Da tensão ao alívio, como Trump reagiu ao depoimento do ex-diretor do FBI

Glenn Thrush e Maggie Haberman

Em Washington (EUA)

  • Drew Angerer e Jim Watson/ AFP e Getty Images

    James Comey, ex-diretor do FBI, e Donald Trump, presidente dos EUA

    James Comey, ex-diretor do FBI, e Donald Trump, presidente dos EUA

O presidente Donald Trump entrava e saía da pequena sala de jantar no Salão Oval na quinta-feira (8) para monitorar a televisão enquanto James Comey, o diretor do FBI demitido, contava uma história tortuosa --e insistir para sua equipe jurídica ali reunida: "Eu estava certo".

Muitos democratas e alguns analistas legais previam grandes problemas para o presidente depois da descrição golpe-a-golpe de Comey à Comissão de Inteligência do Senado sobre os esforços de Trump para influenciar na investigação de seu ex-assessor de segurança nacional, Michael Flynn, o que, na opinião deles, representa obstrução de justiça.

Mas Trump e vários de seus assessores acreditam que a admissão inesperada de Comey de que ele vazou para a mídia detalhes de conversas privadas no Salão Oval, juntamente com questões que levantou sobre a conduta de Loretta Lynch, segunda ministra da Justiça do presidente Barack Obama, lhes deu nova munição para um contra-ataque político que Trump quer muito desferir.

"Sabemos agora lutar melhor que ninguém, e nunca vamos desistir --somos vencedores-- e vamos lutar", disse Trump a uma conferência de evangélicos conservadores depois que ele deixou a Ala Oeste para uma breve aparição pública, justamente quando Comey concluía suas quase três horas de depoimento.

O desafio habitual de Trump mascarava profunda ansiedade e raiva, descritas por pessoas próximas a ele nos últimos dias, que não são nada típicas até para os presidentes mais rebeldes. Mas isso acabou dando lugar a uma sensação de alívio, embora temporária, enquanto Comey confirmava a insistência do presidente de que Comey lhe havia dito diversas vezes que não estava sob investigação pessoal no inquérito sobre a interferência eleitoral russa.

Ao todo, Trump assistiu a cerca de 45 minutos do depoimento de Comey, segundo pessoas próximas ao presidente. Grande parte desse tempo foi passada sob o olhar de seu ativo advogado pessoal, Marc Kasowitz, e do secretário da Defesa, Jim Mattis, um dos membros do gabinete em quem ele mais confia.

Isso foi feito com o consentimento tácito do presidente. Seus assessores encheram o dia com reuniões e sessões de redação de discursos, incluindo uma discussão de 90 minutos sobre a Coreia do Norte, Qatar e os atentados terroristas no Irã com o assessor de segurança nacional, H.R. McMaster, o secretário de Estado, Rex Tillerson, e Mattis.

A ideia era manter Trump ocupado, equilibrado e distante do Twitter.

Segundo duas pessoas de sua órbita, Trump estava preocupado, estranhamente impassível, mas em geral num estado de espírito adequado. A maioria de seus assessores evitou calculadamente falar no assunto da audiência, sob instrução de Kasowitz, que está tentando fechar o círculo da tomada de decisões sobre a questão e conter uma onda de vazamentos.

Os assessores de Trump também estavam agudamente cientes de comportar-se com leveza, para evitar agitar o presidente, que esteve em um clima azedo e combativo a semana toda, segundo duas pessoas próximas a ele.

O presidente estava estranhamente disciplinado, e partiu para seu discurso no evento da Coalizão Fé e Liberdade exatamente às 12h, enquanto a audiência de Comey ainda duraria 30 minutos. Trump saiu depressa do Salão Oval, sem a menor expressão de interesse por ficar.

Os assessores da Casa Branca ficaram felizes com o modo como os senadores republicanos se comportaram na audiência, em geral evitando falar sobre o presidente. Trump, que é dado a murmurar enquanto assiste à televisão, disse pelo menos uma vez que estava certo sobre a investigação dos e-mails de Hillary Clinton --Comey disse que ficou desconfortável quando Lynch lhe pediu para se referir ao inquérito criminal como uma "questão"-- assim como que Comey fazia autopromoção.

Seus principais assessores, especialmente seu estrategista-chefe, Stephen Bannon, temiam que o presidente desafiasse Kasowitz e fosse ao Twitter para manifestar suas ideias sobre Comey, que ele acredita estar em uma missão pessoal para destruir sua Presidência. Membros da equipe da Ala Oeste expressaram alívio quando a conta do presidente no Twitter ficou silenciosa mesmo depois que Comey o acusou de dizer "mentiras, pura e simplesmente", em um esforço para manchar sua reputação e a do FBI.

Mas eles temem que o alívio não dure muito. Assessores preparavam-se para algum tipo de irrupção no Twitter na noite de quinta ou início de sexta-feira (16). Eles esperavam que o presidente assistisse à audiência completa mais tarde na internet ou, potencialmente pior, simplesmente visse a cobertura da Fox News ou da CNN, onde os comentários mais danosos de Comey passavam em sequência.

O clima na Ala Oeste, que assumiu um tom cada vez mais apreensivo conforme a investigação da Rússia se intensificava, esteve especialmente tenso na quinta-feira enquanto Comey falava, apesar da afirmação de uma porta-voz de Trump, Sarah Huckabee Sanders, em um comunicado verbal durante o dia, de que "é uma quinta-feira normal na Casa Branca".

Membros do pessoal se reuniram ao redor de TVs e piscavam diante dos comentários de Comey, mas mudaram imediatamente quando este, para sua surpresa, revelou que havia enviado um memorando a "The New York Times" por um intermediário para sugerir a nomeação de um advogado especial.

A equipe de Trump ficou igualmente surpresa, e entusiasmada, quando Comey questionou os atos de Lynch na investigação do uso por Hillary Clinton de um servidor de e-mail privado. Lynch lhe pediu para proteger Clinton, uma colega democrata, sugeriu Comey.

Mas os picos de açúcar dos primeiros dias de Trump no cargo diminuíram, e não houve toques de mãos espalmadas ou expressões de alívio. Membros da equipe, especialmente no agitado escritório de imprensa da Casa Branca, ficaram desconfiados de que vazadores pudessem transmitir seus comentários a repórteres, e Kasowitz se reuniu com muitos membros graduados da equipe para os aconselhar a não falar sobre questões que o presidente enfrenta, mesmo relativamente inócuas. Ele disse a um assessor: "Deixe tudo comigo".

Muitos assessores de Trump, por sua vez, estavam menos que impressionados pelo desempenho público de Kasowitz, um advogado de Nova York que conquistou o respeito do presidente e, por enquanto, sua obediência situacional. Uma declaração inicial à imprensa redigida às pressas continha "gatos" --"presidente" foi mal grafado--, e ele a fez em tom monótono e preocupado, olhando para o texto, aos repórteres reunidos no Clube Nacional de Imprensa.

Gradualmente, porém, as preocupações de um ciclo de notícias normal estão dando lugar a temores mais duradouros sobre o rumo da investigação, e vários assessores da Ala Oeste manifestaram ansiedade sobre ser apanhados desprevenidos por novas revelações.

Vários assessores atuais e antigos de Trump disseram estar especialmente preocupados com a afirmação não qualificada de Kasowitz de que o presidente "nunca disse a Comey 'Eu preciso de lealdade, eu espero lealdade'", como afirmou Comey na quinta-feira.

"Não acredito que eles estejam preocupados com a opinião pública em um dia como este, quando Comey colocou para eles tantas armadilhas de perjúrio", disse Jennifer Palmieri, uma auxiliar democrata veterana que serviu como diretora de comunicações de Hillary durante a campanha em 2016.

"As comunicações e os ciclos de notícias não importam --eles não sabem o que vai atingi-los", acrescentou Palmieri, que serviu na Casa Branca durante o impeachment do presidente Bill Clinton. "Eles ainda estão dizendo ao presidente o que ele quer ouvir, e isso é extraordinariamente perigoso."

Entenda o envolvimento da Rússia na política americana

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos