Influente na Casa Branca, advogado pessoal de Trump borra limites entre público e privado

Rebecca R. Ruiz e Sharon LaFraniere

Em Washington (EUA)

  • JUSTIN T. GELLERSON/NYT

    Marc Kasowitz, advogado pessoal de Donald Trump, no Clube da Imprensa Nacional, onde ele falou em defesa de Trump após o depoimento do ex-diretor do FBI, James Comey

    Marc Kasowitz, advogado pessoal de Donald Trump, no Clube da Imprensa Nacional, onde ele falou em defesa de Trump após o depoimento do ex-diretor do FBI, James Comey

Uma nova figura tem se destacado na Ala Oeste ultimamente, um homem com cabelo branco penteado para trás, óculos sem aros empoleirados no nariz, um lenço branco cuidadosamente arrumado no bolso de seu terno, assim como gosto por pugilismo legal e um papel incerto em um prédio confrontado por uma série de ameaças políticas e legais.


Marc E. Kasowitz, um especialista em litígio de Nova York que representou Donald Trump por 15 anos em seus negócios e se gaba de ser chamado de o advogado mais durão de Wall Street, de repente se transformou em marechal de campo de uma Casa Branca sitiada. Ele é o advogado pessoal do presidente, não um funcionário do governo, mas tem falado em montar um escritório no complexo da Casa Branca de onde possa conduzir sua defesa legal.

As visitas dele à Casa Branca levantam questões sobre a separação entre os interesses públicos e privados de um presidente que enfrenta problemas legais. Kasowitz orientou nos últimos dias assessores da Casa Branca a discutirem o mínimo possível a interferência da Rússia na eleição do ano passado, disseram duas pessoas envolvidas. Ele disse a assessores em uma reunião, que perguntaram se não era hora de contratarem advogados particulares, que ainda não era necessário, segundo outra pessoa com conhecimento direto.

Essas conversas entre um advogado particular do presidente e funcionários do governo que trabalham para seu cliente são altamente incomuns, segundo veteranos de Casas Brancas anteriores. Kasowitz contornou o Escritório de Advocacia da Casa Branca na realização dessas discussões, segundo uma pessoa familiarizada com elas, que assim como outras pediu anonimato para discussão de assuntos internos. E preocupações com o papel de Kasowitz levaram pelo menos dois advogados proeminentes de Washington a recusarem ofertas para se juntarem à equipe da Casa Branca.

"O advogado particular do presidente está representando apenas os interesses deste, não os interesses do governo dos Estados Unidos ou os interesses pessoais dos funcionários da Casa Branca", disse Robert F. Bauer, que foi advogado-geral da Casa Branca sob o presidente Barack Obama.

O governo encaminhou perguntas a Kasowitz. Um porta-voz de Kasowitz chamou as caracterizações de suas conversas com os funcionários do governo de "incorretas", mas não quis especificar como. "Advogados não revelam as conversas que tiveram com alguém", escreveu o porta-voz, Mark Corallo, por e-mail. "É claro que as pessoas são livres para contratar um advogado ou conversarem com quem quiserem."

Kasowitz não é o primeiro advogado particular a representar um presidente que enfrenta questões legais. O presidente Bill Clinton manteve Robert S. Bennett para defendê-lo no processo de abuso sexual impetrado por Paula Jones, e David E. Kendall e Nicole K. Seligman para representá-lo nos casos Whitewater e Monica S. Lewinsky.

A linha que separa advogados do governo que representam este e advogados particulares que representam o presidente sempre foi um tanto vaga. Mas uma diferença importante era de que as conversas do presidente com advogados particulares são protegidas pelo sigilo profissional entre cliente e advogado, enquanto as conversas do presidente com os advogados da Casa Branca não.

Para muitas pessoas em Washington, Kasowitz, 64 anos, que representou Trump durante seus apuros financeiros com os cassinos em Atlantic City e representa outros clientes como Bill O'Reilly, o apresentador da Fox News, parece uma escolha incomum para a missão. Apesar de amplamente respeitado como um advogado feroz e bem-sucedido, ele tem pouca experiência em casos criminais importantes ou em investigações politicamente carregadas em Washington.

Kasowitz tem sido uma figura central nas recentes disputas legais de Trump, ajudando seu cliente a manter seus documentos de divórcio selados e o representando no processo de fraude envolvendo a Universidade Trump, no qual Trump concordou em pagar US$ 25 milhões em um acordo com ex-alunos que alegavam terem sido trapaceados pela instituição.

Nas últimas semanas da campanha presidencial, Kasowitz ameaçou processar o "New York Times" por difamação pela história na qual duas mulheres acusaram Trump de apalpá-las de forma imprópria anos antes. Mas o processo não foi impetrado. Uma década antes, entretanto, Kasowitz cumpriu uma ameaça semelhante, processando Timothy O'Brien, um biógrafo de Trump e ex-repórter e editor do "Times", por difamação e pela alegação de ter subestimando o patrimônio líquido de seu cliente. Esse processo foi rejeitado por um juiz da Suprema Corte de Nova Jersey.

Também causa surpresa outros dois clientes de Kasowitz: o Sberbank, o maior banco estatal da Rússia ao qual foram impostas sanções pelo governo Obama, e Oleg Deripaska, o magnata russo ligado ao presidente Vladimir Putin e que tem negócios com Paul Manafort, que foi diretor de campanha de Trump.

Apesar de Trump, pelo que se sabe, não estar sob investigação por conluio potencial com a Rússia, o investigar especial responsável pelo caso, Robert S. Mueller III, tem autoridade para investigar obstrução da Justiça. Algumas pessoas no Congresso disseram que a demissão por Trump do diretor do FBI (Birô Federal de Investigação, a polícia federal americana), James Comey, somada a suas próprias declarações sobre Comey, pode ser vista como evidência de tentativa de obstrução da Justiça.

Não se sabe se Kasowitz tem algum efeito sobre seu cliente. Ele já aconselhou Trump a reduzir o uso do Twitter e, quando a conta de Trump permaneceu em silêncio por quase 48 horas na semana passada, durante a audiência de Comey no Senado, alguns especularam que Kasowitz tinha sido o responsável. Mas Trump começou a atacar o depoimento de Comey na manhã de sexta-feira, e disse desafiadoramente a amigos que apesar das instruções de seu advogado, ele não mudou seu comportamento.

Quanto às conversas de Kasowitz com assessores do presidente, o Escritório de Advocacia da Casa Branca costuma supervisionar essas discussões, para assegurar que entendam seus direitos e não se sintam pressionados a ajudar um advogado que não representa seus interesses, disseram especialistas. O envolvimento da advocacia da Casa Branca é ainda mais crítico neste caso, eles disseram, porque muitos dos assessores, testemunhas potenciais na investigação do governo, ainda não têm advogados pessoais.

As orientações de Kasowitz aos funcionários do governo podem beneficiar o presidente mais que seus assessores, disseram especialistas. As conversas de Kasowitz com os assessores podem moldar o depoimento antes que Mueller tenha chance de entrevistá-los, caso sejam chamados como testemunhas.

Bauer disse que o atual advogado-geral da Casa Branca, Donald F. McGahn II, deveria ter conhecimento das conversas de Kasowitz para que possa informar o investigador especial. "Ele não vai querer que Kasowitz faça algo que possa ser interpretado como um ato de obstrução, formas de dissuadir as testemunhas a cooperarem com a investigação", disse Bauer.

Desde que passou a exercer influência na Casa Branca nas últimas semanas, Kasowitz discutiu a montagem de um escritório no Edifício Eisenhower da Casa Branca, onde trabalha grande parte da equipe do presidente, segundo múltiplas pessoas familiarizadas com as deliberações. Esse arranjo permitiria a Kasowitz e sua equipe cruzar caminho com frequência com testemunhas potenciais.

Corallo, o porta-voz de Kasowitz, disse que a equipe está trabalhando em um espaço particular. "Os advogados não têm um escritório no Edifício Eisenhower e estão trabalhando em seus escritórios na capital", ele disse. "Eles vão à Casa Branca para se encontrar com o cliente deles, o presidente Trump."

Em parte devido às preocupações de que Kasowitz esteja minando o Escritório de Advocacia da Casa Branca, pelo menos dois advogados veteranos de Washington, Emmet Flood, um sócio da Williams & Connolly, e William A. Burck, um sócio da Quinn Emanuel, rejeitaram ofertas de se juntarem à advocacia da Casa Branca para ajudar a representar o governo na investigação envolvendo a Rússia, segundo pessoas familiarizadas com as discussões de contratação, apesar de poderem vir a representar funcionários individuais da Casa Branca.

Outros notaram que advogados criminais rejeitaram igualmente ofertas de se juntarem à equipe legal particular de Trump devido a uma série de incertezas, incluindo quanto controle Kasowitz exerce sobre seu cliente, se a orientação deles seria secundária à dele e se Trump pagaria as despesas legais. Além de Kasowitz, a equipe legal pessoal de Trump inclui seu sócio, Michael J. Bowe, e Jay Sekulow, um advogado de Washington especializado em liberdade de expressão e liberdades religiosas.

"Kasowitz está à procura de pelo menos um especialista criminal, mas o problema é que Trump é um cliente difícil, famoso por não seguir as orientações legais e por não pagar suas contas", disse Norman Eisen, o advogado de ética da Casa Branca sob Obama e um frequente crítico de Trump.

Governos anteriores tentaram coordenar as atividades de advogados particulares antes de permitirem a interação deles com assessores. Jane Sherburne, uma advogada da Casa Branca responsável por questões de ética durante o primeiro mandato de Bill Clinton, disse que Kendall não foi autorizado a se encontrar com funcionários da Casa Branca até "depois de realizarmos todo o exercício de conversarmos nós mesmos com os funcionários, discutir com eles se desejavam ter seu próprio advogado e lhes informar que não eram obrigados a falar com Kendall".

Segundo as regras de ética, Kasowitz não poderia entrevistar qualquer funcionário que contratou um advogado sem a permissão desse advogado, o que significa que seria de seu interesse caso os assessores do governo não contratassem seus próprios advogados, disseram especialistas. "Provavelmente é mais fácil para ele representar Trump caso não tenha que lidar com muitos outros advogados", disse Sherburne, acrescentando que foi impróprio Kasowitz desencorajar os assessores de contratarem seus próprios advogados.

Richard Painter, o advogado de ética da Casa Branca sob o presidente George W. Bush que atualmente leciona na escola de Direito da Universidade de Minnesota, disse que no pior cenário, um funcionário pode dar ouvidos ao conselho de Kasowitz e "acabar pagando o pato".

Alguns membros importantes do governo Trump têm seus próprios advogados. Jared Kushner, o genro e alto conselheiro do presidente, é representado por Jamie Gorelick, uma ex-vice-secretária de Justiça do governo Clinton.

Se o investigador especial explorar a obstrução, disse Julie Rose O'Sullivan, que trabalhou no caso Whitewater durante o governo Clinton, a rede lançada pelos investigadores será ampla e a lista de testemunhas será longa. "Será preciso descobrir o que o presidente estava pensando", disse O'Sullivan, atualmente uma professora de lei criminal da Universidade de Georgetown. "Isso significa chamar perante o grande júri todos com quem ele conversou na época, e nenhuma dessas pessoas deveria chegar perto de um grande júri sem estar acompanhada de um bom advogado com conhecimento de Washington."

*Glenn Thrush e Maggie Haberman contribuíram com reportagem.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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