Povoados italianos lutam contra deslizamentos com restauração de terraços

Gaia Pianigiani

Em Vernazza (Itália)

  • GIANNI CIPRIANO/NYT

    Manarola, uma das cinco aldeias que compõem o famoso Cinque Terre, na Itália

    Manarola, uma das cinco aldeias que compõem o famoso Cinque Terre, na Itália

Os adolescentes ofegavam enquanto escalavam a íngreme ladeira no início da manhã, com o Sol mediterrâneo reluzindo no mar abaixo. Durante o percurso, eles paravam para mapear os muros de pedra que acompanham as estradas sinuosas, tirando medidas cuidadosamente.

"Quando você reconstrói um muro, você escava entre os cascalhos até encontrar as pedras fundamentais originais e começa a partir dali", instruía a guia deles, Margherita Ermirio. "Sem guindastes ou cimento, tudo bem?", ela disse brincando, provocando risos.

Depois de vários anos passados no exterior, Ermirio, 32, voltou para sua cidade natal, Vernazza, um dos cinco povoados que formam Cinque Terre, o deslumbrante e vertical aglomerado de casas que desafiam a gravidade, agarradas nas falésias da costa noroeste da Itália.

Desde então ela se tornou o pilar de uma batalha local para restaurar e preservar uma arte antiga e essencial, mas que se encontra em vias de extinção em boa parte da Itália: a construção em terraços.

GIANNI CIPRIANO/NYT
Alunos andam em terraços na região ao redor de Vernazza, na Itália

Os muros de pedra que ela está ensinando os jovens a construir fazem mais do que formar a pitoresca paisagem que tornou Cinque Terre famosa.

Os lotes de diferentes tamanhos —angulados para se encaixar harmoniosamente, posicionados para acariciar com cuidado os contornos das encostas e ladeados por muros de pedra— evitam que esse lugar ímpar e improvável de se morar deslize para o mar.

A missão diária de Ermirio, como parte de um programa para jovens patrocinado pela Unesco, não é somente ajudar a restaurar esses muros, mas também consolidar a conexão dessa geração mais jovem com sua terra, e ensiná-los por que os muros são cruciais para sua vida aqui.

Cinque Terre, nas falésias a noroeste de La Spezia, é famosa por suas vistas de cartão postal das casas de pescadores em tons pastel e dos barcos de madeira azuis e brancos ancorados em mini-portos.

Mas foram os terraços em torno das encostas verdes bem acima das águas azuis que durante séculos permitiram o cultivo da terra, com vinhedos e pomares de macieiras e limoeiros.

Os muros de pedra permeável que cercam esses terrenos, com seus séculos de existência, são vitais para a sobrevivência de Cinque Terre. Eles absorvem a água das chuvas fortes, ao mesmo tempo em que permitem que o escoamento flua suavemente para baixo, evitando a erosão da terra.

GIANNI CIPRIANO/NYT
Alunos fazem visita com a guia de viagem Margherita Ermirio em Vernazza, na Itália

No entanto, desde os anos 1960 muitos dos agricultores que antes trabalhavam na lavoura abandonaram seus terrenos íngremes e se mudaram para as cidades, em busca de empregos mais bem pagos na indústria. Os antigos muros em sua maior parte também foram abandonados, o que os deixou em um perigoso estado de deterioração.

Hoje, 8% da região inteira da Ligúria, onde Cinque Terra está situada, está construída em terraços. Cerca de metade dessa área foi abandonada.

Devido à peculiar forma de bota de sua península, ao seu litoral recortado e à sua variedade de serras, acredita-se que a Itália seja a região com mais terraços na Europa, com mais de 1.600 km de muros de pedra, ou seja, 20 vezes o comprimento da Grande Muralha da China.

Ligúria, uma região estreita em formato de meia-lua que faz fronteira com a França, tem a mais alta concentração, e seus terraços estão em más condições, deixando os vilarejos cada vez mais vulneráveis a deslizamentos de terra durante chuvas fortes. Em Vernazza, quase metade de seus terraços estão em ruínas.

"Durante a enchente, os muros de pedra desceram até a praia, misturados com lama e água. A lama chegou até o primeiro andar aqui", disse Ermirio, enquanto mostrava o local e relembrava a infame enchente de 2011, quando toneladas de lama invadiram a estrada principal do vilarejo, lojas e casas, isolando a área e ceifando três vidas.

