A "nuvem" que paira sobre o presidente Trump acaba de se tornar mais ameaçadora

Peter Baker

Em Washington

  • Joshua Roberts/Reuters

    22.jan.2017 - James Comey (dir), então diretor do FBI, cumprimenta o presidente Donald Trump em evento no Salão Azul da Casa Branca

    22.jan.2017 - James Comey (dir), então diretor do FBI, cumprimenta o presidente Donald Trump em evento no Salão Azul da Casa Branca

Transtornado com a investigação sobre a interferência russa nas eleições do ano passado, o presidente Donald Trump procurou James Comey, diretor do FBI na época. Segundo relatos de Comey, Trump pediu a ele que o ajudasse a "dissipar a nuvem".

Mas, graças às ações do próprio Trump, a nuvem ficou consideravelmente mais ameaçadora na quinta-feira e agora provavelmente pairará sobre sua presidência por meses, se não por anos.

Em vez de aliviar a pressão, a decisão de Trump de demitir Comey gerou uma ameaça política e jurídica ainda maior. Especialistas jurídicos dizem que, ao demonstrar sua raiva contra Comey por este ter se recusado a informar publicamente que o presidente não estava pessoalmente sendo investigado, o próprio Trump pode ter se transformado no alvo de uma investigação.

Embora tenha sido dado em termos calmos, pensados e impassíveis, o testemunho de Comey na quinta-feira foi quase que certamente o momento mais "J'accuse" (Eu acuso) de uma autoridade de alto escalão contra um presidente na última geração.

Em uma sala de audiências do Capitólio, desdobrou-se o surpreendente quadro de um ex-diretor do FBI acusando a Casa Branca de "mentir pura e simplesmente" e afirmando que quando o presidente sugeriu que fosse encerrada uma investigação sobre seu ex-assessor de segurança nacional, "Eu assumi aquilo como um propósito".

Comey também deu munição para o lado do presidente, especialmente quando admitiu que havia orquestrado o vazamento do relato sobre sua reunião mais crítica com Trump com a intenção específica de incentivar a nomeação de um procurador especial, que ele conseguiu.

Os defensores do presidente disseram que Comey havia provado que Trump estava certo quando ele chamou o ex-diretor do FBI de "exibido" e "dramático", uma conclusão compartilhada com os democratas quando ele investigou Hillary Clinton, no ano passado.

Mas Comey também revelou que havia entregue registros escritos de suas conversas com Trump para esse recém-nomeado procurador especial, Robert Mueller, sugerindo que os investigadores poderiam estar tentando descobrir agora se Trump tentou obstruir a Justiça ao demitir o diretor do FBI.

"Esse foi um dia devastador para a Casa Branca de Trump, e quando a história da presidência Trump for escrita, esse será visto como um momento chave", disse Peter H. Wehner, que foi assessor da Casa Branca para o presidente George W. Bush. "Minha conclusão é de que James Comey expôs os fatos e basicamente estava incentivando Mueller a investigar Trump por obstrução. Isso é muito sério".

A Casa Branca ficou na embaraçosa posição de tentar minimizar os danos. O próprio Trump se manteve atipicamente em silêncio, enquanto seus assessores mantinham os boletins diários longe das câmeras e enviavam o backup para Sean Spicer, o porta-voz. "Eu posso dizer definitivamente que o presidente não é um mentiroso", disse aos repórteres a vice-porta-voz Sarah Huckabee Sanders.

Washington não via um espetáculo como esse desde a época de Watergate, do Irã-Contras ou do impeachment do presidente Bill Clinton. Por mais que no mandato de Bush e do presidente Barack Obama tenha havido controvérsias, nenhum deles nunca foi acusado de conduta pessoal imprópria por alguma autoridade policial atual ou passada de forma tão pública.

De fato, Comey ressaltou a diferença ao observar que ele nunca havia anotado suas conversas com qualquer um desses presidentes porque ele confiava na integridade deles, mas que escreveu memorandos sobre cada um de seus encontros a sós com Trump porque "estava verdadeiramente preocupado que ele pudesse mentir sobre a natureza de nosso encontro".

Em qualquer outra presidência, os acontecimentos expostos por Comey —como Trump pedindo por "lealdade" do diretor do FBI que estava investigando os associados do presidente, e depois lhe pedindo para encerrar uma investigação sobre um ex-assessor e, por fim, demitindo-o por não ter feito o que pediu— poderiam ter significado o fim de tudo.

Mas Trump testou os limites da política normal e subverteu as regras habituais. Para seus partidários, as investigações não são nada além da mídia de elite e do establishment político atacando um agente de mudanças que ameaça seus interesses.

"Este seria como um explosivo momento de fim de presidência", disse John Q. Barrett, um professor de direito na Universidade de St. John's em Nova York e um procurador independente durante a investigação sobre o Irã-Contras na presidência de Ronald Reagan. "Mas temos um contexto diferente agora".

As acusações do impeachment redigidas contra o presidente Richard M. Nixon e Clinton alegavam obstrução de justiça, tornando claro que uma ação como essa poderia se enquadrar na cláusula de "crimes e contravenções do alto escalão" da Constituição.

A fita "cabal" que derrubou Nixon em 1974 o registrou ordenando que seu chefe de gabinete mandasse a CIA impedir o FBI de investigar o arrombamento do Watergate. Críticos dizem que os comentários de Trump para Comey de fato cortaram o intermediário.

A Câmara dos Representantes votou a favor do impeachment de Clinton em 1998 por perjúrio e por obstruído a justiça para encobrir seu caso com Monica Lewinsky, uma ex-estagiária da Casa Branca, durante um processo por assédio sexual.

A obstrução alegada no caso de Clinton foi ter convencido Lewinsky a dar um falso testemunho, aconselhando-a a esconder presentes que ele havia lhe dado para evitar qualquer intimação e tentando encontrar um emprego para ela para mantê-la feliz. Depois de um julgamento, o Senado o absolveu.

Tanto Nixon quanto Clinton enfrentaram uma Câmara controlada pelo partido de oposição, enquanto Trump tem a vantagem de uma Câmara republicana que estaria muito menos disposta a abrir um inquérito de impeachment.

E apesar de todos os ânimos acirrados na quinta-feira, a reação no Congresso ainda se deu em grande parte por linhas partidárias, com os democratas no modo de ataque e os republicanos ou defendendo Trump ou permanecendo calados. Isso pode deixar a questão para Mueller.

"A polarização parece até pior do que durante a investigação sobre Lewinsky, algo que eu não achava que fosse possível", disse Stephen Bates, um procurador independente durante a investigação sobre Clinton. "Todos estão sendo julgados em termos de se ajudam ou prejudicam Trump. Não importa o que Mueller faça, metade do país dirá que ele é corajoso, e metade dirá que ele é desprezível. Só não sabemos qual metade é qual."

A defesa na quinta-feira ficou com o advogado pessoal de Trump, Marc E. Kasowitz, que usou seletivamente o testemunho de Comey, contestando as partes prejudiciais ao mesmo tempo em que citava as partes que ele considerava úteis.

Ele negou que o presidente algum dia tivesse pedido lealdade a Comey ou que tivesse pedido para abandonar a investigação sobre Michael T. Flynn, o ex-assessor de segurança nacional. Mas ele citou a declaração de Comey de que o próprio presidente não estava sendo investigado na época em que o diretor do FBI foi demitido.

Ele também atacou Comey por vazar detalhes de suas conversas com o presidente para provocar a nomeação de um procurador especial, embora elas não fossem sigilosas.

"Está absurdamente claro que existiram e continuam existindo aqueles no governo que estão tentando ativamente minar esse governo com vazamentos seletivos e ilegais ou informações sigilosas e comunicações privilegiadas", ele disse. "O sr. Comey admitiu agora que ele é um desses vazadores."

É revelador o fato de que os republicanos no Comitê de Inteligência do Senado ignoraram os tópicos de discussão distribuídos previamente pelo Comitê Nacional Republicano (CNR) por ordem da Casa Branca. Em vez de atacarem a credibilidade de Comey, como fizeram o CNR e Donald Trump Jr., os senadores republicanos o elogiaram como um patriota e dedicado servidor público. Eles aceitaram em sua maior parte sua versão dos acontecimentos, ao mesmo tempo em que tentavam extrair um depoimento que fizessem as ações de Trump parecer as mais inocentes possíveis.

Comey cooperou até certo ponto ao não tentar ir muito além dos fatos que apresentou, como por exemplo ao se negar a dizer se ele acreditava que as declarações de Trump equivaliam a uma tentativa de obstrução de justiça.

"Em uma disputa de credibilidade entre Trump e Comey, todos sabem que Comey vencerá essa guerra", disse Adam W. Goldberg, que foi procurador especial da Casa Branca no mandato de Clinton durante a investigação de Kenneth W. Starr.

Para Trump, a disputa com Comey agora ofusca muito do que ele quer fazer. Importantes trabalhos legislativos estão parados. Kasowitz disse que o presidente estava "ansioso para continuar avançando em sua agenda, com os negócios deste país e com a nuvem pública sendo removida".

Contudo, por enquanto a nuvem permanece.

Tradutor: UOL

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