Guerra antidrogas de Duterte deixa população em ritmo de fuga

Aurora Almendral

Em Manila (Filipinas)

  • Ted Aljibe/AFP

    Agente antidrogas (dir) das Filipinas leva suspeitos durante busca em favela em Manila

    Agente antidrogas (dir) das Filipinas leva suspeitos durante busca em favela em Manila

Toda manhã antes do amanhecer, Rosario Perez checa se seus filhos ainda estão vivos. Os três irmãos, todos na faixa dos 20 anos, dormem nas casas de amigos e parentes, mudando-se constantemente, na esperança de quem quer tenha sido designado para matá-los não os encontre.

Eles não são testemunhas em uma lista de alvos do crime organizado, ou membros de gangue se escondendo de rivais. São apenas jovens vivendo nas Filipinas do presidente Rodrigo Duterte.

"Como não poderia mandá-los se esconderem?" disse Perez, 47, após dar uma espiada em dois de seus filhos e telefonar para o terceiro. "Mal conseguimos dormir de medo."

Passado quase um ano da violenta campanha antidrogas de Duterte, na qual mais de 4.000 pessoas acusadas de usar ou vender drogas ilegais foram mortas e milhares de outras mortes estão classificadas como "sob investigação", medo e desconfiança tomaram conta de muitos bairros de Manila e outras cidades.

Os moradores estão elaborando estratégias para se esconder e sobreviver. Muitos homens jovens não saem às ruas, permanecendo fora de vista. Outros fugiram das favelas urbanas, onde a maioria das mortes ocorre, e estão acampando em fazendas ou permanecendo discretos em vilarejos no interior.

A Igreja Católica Romana se opõe vigorosamente à campanha mortal de Duterte, e uma rede clandestina de igrejas e abrigos está oferecendo refúgio, discretamente, para evitar a atenção dos vigilantes responsáveis por grande parte das mortes.

Nas favelas mais visadas, vizinhos temem conversar uns com os outros, sem saber quem entre eles são informantes da polícia. A maioria tenta não se envolver quando sabe que alguém está em apuros, não querendo ser culpada caso a pessoa acabe morta. Um homem que disse que simplesmente conversar com a pessoa errada pode ser fatal.

"O que estamos vendo aqui é o Estado de Direito sendo substituído por um sistema de medo e violência", disse Jose Manuel Diokno, um advogado de direitos humanos em Manila.

Segundo um recente levantamento pela Social Weather Stations, uma empresa de pesquisa local, 73% dos filipinos estão "muito preocupados" ou "um pouco preocupados" de que eles ou alguém que conheçam sejam mortos na campanha antidrogas.

Aqueles que se esconderam costumam ser pessoas que acham que seus nomes estão nas listas de vigilância do governo de usuários de drogas. As listas são compiladas por autoridades locais, que usam informação fornecida pela polícia ou por informantes e inclui pessoas que se entregaram às autoridades. Elas não são públicas e não está claro como algumas delas são marcadas para morrer.

Muitos nas listas são antigos e atuais usuários de "shabu", o nome local da metanfetamina no centro da campanha antidrogas de Duterte. Muitos outros não são.

Perez, por exemplo, diz que dois de seus filhos nunca usaram drogas, mas que o terceiro já usou. Ele se entregou à polícia, na esperança de que seria poupado, e ela exigiu que todos eles fizessem exames de drogas e compartilhou os resultados com as autoridades do bairro.

Mesmo assim, foi dito a ela que os nomes de todos os três estão na lista de vigilância, e uma foto da casa dela circulou com a lista. "Com um nome e uma foto, eles vão matar você", ela disse.

As ameaças de mortes costumam ser repassadas em alertas cochichados entre vizinhos, mensagens de texto anônimas ou bilhetes manuscritos.

A maioria das pessoas que se esconde da polícia ou dos vigilantes reluta em falar, porque costuma ter medo de revelar sua localização e ser morta. Mas várias dezenas de pessoas falaram ao "New York Times" sobre sua vida em fuga, ou as de seus vizinhos ou entes queridos, sob a condição de anonimato.