Desde então, Ermirio fez um acordo com os diversos proprietários para assumir e consertar centenas de terrenos abandonados para evitar deslizamentos de terra, mas também para mostrar aos mais jovens que a agricultura ainda é possível em Cinque Terre.

"Nós sempre precisamos reconstruir muros de pedras aqui, e sempre precisaremos", disse Vittorio Ermirio, um ex-campeão de natação e pai de Margherita, falando para os estudantes nos vinhedos, onde ele fabrica vinho branco ligúrio para seu próprio consumo.

"Mas isso exige tanto esforço", disse Francesco Bertoneri, um estudante de 16 anos de elegantes óculos escuros. Ele ofegava ao final de sua escalada em uma trilha com vinhedos de um lado e um abismo do outro.

"Esta é nossa terra", respondeu Vittorio Ermirio, com um largo sorriso.

Bertoneri e sua turma estão estudando a construção em terraços de Cinque Terre a partir de uma perspectiva histórica, fazendo comparações entre mapas do século 18 e imagens recentes do Google Earth.

A partir das medidas tiradas durante a viagem de campo com Margherita Ermirio, os alunos farão uma orografia tridimensional da área.

GIANNI CIPRIANOqNYT
Anselmo Crovara em seu escritóro em Manarola, na Itália

O trabalho dela foi feito em parceria com várias instituições locais e globais, inclusive o Liceo Scientifico Antonio Pacinotti, a escola de ensino médio na cidade vizinha de La Spezia onde os alunos estudam, bem como o projeto de voluntariado internacional SocialErasmus.

"É importante trazer conscientização em qualquer nível", disse Mauro Varotto, um geógrafo da Universidade de Pádua e cofundador do braço italiano da International Terraced Landscapes Alliance (aliança internacional das paisagens em terraços).

"Atualmente, é um esforço vindo a partir de baixo, feito por cidadãos. Espero que um dia tenhamos escolas para construção com pedras assim na França", ele disse.

Na Itália, somente ao pé dos Alpes, na região de Trentino, as autoridades criaram recentemente uma escola pública para construção com pedras. Até o momento, ela certificou 15 artesãos locais.

Outras áreas, na falta de uma formação didática adequada, foram salvas pela criatividade italiana.

Ao longo do Rio Brenta, na região do Vêneto, ao nordeste, residentes locais puderam "adotar" um lote, em troca da promessa de limpá-lo e fazer sua manutenção.

Em algumas áreas, inclusive as Cinque Terre, alguns migrantes estão sendo treinados para limpar os muros de pedra.

"Os muros de pedra costumavam ser a única forma de se cultivar em certos territórios, e agora estamos redescobrindo-os para tornar nossa paisagem mais fiel ao que era antes, para atrair turistas", disse Iva Berardi, uma das criadoras da escola e diretora da Trentino Mountain Academy.

"Nossa meta é disseminar o conhecimento", ela acrescentou, "e fazemos isso ensinando algo que antes era passado de pai para filho".

Ermirio teve de lutar para adquirir esse conhecimento para si mesma. Seu pai era levado colina acima para construir muros de pedra quando ele era pequeno, mas quando chegou a vez da filha a tradição desapareceu.

Em Cinque Terre, Anselmo Crovara, 82, se fez o guardião da história da região.

GIANNI CIPRIANO/NYT
Fotografias mostram os danos causados por uma tempestade em 2011 em Vernazza, na Itália

Em seu sótão, ele guarda o que é conhecido localmente como o Arquivo da Memória—uma coleção de itens antigos do cotidiano ligúrio tradicional—lamparinas portáteis, máquinas de costura do século 19, ferraduras, ganchos usados para fazer muros.

"Eu guardo coisas para preservar esse conhecimento", ele disse quando lhe perguntei por que ele havia começado essa coleção.

Crovara nasceu no apartamento de cobertura de sua família com vista para o mar e os telhados de um dos famosos vilarejos de Cinque Terre, Manarola, e pretende morrer lá.

Ele aprendeu a construir muros de pedra quando era pequeno com sua mãe, que era uma das poucas mulheres que haviam dominado essa arte.

Até onde ele consegue se lembrar, a paisagem de vinhedos verdejantes que seguem a curva da íngreme encosta nunca foi alterada, segundo ele.

Em uma das fotos de Crovara, tirada em 1942, vinhedos em preto e branco acompanham as ladeiras escarpadas que terminam na água.

"Sabe, uma pedra é um monumento", disse Crovara. "É um patrimônio aqui".

Tradutor: UOL

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos