Cidade chinesa luta contra plano do governo de demolir construções históricas russas

Kiki Zhao

Em Harbin (China)

  • HARBIN/NYT

    Igreja Ortodoxa russa de 1908, cercada de construções que serão uma estação ferroviária, em Harbin

    Igreja Ortodoxa russa de 1908, cercada de construções que serão uma estação ferroviária, em Harbin

Quando ele chegou pela primeira vez à cidade chinesa de Harbin, no nordeste do país, em 1984, para cursar a universidade, Bu Chong ficou impressionado ao ver no campus um prédio imponente, ao estilo europeu, com colunas altas, portas com arcos e relevos elaborados. "Sou do interior", ele disse, "e nunca tinha visto nada como aquilo".

Para Gao Hong, uma empresária local, essas estruturas não são uma surpresa. São elementos normais da Harbin que ela conheceu na infância, uma cidade construída no final do século 19 como um posto avançado da Rússia imperial no Extremo Oriente, uma base para a Ferrovia da China Oriental naquela que antes era conhecida como Manchúria.

Mas os dois testemunharam algo em comum: a antiga arquitetura sendo demolida para dar espaço a ampliação de ruas e blocos de edifícios idênticos.

"Pelo menos um terço dos velhos prédios desapareceu", lamentou Gao. "A cidade mudou e está irreconhecível."

Perturbados com a destruição e empoderados pelas redes sociais, Bu, Gao e outros moradores locais se uniram para preservar o que restou da arquitetura russa de Harbin, mesmo que maltratada por ondas de guerra, revolução e, agora, redesenvolvimento urbano.

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Catedral de Santa Sophia, que foi preservada como museu, em Harbin, na China


Uma das causas atuais deles é a Ponte Jihong, construída nos anos 1920 por engenheiros russos e classificada em 2013 como patrimônio cultural pela Administração Estatal do Patrimônio Histórico, o que significa que quaisquer mudanças precisam ser autorizadas pelo governo central.

No ano passado, quando a prefeitura de Harbin decidiu que a ponte deveria ser removida para abrir espaço para uma linha de trem de alta velocidade, a decisão enfrentou forte resistência da população local. Centenas assinaram petições e milhares escreveram comentários online exigindo que o governo abandonasse o plano. Alguns penduraram faixas de protesto na ponte.

Bu, atualmente professor de arquitetura na escola na qual se formou, o Instituto de Tecnologia de Harbin, escreveu uma carta em meados do ano passado, assinada por muitos professores e alunos, pedindo à prefeitura que preservasse a ponte.

"Dificilmente há alguém em Harbin que desconheça a Ponte Jihong", disse Gao durante um almoço no Lucia, um restaurante russo. "Logo, há uma imensa reação contrária porque as pessoas têm sentimentos incrivelmente profundos a respeito."

A Administração Estatal do Patrimônio Histórico também interveio, rejeitando o plano inicial da prefeitura de Harbin de desmontar a ponte e transferi-la para outro local.

"Nossa posição foi firme", disse Song Xinchao, o vice-diretor da órgão. "A importância da ponte é esta: ela faz parte da memória comum de Harbin e de sua população."

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Mulher circula em viela de região onde os moradores estão sendo realocados de suas casas devido ao projeto de renovação da cidade


De acordo com o plano que acabou sendo aprovado, a ponte será mantida em seu local original, mas sobre um vão mais longo e mais alto para acomodar a nova linha ferroviária.

Essa não foi a primeira vez que Gao enfrentou a possível destruição de um marco da cidade. Em 2014, ela começou a pesquisar e escrever sobre as estruturas mais antigas remanescentes no WeChat, uma plataforma de mensagens. Um prédio de três andares, atualmente uma joalheria, costumava abrigar o consulado americano. Outro, lar de um empresário russo, foi tomado por soldados japoneses nos anos 30, que transformaram seu porão em uma prisão.

Isso acabou se transformando em um blog chamado "Descobrindo os Mistérios de Harbin", com histórias sobre mais de 60 locais. Um grupo de discussão online se formou. Ele agora conta com cerca de 100 membros, muitos deles artistas, acadêmicos e arquitetos locais que às vezes se encontram para estudar que ações podem adotar para preservação da arquitetura e cultura distintas de Harbin.

Um de seus locais de encontro é o restaurante Lucia, cujo proprietário, Hu Hong, um arquiteto nascido de mãe russa e pai chinês, é um membro ativo do círculo dos preservacionistas. A rua onde Hu cresceu antes era margeada de casarões. Mas a partir dos anos 80, com a introdução da economia de mercado e a especulação imobiliária, ele disse, "a demolição teve início.