Um jovem que foi pego pela polícia, espancado e depois solto após um mês e meio de detenção, disse que se mudou para a casa de sua avó em um distrito diferente de Manila, para se esconder.

Quando voltou para visitar seu bairro, um de seus amigos lhe disse que gangues de vigilantes estavam à procura dele. Foi um alerta que ele levou a sério. Um de seus amigos já tinha sido morto.

"Eu fiquei com medo", ele disse, acrescentando que tem dificuldade para dormir à noite. "Achei que iam me matar."

Bullit Marquez/AP
Manifestantes encenam mortes nas operações anti-drogas durante protesto próximo ao Palácio Presidencial, em Manila, nas Filipinas


A mãe dele teme que caso ele permaneça em Manila, ele acabará sendo baleado, de modo que fez com ele se mudasse de novo, para um vilarejo rural de cabanas de bambu, estradas de terra e bananeiras no norte das Filipinas. Ele envia mensagens de texto aos amigos, mas lhes diz que está em uma parte diferente do país, por precaução.

A mãe dele disse que votou em Duterte, mas quem dera pudesse voltar atrás.

Os membros do clero que fornecem refúgio, parte de uma coalizão chamada Erga-se, operam em segredo, temendo que a proteção da igreja não seja suficiente para impedir que os justiceiros venham atrás deles.

"Os mais vulneráveis são sempre um alvo fácil, mesmo se estiverem sob nossa proteção", disse Juan Santiago, um irmão leigo da Congregação do Santíssimo Redentor e membro da Erga-se. "Não sabemos quem são os matadores."

Em uma noite recente, em um convento na periferia de Manila, um adolescente que foi a única testemunha sobrevivente de um massacre que resultou em sete mortos dormia em uma cama estreita na laje de cobertura, sob um varal e uma lona plástica puída.

Um padre, o reverendo Gilbert Ballena, disse que o garoto estava escondido no convento havia quatro meses, usando um nome falso, se mantendo ocupado pintando pequenas telas do menino Jesus e da Virgem Maria e moendo açafrão, que a Erga-se vende para obter um dinheiro extra.

O adolescente envia mensagens de texto para a namorada, mas tem medo de ir vê-la ou sua família. Para sua segurança e para uma mudança de cenário, ele se mudou recentemente para uma igreja diferente, onde mudou de novo seu nome.

Em outra igreja em Manila, a maioria das pessoas que busca refúgio passa algumas poucas noites em colchonetes sobressalentes antes de se mudarem para abrigos ou terem ajuda para partir de Manila, disseram funcionários.

Essa igreja já abrigou mais de 30 pessoas até o momento, eles disseram: pessoas sob ameaça imediata, testemunhas da morte de um familiar e outras que prestaram queixa contra a polícia.

Santiago disse que recebeu ameaças de morte por seu trabalho com os sobreviventes: "Isso não será motivo para nos silenciar", ele disse. "É nossa missão ajudar os necessitados."

Outra pessoa que acredita estar na lista de morte é um homem jovem magro com tatuagens rudimentares em ambos os braços. Ele disse que usava drogas e que se entregou à polícia em novembro.

De lá para cá, ele disse, ele vive com medo de que vão matá-lo. Sempre que a polícia ou homens usando balaclavas andam pelo bairro, ele sobe em uma árvore e se esconde nos galhos, até irem embora.

Ele não disse se ainda usa drogas. Mas independente de deixar de usá-las ou não, ele disse, "ainda assim vão matar você".

Na casa de blocos de concreto e um único quarto que divide com seu marido e duas netas, Perez acompanha o noticiário com o som da televisão desligado. Outra morte: os membros magros de um homem jovem caindo para fora de um saco de corpos, uma mulher escorada contra um veículo, chorando histericamente.

Os olhos dela se enchem de lágrimas e sua voz sai trêmula. "É isso que não quero que aconteça aos meus filhos", ela diz.
 

 

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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