com simplicidade letal

Scott Shane

Em Washington (EUA)

  • Daniel Sorabji/AFP

    3.jun.2017 - Equipes de resgate socorrem vítimas de ataque terrorista em Londres

    3.jun.2017 - Equipes de resgate socorrem vítimas de ataque terrorista em Londres

Nos meses seguintes aos ataques terroristas de 11 de setembro de 2001, as autoridades ocidentais temeram novos ataques, possivelmente com armas de destruição em massa, capazes de matar milhares de pessoas.

Os EUA investiram pesado em detectores biológicos e nucleares e outros equipamentos de alta tecnologia. O terrorismo jihadista parecia uma ameaça que causaria nervosismo em países inteiros e poderia durar uma geração.

Mais de 15 anos depois, a ameaça e o medo se mostraram reais e duradouros. Mas o número de mortos em cada ataque no Ocidente continuou relativamente modesto, em parte porque os agressores aprenderam que não precisam de antraz ou bombas sujas para perturbar capitais, aterrorizar turistas, dominar a atenção de governos e impressionar potenciais recrutas.

Tudo de que eles precisam é uma arma, ou, se for muito difícil conseguir, um caminhão e uma faca. E com simples preparativos esse complô, incentivado e às vezes dirigido pelo Estado Islâmico (EI), é difícil de detectar mesmo com inteligência reforçada e vigilância dos serviços policiais.

Depois do ataque com uma van e uma faca que deixou sete mortos em Londres na noite de sábado, o terceiro atentado fatal em três meses no Reino Unido, é difícil lembrar que anos atrás muitos especialistas previam uma matança em muito maior escala.

Mas os atentados ainda parecem anunciar um novo caos, especialmente numa época em que o lento estrangulamento do EI significa que mais jovens ocidentais atraídos por sua causa ficam em seus países para causar tumulto.

Lorenzo Vidino, diretor do programa sobre extremismo na Universidade George Washington, disse que os três agressores de Londres talvez sejam um caso típico.

"Dois anos atrás, esses três imbecis teriam ido para a Síria", disse ele. "Hoje não podem fazer isso, então fazem alguma outra coisa."

Além das vítimas mortas ou feridas, o terrorismo prova cada vez mais sua capacidade de atrair uma cobertura excessiva da mídia e de polarizar a sociedade. Ele representa um teste para os líderes, que devem pesar bem o que querem dizer a seus concidadãos e o futuro impacto de suas palavras.

O presidente Donald Trump, como em outras situações, ofereceu um contraste marcante com seu antecessor, Barack Obama, e com alguns líderes europeus. No sábado à noite, Trump enviou uma mensagem padrão de apoio a Londres via Twitter: "ESTAMOS COM VOCÊS. DEUS ABENÇOE!"

Mas depois disso ele publicou uma série extraordinária de nove mensagens, zombando do prefeito de Londres e reivindicando sua própria proposta de "proibição de vistos" a visitantes de certos países muçulmanos, hoje suspensa nos tribunais. Em uma delas, Trump escreveu: "É isso mesmo, precisamos de uma PROIBIÇÃO DE VIAGENS para certos países PERIGOSOS, não de algum termo politicamente correto que não nos ajudará a proteger nossa população!"

No rastro do terrorismo, Obama geralmente projetava calma e contenção --até em excesso, segundo alguns apoiadores inclusive-- e sempre distinguia os jihadistas violentos do islã e seus seguidores. Sua intenção era garantir que não se fizesse nada para vilipendiar os muçulmanos comuns, o que ele considerava injusto e contraproducente.

A maioria dos especialistas em contraterrorismo diz que intimidar ou alienar os muçulmanos que respeitam a lei simplesmente torna menos provável que eles delatem extremistas ou atividades suspeitas. As autoridades britânicas também disseram que frustraram pelo menos 18 complôs terroristas desde 2013, muitas vezes com a ajuda de dicas da comunidade muçulmana.

