Quem é o general que lidera a guerra às drogas nas Filipinas

Aurora Almendral

Em Davao (Filipinas)

  • Jes Aznar/The New York Times

    O general Ronald dela Rosa, chefe da Polícia Nacional das Filipinas, na sede da polícia em Quezon

    O general Ronald dela Rosa, chefe da Polícia Nacional das Filipinas, na sede da polícia em Quezon

O general Ronald dela Rosa, chefe da Polícia Nacional das Filipinas, sabe o valor de uma demonstração pública de remorso. Ele foi forçado a pedir desculpas mais de uma vez.

Ele reconheceu diante do senado filipino e das câmeras que errou ao ter confiado em policiais indisciplinados que mataram o prefeito de uma cidade pequena suspeito de traficar drogas, enquanto este jazia indefeso no chão de uma cela.

"Não posso culpar a população se eles estiverem perdendo a confiança em sua polícia", ele disse ao comitê do Senado, aceitando o lenço de papel oferecido pelo filho do prefeito para enxugar as lágrimas.

Ele também admitiu ter errado ao não exonerar todos os policiais corruptos, depois que alguns deles usaram uma operação antidrogas como fachada para sequestrar um empresário coreano em troca de resgate, e depois mataram o homem dentro de Camp Crame, a sede da polícia onde Dela Rosa vive e trabalha.

Dela Rosa não comentou sua mais recente declaração aparentemente equivocada, na sexta-feira, após um ataque contra o maior cassino-hotel do país. Horas depois de ter afirmado que seus homens tinham a crise sob controle, assegurando que havia segurança e que tudo havia voltado ao normal, dezenas de corpos foram encontrados dentro do complexo Resorts World Manila.

Apesar das promessas do general de deixar o país mais seguro, há sinais conflitantes sobre como os filipinos se sentem. Uma pesquisa recente sugeriu que eles estão satisfeitos com a violenta repressão contra as drogas inaugurada pelo presidente Rodrigo Duterte, mas que eles não se sentem mais seguros.

Ainda assim, Dela Rosa, 55, diz ter certeza de que está correto ao executar a campanha antidrogas do presidente. Como chefe da força policial nacional, Dela Rosa, que construiu sua carreira como um soldado de linha de frente, é encarregado das operações do dia a dia da campanha, que deixou milhares de filipinos mortos, muitos deles executados nas ruas.

Duterte, eleito à presidência com base na promessa de livrar o país das drogas e da criminalidade, pediu publicamente aos cidadãos que matem viciados em drogas, ofereceu imunidade a policiais por ações durante a campanha antidrogas e disse a respeito dos usuários de drogas do país: "Eu ficaria feliz em matá-los".

No entanto, Dela Rosa se declara surpreso em relação às críticas vindas de governos ocidentais, das agências da ONU, da União Europeia e do Tribunal Penal Internacional. Todos eles condenaram a campanha antidrogas e ameaçaram ações punitivas, caso as violações de direitos humanos continuem.

Em abril, um advogado filipino protocolou uma petição junto ao Tribunal Penal Internacional solicitando que Dela Rosa fosse indiciado, bem como Duterte e outras autoridades do governo, por crimes contra a humanidade.

"Eu não esperava isso", disse Dela Rosa sobre a reação negativa contra a chacina.

O senador Antonio Trillanes, um dos principais opositores do governo Duterte, descreveu Dela Rosa como subordinado de Duterte, "operacionalizando os pensamentos e intenções do presidente Duterte".

Sob comando de Dela Rosa, a polícia matou mais de 2.600 pessoas em operações antidrogas, segundo estatísticas da polícia. Pelo menos 1.400 outras pessoas foram mortas por agressores desconhecidos em conexão com drogas, e 3.800 outras estão aguardando investigação.

Dela Rosa trabalhou sua amizade com Duterte ao longo de três décadas. Eles se conheceram em 1986, quando Dela Rosa se formou na Academia Militar das Filipinas e Duterte foi nomeado vice-prefeito da cidade de Davao, na época um fim de mundo provinciano com criminalidade galopante e rebeliões sangrentas de comunistas e separatistas muçulmanos. Em 1989, Duterte, que vinha cultivando uma imagem de prefeito linha-dura que valorizava a bravura e a crueldade, foi padrinho de casamento de Dela Rosa.

Assim como Duterte, Dela Rosa é nativo da província de Davao. Ele foi criado em meio à pobreza rural --seu pai dirigia um riquixá motorizado e sua mãe era vendedora de peixe-- e galgou a cadeia de comando conquistando uma reputação como soldado que nunca recuava de um combate.

"Foi assim que me tornei o Bato", ele disse, referindo-se a seu apelido, que significa "Rocha". "Onde quer que houvesse problemas, eu estava lá".

Ele ascendeu ocupando posições de comando, tornando-se chefe da polícia de Davao em 2010. Nessa posição ele desenvolveu o Oplan Tokhang, um protótipo para a campanha nacional contra as drogas.

"As pessoas aqui me consideram um herói local", disse Dela Rosa. Quando ele sai em público, as pessoas pegam seus telefones para tirar selfies com os punhos cerrados contra o peito, em um gesto de apoio ao general.

Quando Duterte se tornou presidente, não foi nenhuma surpresa ele ter escolhido Dela Rosa para se tornar chefe da Polícia Nacional Filipina.

"Sou seu oficial de polícia de maior confiança", disse Dela Rosa em uma entrevista. "Sei no fundo do meu coração".

Suas ordens, ele disse, eram replicar nacionalmente o que ele havia feito em Davao. "Podemos assim fazer com que as Filipinas inteiras sintam como é viver em Davao, a mesma governança, as mesmas práticas de aplicação da lei", disse Dela Rosa.

Essas práticas foram duramente criticadas por ativistas dos direitos humanos, embora a maioria dos moradores de Davao as defendam. A cidade de Davao é uma capital de província sem graça com prédios baixos, pequenos centros comerciais, lanchonetes simples e barracas de frutas. Grupos de direitos humanos calculam que houve em Davao 1.400 assassinatos extrajudiciais durante o mandato de Duterte.

O que veio a ser chamado de Esquadrão da Morte de Davao teria, segundo testemunhas, ex-membros e organizações de direitos humanos, matado suspeitos de crimes, muitas vezes a partir da garupa de uma motocicleta.

Esses críticos dizem que a polícia de Davao fazia vista grossa enquanto os esquadrões da morte operavam em impunidade, acrescentando que durante os 30 anos em que Duterte governou Davao, nenhum assassino foi devidamente processado.

Dela Rosa diz que não pode confirmar a existência de um Esquadrão da Morte de Davao organizado, e ignora histórias contadas por ex-membros confessos de esquadrões da morte, e pelo próprio Duterte, de criminosos sendo jogados de helicópteros ou dados como comida aos crocodilos, dizendo que não passam de lendas urbanas. Ele não foi citado pelas testemunhas como membro.

Embora queixas de má conduta policial e acusações de envolvimento policial em assassinatos justiceiros tenham se tornado a norma ultimamente nas favelas de Manila, Dela Rosa diz que ele trata dessas acusações considerando todos os casos abertos contra a polícia.

Dela Rosa também diz que está tentando frear o explosivo índice de assassinatos. "Estamos fazendo o possível para investigar todos esses assassinatos", ele disse.

No entanto, passados dez meses de seu mandato, Dela Rosa continua especulando que os assassinatos cometidos por atiradores em motocicletas são casos de traficantes de drogas matando uns aos outros. Assim como em Davao, poucos dos assassinos são pegos, e sem uma prova sólida para fundamentar a afirmação de Dela Rosa, as pessoas nas favelas mais visadas pelos supostos assassinatos justiceiros disseram, em dezenas de entrevistas e conversas, que a polícia está envolvida.

Phelim Kine, da Human Rights Watch, que publicou um relatório em março sobre abusos policiais, disse que Duterte e Dela Rosa "não estão dispostos ou não têm capacidade de lidar com esse problema de assassinatos extrajudiciais cometidos por membros da polícia e esquadrões da morte associados a eles".

Trillanes diz que as supostas falhas de Dela Rosa em controlar os policiais são parte de uma meta mais ampla. "Acredito que seja de propósito, porque eles desencadearam esses esquadrões da morte dentro das fileiras da Polícia Nacional das Filipinas e ele não vai detê-los porque essa é a ordem", disse Trillanes.

Dela Rosa tem defendido as ações de seus homens na maioria das vezes. "Meus policiais não se envolvem em nenhum tipo de absurdo", ele contou à mídia local no mês passado, depois de inspecionar uma cela sem janelas escondida atrás de uma estante de livros em uma das delegacias de polícia de Manila que continha 12 pessoas sem acusações oficiais, em meio a denúncias de que a polícia estava tentando extorquir dinheiro das famílias dos prisioneiros.

Dela Rosa permanece contumaz diante de uma condenação internacional e da ameaça de um possível indiciamento por parte do Tribunal Penal Internacional. "Estou trabalhando pelo povo filipino", ele disse. "O povo filipino está feliz com o que estamos fazendo".

Tradutor: UOL

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