Venezuelanos se unem para "escrachar" apoiadores de Maduro nas ruas dos EUA

Lizette Alvarez

Em Miami (EUA)

  • SCOTT MCINTYRE/NYT

    Jose Antonio Colina lidera protesto contra a Goldman Sachs, em Miami

    Jose Antonio Colina lidera protesto contra a Goldman Sachs, em Miami

Enquanto o sol ardia sobre os quase 100 manifestantes no centro de Miami na semana passada, José Antonio Colina, um líder entre os exilados venezuelanos, estava diante do mais recente alvo do grupo, um edifício, e liderando as pessoas nos cantos de indignação: "Goldman Sachs, dinheiro sangrento! Goldman Sachs, dinheiro sangrento!"

"O Goldman Sachs lucra com a morte de venezuelanos", gritava Colina, uma referência à recente compra pelo banco de US$ 2,8 bilhões em títulos venezuelanos com enorme desconto. "Eles estão dando oxigênio à ditadura."

Miami, lar de mais de 100 mil venezuelanos, se tornou o centro nervoso de um amplo movimento de protesto que busca a derrubada do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro. Sob Maduro, o sucessor profundamente impopular do populista e socialista Hugo Chávez, a Venezuela foi tomada por violência, protestos em massa, desemprego e escassez de alimentos, medicamentos e gasolina. Como resultado, dezenas de milhares de venezuelanos partiram para os Estados Unidos nos últimos anos, muitos deles mudando-se para Doral, um subúrbio de Miami apelidado de Dorazuela.

Mas opositores do regime venezuelano não são os únicos se mudando para cá. Há vários anos, venezuelanos alinhados com o chavismo, a ideologia revolucionária de esquerda de Chávez, e ao governo Maduro estão comprando casas caras, desfrutando férias, investindo ou vivendo novas vidas confortáveis aqui. Isso enfurece os exilados venezuelanos, que os acusam de saquear o país e depois fugir para uma vida melhor nos Estados Unidos, um país que há muito satanizam. Os exilados chamam esses chavistas de "boliburgueses" (a burguesia bolivariana) ou apenas "bolichicos".

À media que o número de chavistas cresce, os exilados decidiram não se limitar às manifestações tradicionais, como a da última quinta-feira contra o Goldman Sachs, e passar a uma forma de envergonhamento público, denúncias mais íntimas, cara a cara. Os protestos visam abalar os chavistas que levam uma existência confortável aqui, tornando o dia a dia deles desconfortável ou expulsá-los do país. Assim que notícia chega às redes sociais, ela se espalha rapidamente entre os exilados daqui e às pessoas na Venezuela.

Esses atos mais pessoais têm um grande impacto emocional, mas também podem gerar críticas substanciais, pois costumam ser realizados do lado de fora de residências privadas ou até mesmo dentro de estabelecimentos onde os chavistas são confrontados cara a cara.

Quanto mais pessoal o protesto, mais visceral se torna para ambos os lados. No mês passado, um ex-ministro do governo Chávez, Eugenio Vasquez, estava tomando café com seu parceiro no Don Pan, uma popular padaria venezuelana em Doral, quando um cliente o reconheceu. O cliente abordou Vasquez e começou a condená-lo. Logo, outros na padaria se juntaram, um momento registrado em vídeo, como ocorre na maioria dos protestos.

SCOTT MCINTYRE/NYT
Venezuelanos jogam domino em El Arepazo, um restaurante da comunidade em Doral, na Flórida


"Fuera, fuera" (fora, fora), eles gritavam. "Rata", disse uma pessoa, usando a palavra em espanhol para rato. "Ladrón" (ladrão) disse outra pessoa. Com as emoções fervilhando, Vasquez e seu parceiro se levantaram e discretamente saíram da padaria.

Encontros desse tipo com chavistas e apoiadores de Maduro (alguns ocorrendo por acaso, outros de forma planejada) não se limitam à Flórida. Eles estão ocorrendo por todo o mundo, particularmente na Espanha, outro ninho de ativismo antichavismo.

