Na Ucrânia, assassino disfarçado de jornalista caçava inimigos de Putin

Andrew E. Kramer

Em Kiev (Ucrânia)

  • BRENDAN HOFFMAN/NYT

    Amina Okuyeva e seu marido Adam Osmayev do lado de fora do hospital, onde Adam ficou após ser atingido em uma tentativa de assassinato, em Kiev

    Amina Okuyeva e seu marido Adam Osmayev do lado de fora do hospital, onde Adam ficou após ser atingido em uma tentativa de assassinato, em Kiev

Os ucranianos há muito tempo enfrentam notícias falsas vindas da Rússia, mas na semana passada eles descobriram algo ainda mais insidioso: um jornalista falso.

O homem era alto e elegante. Usava terno escuro e falava com sotaque francês. Quando se encontrou com políticos em Kiev, apresentou-se como Alex Werner, repórter do jornal francês "Le Monde".

"Ele era bem vestido, calmo e confiante", lembrou Amina Okuyeva, que ganhou certa celebridade na Ucrânia porque serviu com seu marido como soldado voluntário na guerra contra os separatistas na região leste do país. Werner a entrevistou várias vezes.

Foi durante uma dessas entrevistas, em um aterrorizante tiroteio, que a verdadeira identidade de Werner veio à luz: ele era de fato um assassino tchetcheno, segundo dizem hoje as autoridades ucranianas.

Disfarçado de jornalista, o assassino, Artur Denisultanov-Kurmakayev, tentou matar Okuyeva e seu marido, Adam Osmayev, segundo o Ministério do Interior da Ucrânia.

BRENDAN HOFFMAN/NYT
Amina Okuyeva, voluntária na guerra contra os separatistas na região leste da Ucrânia

O complô deu errado porque Okuyeva também estava armada, e os detalhes do ataque e suas consequências estão esclarecendo o papel de Kiev como campo de testes para o que as autoridades da Ucrânia chamam de atividades híbridas da Rússia, que incluem assassinatos.

O ataque foi a terceira tentativa de morte de alto perfil em Kiev que as autoridades atribuíram aos serviços de segurança da Rússia, mas o primeiro em que o suposto assassino se disfarçou de jornalista.

Em uma declaração publicada em 3 de junho, "Le Monde" disse querer "salientar que nenhum de seus jornalistas está na Ucrânia no momento e que sua equipe não inclui Alex Werner. 'Le Monde' condena firmemente qualquer imitação de seus jornalistas ou de seu cargo, para qualquer objetivo".

Em 2006, o governo russo legalizou os assassinatos dirigidos no exterior de pessoas que representavam ameaça terrorista, retomando uma prática da era soviética. Mas o Kremlin nunca admitiu usar a autoridade concedida pela lei e negou com veemência acusações específicas, incluindo as da Ucrânia.

Como "Werner", Denisultanov-Kurmakayev viveu durante mais de um ano em Kiev, misturando-se com políticos e ativistas anti-Rússia antes do tiroteio em 1º de junho.

O disfarce era bom, mas não impecável, disse Okuyeva em uma entrevista, sua primeira a uma organização noticiosa estrangeira desde a tentativa de assassinato. Ela estava acompanhada de dois guarda-costas que ficaram de prontidão durante toda a entrevista.

Um indício de que Denisultanov-Kurmakayev não era quem dizia ser era que sempre carregava um notebook, mas nunca escrevia nele, segundo Okuyeva. Usava um terno de aparência cara, outra sugestão de que algo estava errado.

Não havia nada incomum no pedido de entrevista, porém. "A imprensa nos pedia entrevistas com frequência", explicou Okuyeva. "A mídia adora escrever sobre nós."

Okuyeva e Osmayev, ambos de etnia tchetchena, são conhecidos na Ucrânia. Em 2012, o governo russo acusou Osmayev de planejar a morte de Vladimir Putin, que era então primeiro-ministro. Osmayev foi preso na Ucrânia, mas sua extradição para a Rússia foi bloqueada pelo Tribunal Europeu de Direitos Humanos.

Depois da revolução ucraniana em 2014, ele foi solto, e com a mulher se uniu a tchetchenos que lutavam na guerra no leste, o batalhão Dzhokhar Dudayev. Osmayev foi seu comandante desde 2015. Okuyeva serviu como franco-atiradora, usando um lenço de cabeça camuflado na frente de combate.

Ficar famosos como inimigos da Rússia acarretava riscos. O casal sabia que era visado. "Putin está pessoalmente interessado em livrar-se de nós", disse Okuyeva.

O suposto Werner se encontrou três vezes com o casal em cafés de Kiev de 20 de maio até 1º de junho, explicando que pretendia fazer um artigo de fundo.

Antes da quarta reunião, segundo Okuyeva, ele pediu que o casal o apanhasse em seu carro e fossem até a embaixada da França, e também disse que tinha um presente de seus chefes no "Le Monde".

"Havia muitas coisas estranhas, e minha intuição me dizia para não me encontrar com ele", disse Okuyeva, mas ela ignorou as advertências.

Enquanto dirigiam, Denisultanov-Kurmakayev pediu que a dupla parasse o carro para uma entrevista e se sentasse no banco de trás para receber o presente, que ele levava em uma vistosa caixa vermelha.

Quando o casal se sentou no banco traseiro, Denisultanov-Kurmakayev disse: "Este é o seu presente", contou Okuyeva. Abriu a caixa, tirou uma arma e abriu fogo contra Osmayev.

Um tiro atingiu o comandante no lado direito do peito. Mas ele não ficou imediatamente incapacitado, lutou com o atacante e apanhou a arma. Okuyeva, porém, que há muito temia tentativas de assassinato, carregava uma pistola sob o casaco, assim como um tubo de agente coagulante Celox na bolsa. Ela atirou quatro vezes em Denisultanov-Kurmakayev enquanto ele lutava com seu marido. Ambos ficaram gravemente feridos, mas sobreviveram.

"Sempre serei grato", disse Osmayev em uma entrevista sobre a reação rápida de sua mulher. "Por causa disso ambos estamos vivos hoje."

A sobrevivência do assassino poderá aumentar a importância do caso, caso os investigadores consigam sua cooperação.

Em março, um ex-legislador russo que fugiu para a Ucrânia, Denis Voronenkov, foi atingido por tiros na rua diante do hotel Premier Palace em Kiev. O guarda-costas de Voronenkov atirou e matou o atacante. No ano passado, um carro-bomba matou um jornalista, Pavel Sheremet, em uma rua no centro da capital, e não foram feitas prisões.

Depois do ataque a Osmayev e Okuyeva, o Ministério do Interior e legisladores da Ucrânia culparam o serviço de inteligência russo. A agência SBU, entretanto, disse que não há provas suficientes para determinar se o assassino que fingiu ser um jornalista era um agente russo, mas não descartou a possibilidade.

"Para a comunidade mundial, o que importa é que temos prova de que a Rússia está cometendo atos terroristas em outros países", disse Anton Gerashenko, um deputado. "Sua língua pode afrouxar e ele contar quem o mandou para cá e por quê", disse ele sobre Denisultanov-Kurmakayev.

Embora não esteja claro para quem Denisultanov-Kurmakayev estaria trabalhando, não foi a primeira vez que seu nome surgiu em circunstâncias semelhantes.

Em 2008, as autoridades da Áustria interrogaram Denisultanov-Kurmakayev sobre seus contatos com um solicitante de asilo e denunciante tchetcheno, Umar Israilov, que havia deposto no Tribunal Europeu de Direitos Humanos contra Ramzan Kadyrov, o líder tchetcheno. Israilov disse que Denisultanov-Kurmakayev fora enviado por Kadyrov à Áustria para ameaçar sua vida.

Denisultanov-Kurmakayev disse que o líder tchetcheno o havia enviado a Viena para convencer Israilov a voltar à Tchetchênia e, caso contrário, assassiná-lo. Ele disse que Kadyrov tem uma lista de 300 inimigos a ser mortos.

Denisultanov-Kurmakayev afirmou que se recusou a cometer o assassinato e recorreu à polícia austríaca para protegê-lo contra retaliação por descumprir a ordem. Dois meses depois, Israilov foi morto a tiros por desconhecidos em uma rua de Viena.

Denisultanov-Kurmakayev disse na época: "Não quero infringir leis, não sou um assassino".

*Colaborou Iuliia Mendel, de Kiev.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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