Trump, talvez tendo em mente seus apoiadores americanos, e não as táticas de segurança, com frequência faz questão de colocar o rótulo "islâmico" no terrorismo e extremismo. Desta vez, sua avidez para brigar com os tribunais "lentos e políticos" que rejeitaram várias vezes sua proibição de viagens e com críticos como o prefeito de Londres, Sadiq Khan, o primeiro muçulmano a comandar uma grande capital ocidental, superou qualquer estratégia mais deliberativa.

Bruce Hoffman, um professor na Universidade de Georgetown que assessorou o governo americano sobre terrorismo durante anos, disse que era "uma estratégia de provocação" e importante que os líderes não reajam de forma visceral.

"Qualquer reação que seja imediata e emocional, em vez de sóbria e considerada, faz o jogo dos terroristas", disse Hoffman.

Apesar de ter criticado Obama muitas vezes, Hoffman apoiou o cuidado do ex-presidente ao responder aos ataques. "Sua reação comedida e calma era correta", disse ele.

No momento, com certeza, o medo do terror jihadista nos EUA não é tão agudo quanto na Europa. Os americanos se sentem relativamente protegidos de atentados, tanto pelos oceanos quanto pela relativa afluência e assimilação de sua população muçulmana, que é pequena em comparação com a da Europa.

Vidino, que está terminando um estudo sobre ataques jihadistas no Ocidente durante os três anos desde que o EI reivindicou seu território em partes da Síria e do Iraque, contou 52 atentados nesse período, que deixaram 402 mortos. Enquanto a França liderou a contagem, com 17 ataques e 239 mortos, os EUA vieram em seguida, com 16 ataques e 76 mortos. O Reino Unido teve cinco ataques e 35 mortos.

Mas os atentados na Europa criaram um clima de apreensão muito diferente do dos EUA. "Isso está moldando a vida cotidiana na Europa", disse Vidino, na Itália. "É uma mentalidade completamente diferente."

Na mesma noite do atentado em Londres, comentou ele, um fogo de artifício causou pânico em uma multidão que assistia a uma partida de futebol em um telão ao ar livre em Turim, na Itália, causando uma correria que deixou 1.500 pessoas feridas, inclusive um menino de 7 anos que ficou em coma.

Esses diferentes níveis de medo podem derivar em parte do nível habitual de violência letal, muito mais alto nos EUA do que na Europa. Trump usou o ataque em Londres para criticar o controle de armas, declarando: "Vocês percebem que não estamos tendo um debate sobre armas agora?"

Mas nos dois últimos ataques jihadistas importantes nos EUA, em San Bernardino, na Califórnia, e Orlando, na Flórida, os agressores usaram armas para matar 14 e 49 pessoas, respectivamente, mais que as sete mortes em Londres. E a ex-deputada Gabrielle Giffords, do Arizona, que foi gravemente ferida em um tiroteio em 2011 e hoje milita pelo controle das armas, reagiu à postagem do presidente no Twitter com uma estatística sobre a violência armada nos EUA: "Todos os dias temos um debate sobre armas, porque todos os dias 90 pessoas morrem em nosso país pela violência das armas".

Esse total inclui suicídios usando armas de fogo, assim como homicídios.

O protesto de Giffords refletiu a modesta atenção dada pela mídia à violência de rotina, comparada com a extensa cobertura da chacina de estranhos por fanáticos religiosos.

Apesar de sua brutalidade, o EI, que reivindicou a responsabilidade pelo ataque em Londres, até agora evitou a reação que a matança de inocentes às vezes causa entre potenciais recrutas.

Daniel Byman, professor em Georgetown e autor de vários livros sobre terrorismo, disse que os jihadistas não demonstraram repulsa pelo recente ataque a bomba contra jovens fãs da cantora Ariana Grande em Manchester, no Reino Unido, em 22 de maio.

"São alvos patéticos", disse ele, zombando do pensamento do homem-bomba: "'Eu mostrei ao inimigo --ataquei adolescentes em um show.'"

Para o EI, ainda mais que para outros grupos extremistas como a Al Qaeda, "parte de sua marca é: 'Nós somos os mais violentos'", disse ele. "E parece que está funcionando."

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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