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Construção do começo do século XX vai ser demolida para dar lugar a novas estruturas que imitam um estilo antigo chinês


"Com a reforma econômica e a abertura, a construção teve início em uma escala imensa", disse Hu, sentado em seu restaurante, ele próprio autor do teto de madeira e painéis na parede, uma habilidade que ele aprendeu quando foi enviado para o interior na adolescência, nos anos 70. "Eles disseram que precisávamos construir mais apartamentos, porque não tínhamos moradias suficientes, mas a qualidade desses novos apartamentos é muito vagabunda."

Harbin difere de qualquer outra cidade chinesa. Em 1898, engenheiros russos e operários tanto da Rússia quanto da China vieram para construir a Ferrovia da China Oriental. Em seguida chegaram os judeus russos que fugiam dos pogroms, e depois os aristocratas expulsos pela Revolução Bolchevique e as tropas da Guarda Branca russa, buscando refúgio após a derrota na guerra civil.

Nos anos 20, mais de 100 mil russos tinham se estabelecido em Harbin, juntamente com mais milhares representando ao menos 50 nacionalidades. A cidade se transformou em um grande centro econômico, com amplos bulevares, igrejas ortodoxas com domos em forma de cebola, casarões, lojas de departamento e hotéis. Os novos moradores criaram hospitais, bancos, teatros e cinemas, publicavam jornais e fundaram trupes de balé e orquestras.

Os chineses também foram atraídos para Harbin, primeiro para ajudar na construção da ferrovia e posteriormente para negócios. Alguns montaram lojas e fábricas, tornando-se empresários bem-sucedidos. Copiando o estilo dos projetos de seus vizinhos estrangeiros, muitos construíram casas de pedra com exteriores europeus e pátios internos ao estilo chinês, um estilo que a população local costuma chamar de "barroco chinês".

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Bairro residencial recém-construído em Harbin, na China


A primeira grande alteração de Harbin ocorreu logo após a chegada dos comunistas ao poder.

Quando Mao Tsé-tung visitou Harbin em 1950, ele declarou que ela deveria ser transformada de uma cidade baseada no consumo para uma dominada pela produção. O governo central transformou Harbin em uma base industrial e construiu grandes fábricas e blocos de apartamento ao estilo soviético. Então, durante a Revolução Cultural nos anos 60, cerca de 80% das cerca de 50 sinagogas e igrejas da cidade foram demolidas pela Guarda Vermelha, incluindo a grande catedral ortodoxa de madeira, São Nicolau, construída em 1900.

Apenas nos últimos anos é que o governo local, finalmente percebendo que a arquitetura singular da cidade poderia atrair turistas, começou a reformar alguns dos prédios antigos sobreviventes. Agora a cidade se orgulha da Catedral de Santa Sofia, que foi preservada como museu, e os prédios russos ao longo do Bulevar Central. Uma sinagoga foi transformada em sala de concerto e outra em um museu judaico.

Mas para os preservacionistas locais, esses esforços vieram tarde demais e, em alguns casos, são impróprios.

No bairro Lao Daowai, a prefeitura despejou os moradores locais, demoliu as casas antigas, as substituiu por novos prédios imitando o estilo antigo e alugou as estruturas para empreendimentos comerciais.

O projeto, que conta com semelhantes em muitas outras cidades chinesas que construíram novas "cidades antigas", foi recebido com desprezo pelos preservacionistas locais, que disseram ser absurdo o governo demolir arquitetura antiga autêntica para construção de imitações. "É um fracasso, porque é falso", disse Hu.

O despejo dos velhos moradores, e com eles os restaurantes populares e lojas que dirigiam, destruiu o caráter do bairro, eles disseram.

"As pessoas partiram e lojas se foram", disse Yin Haijie, uma professora de sociologia do Instituto de Tecnologia de Harbin. "A preservação cultural não significa nada para os empreendedores imobiliários e para o governo. Nada é considerado, exceto os interesses econômicos."

Yin disse que a cidade carecia de bons canais para os acadêmicos e preservacionistas locais se comunicarem com o governo. "Estamos realmente em desvantagem. O governo é forte e a sociedade é fraca", ela disse.

Em uma tarde recente, os trabalhadores estavam perfurando os passeios de concreto da Ponte Jihong. Os quatro obeliscos da ponte e as cabeças de leão entalhadas que montaram guarda por quase um século reluziam ao sol.

"Nós tentamos", disse Gao. "No final, podemos estar impotentes, mas continuamos nos esforçando."

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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