Recentemente, oponentes ultrajados do governo venezuelano perseguiram o embaixador venezuelano na Espanha pela calçada batendo panelas; eles atiraram lixo em um alto diplomata; e em um balcão de padaria em Madri, gritaram "asesino" (assassino) contra um gerente geral de uma estatal venezuelana, apontando que enquanto estava desfrutando pães e doces, as pessoas na Venezuela estavam morrendo de fome. Em Bondi Beach, na Austrália, duas mulheres gritaram com a filha do prefeito de Caracas, enquanto ela caminhava pelo calçadão, perguntando a ela em espanhol, "Tienes miedo?" (Está com medo?)

O envergonhamento público também pode empregar outras táticas. A mais famosa é o escrache, um envergonhamento coletivo mais organizado que geralmente ocorre diante da casa ou pequeno negócio de alguém. Ele foi popularizado pelos argentinos que buscavam denunciar os perpetradores da "guerra suja" da Argentina, um conflito nos anos 70 e 80 no qual 30 mil dissidentes e subversivos "desapareceram". As vítimas passaram a ser conhecidas como "los desaparecidos" e seus parentes reagiram com escraches, após as autoridades receberem anistia pelos seus crimes.

A Espanha usou a tática com eficácia em 2013, durante a recessão econômica do país, quando as pessoas eram rotineiramente despejadas de seus lares. Para pressionar os políticos a mudarem a lei de despejo, manifestantes espanhóis compartilhavam suas queixas sobre os efeitos perniciosos da lei, disse Cristina Flesher, uma professora da Universidade de Aberdeen que escreveu livros e artigos sobre os escraches.

"Ele tem muitas formas diferentes, mas na verdade é um testemunho coletivo em vez de um caso isolado de pessoa ultrajada na rua", ela disse. "A chave é manter a posição moral superior."

SCOTT MCINTYRE/NYT
El Arepazo, restaurante da comunidade venezuelana, em Doral, na Flórida


Em Miami, os manifestantes realizaram vários escraches no último ano nas casas ou negócios de venezuelanos que chamam a si mesmos de "enchufados", ou pessoas ligadas ao governo. Muitos deles são organizados e selecionados por Colina e seu grupo, Venezuelanos Perseguidos Politicamente em Exílio. Colina, um ex-oficial militar venezuelano, fugiu do país para Miami em 2003, após ser acusado pelo governo Chávez de plantar bombas em Caracas. Os Estados Unidos decidiram não extraditar Colina.

Quando os exilados souberam que uma ex-integrante do governo venezuelano, Iroshima Jennifer Bravo, tinha se mudado para Miami e abriu um spa em Doral, no ano passado, eles checaram os registros do imóvel e então realizaram um escrache diante do spa. Bravo fechou o negócio.

"Fazemos esses escraches para que a notícia chegue à Venezuela", disse Jani Mendez, 45 anos, que participou de oito deles. "São hipócritas."

No mês passado, os exilados em Orlando permaneceram do lado de fora da casa de um ex-almirante da Marinha venezuelana. Com um megafone, um porta-voz do grupo assegurou que os vizinhos do homem no empreendimento de luxo soubessem exatamente quem ele era e o que tinha feito.

"Nesta casa vive Aniasi Turchio", disse o porta-voz. "Esse é o tipo de pessoa que disse ao povo na Venezuela, que passa fome, que não tem remédios, que está procurando comida em latas de lixo, que o socialismo é bom e que os imperialistas estão prejudicando o país, mas vejam onde ele vive agora."

Mas Flesher disse que os escreches também podem sair pela culatra a menos que os manifestantes sejam organizados, sigam as leis e tenham certeza dos males cometidos pelos chavistas. Em Miami, os manifestantes realizaram recentemente um escrache diante da casa em Weston de uma ex-juíza venezuelana, que era acusada de colaborar com o governo venezuelano. Na verdade, a juíza, até sua renúncia, era elogiada por sua integridade e foi responsável pela soltura de Henrique Capriles, o líder da oposição na Venezuela. Seu único crime foi viver em Weston com um ex-vice-ministro do governo Chávez.

"Nunca tomei decisões influenciadas pela política", postou a juíza, Dayva Soto, no Twitter após o episódio. "E renunciei para alertar outros que a independência dos juízes na Venezuela estava em risco."

Os exilados venezuelanos reconheceram posteriormente que foi um erro focarem na juíza em vez de seu marido.

"Em termos de eficácia, tudo se resume a credibilidade", disse Flesher. "No instante em que você se afasta de coisas que são verificáveis, você dá abertura ao contra-ataque."

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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