Preparando-se para o Brexit, britânicos enfrentam incertezas na economia

Peter S. Goodman

Em Londres (Reino Unido)

  • Andrew Testa/The New York Times

    Trabalhadores realizam construção na nova parte da Estação Victoria, em Londres

    Trabalhadores realizam construção na nova parte da Estação Victoria, em Londres

Neste momento, Eddie Stamton, um trabalhador da construção, normalmente estaria se preparando para voar para alguma praia do Mediterrâneo para passar as férias de verão. Mas não neste ano.

Desde a chocante votação no Reino Unido para abandonar a União Europeia, há um ano, a libra esterlina perdeu 13% de seu valor em relação ao euro, aumentando o custo das tão queridas férias na Europa. Os alimentos de outras terras --carne, queijo, vinho-- também estão mais caros. E a gasolina.

A inflação acelerada talvez explique a surpreendente rejeição eleitoral da primeira-ministra Theresa May e seu Partido Conservador, no governo, assim como o inesperado fortalecimento do Partido Trabalhista nas eleições parlamentares da última quinta-feira (8). Os consumidores estão se debatendo com o aumento dos preços, e os salários não acompanharam o ritmo. A economia está enfraquecendo.

Stamton, 51, que vive no nordeste de Londres, tradicionalmente vota nos conservadores, mas desta vez apoiou o Partido pela Independência do Reino Unido (Ukip na sigla em inglês), o partido periférico que há muito defende que o Reino Unido saia da Europa. Não importa que a consequência dessa posição, a queda da libra, tenha causado a atual indignação --trocar as praias ensolaradas da Grécia pelos parques sombreados do sul de Londres.

"Viajar está mais caro", disse Stamton. "Vou ficar em casa."

Esse é o pano de fundo econômico para o período tumultuado de incerteza política que se desenrola. May e seu partido perderam a maioria governante exatamente quando o Reino Unido precisa negociar as condições de seu delicado divórcio da Europa --o já famoso "Brexit". Enquanto os conservadores tentam manter o controle do governo, uma economia enfraquecida provavelmente intensificará a sensação de dificuldades entre os britânicos comuns que não ganharam os prêmios dos anos de crescimento recentes.
A economia se expandiu apenas 0,2% durante o primeiro trimestre deste ano em comparação com o trimestre anterior, muito menos que o 0,7% de crescimento visto no final de 2016. Ela cresceu em ritmo anual 2% durante o trimestre.

Os gastos do consumidor constituem quase dois terços da atividade econômica britânica, o que significa que os problemas da população podem ter uma influência decisiva na economia --e na política, consequentemente. Para o trabalhador médio, o aumento dos preços dos produtos de consumo diário ocorre por cima de uma década de salários estagnados.

Poucos economistas esperam que o Reino Unido caia em uma recessão, mas o consenso prevê um decepcionante índice de crescimento anual entre 1,5% e 1,75% durante este ano e o próximo.

No ano passado, o referendo do Brexit foi em parte uma rejeição da elite econômica pelos milhões de trabalhadores que sofreram a queda dos salários enquanto viam Londres se transformar em um festival de riqueza para os financistas globais.

A primeira-ministra convocou as eleições com base em pesquisas que mostravam que seu partido obteria uma maioria parlamentar maior, visando solidificar seu poder enquanto negocia os termos da saída com a Europa. Mas seu triste resultado na votação de quinta-feira sugere que as mesmas forças que produziram o Brexit atacaram o governo que deverá executá-lo: muitos britânicos estão insatisfeitos com seu destino econômico.

Andrew Testa/The New York Times
O parque aquático Sandcastle, em Blackpool, Inglaterra

Nos cerca de 12 anos desde que Vaidas Zelskis foi para o Reino Unido, deixando sua Lituânia natal, para trabalhar como carpinteiro, seu salário cresceu de cerca de 120 libras por dia (cerca de R$ 500) para 180 libras hoje (R$ 748). Mas com o tempo sua compra habitual de alimentos subiu de cerca de 50 libras por semana (R$ 208) para algo próximo de 120 (R$ 500).

"Os ricos sempre podem comprar o que quiserem", disse Zelskis enquanto tirava uma pausa para fumar em uma manhã recente diante de seu emprego no Shard, um edifício icônico ao sul do rio Tâmisa. "Mas a classe média realmente sente isso."

Assim como em grande parte dos EUA, a maioria dos trabalhadores do Reino Unido ainda não se recuperou totalmente da traumática crise financeira que começou em 2008.
Os salários médios semanais no Reino Unido são menores hoje do que eram há dez anos, descontando-se a inflação, comentou Martin Beck, o principal economista britânico na Oxford Economics, em Londres. Isso, apesar do fato de que o índice de desemprego no Reino Unido caiu para 4,6% em abril, nível visto pela última vez em 1975.
"Para a maioria das pessoas, não houve uma recuperação real há anos", disse Beck.

Nos últimos anos, o baixo desemprego tendeu a empurrar os salários para cima, quando os empregadores se viram forçados a pagar mais para competir por um grupo menor de trabalhadores. Por que essa dinâmica geralmente enriquecedora deixou de surgir agora é tema de um debate considerável entre os economistas.

Os sindicatos estão mais fracos que anos atrás. A economia com mão de obra autônoma substituiu os empregos fixos em tempo integral por trabalhos temporários, diluindo o poder dos trabalhadores de exigir melhor pagamento.

Um excesso de incertezas globais --Brexit, as ameaças do presidente Donald Trump de desmontar as instituições centrais da ordem global-- talvez tenham deixado as empresas relutantes em aumentar os custos.

A libra enfraquecida deu um reforço às exportações britânicas, tornando-as mais baratas que as concorrentes europeias e americanas. O uísque, o salmão e o chocolate britânicos estão sendo vendidos em volumes cada vez maiores.

Mas o Reino Unido importa mais alimentos do que exporta. Muitas das principais indústrias de exportação do país --automotiva, aeroespacial e equipamentos médicos-- contam com peças feitas por fornecedores da Europa. Enquanto a libra fraca torna mais competitivos os preços de seus produtos acabados, também aumenta seus custos.

A economia sofre ainda a perda de empregos bem remunerados nos bancos, enquanto a posição de Londres como principal centro financeiro mundial enfrenta os desafios apresentados pelo Brexit. Aproximadamente um terço dos negócios do setor envolve transações para clientes europeus. Quando o Reino Unido sair da União Europeia, grande parte desses negócios poderão se tornar ilegais, exigindo que os bancos satisfaçam os requisitos dos reguladores dos 27 membros restantes do bloco.

A indústria financeira vem fazendo lobby para que o governo alcance um acordo com a Europa que mantenha a situação atual, permitindo que o dinheiro flua sem empecilhos. Ao enfraquecer a situação de May, a eleição pode ter aumentado as chances de que ela atenue sua linha e aceite compromissos que preservariam a inclusão do Reino Unido no mercado europeu.

Mesmo assim, os bancos globais não podem esperar que um acordo útil seja fechado. Eles já estão traçando planos para deslocar empregos para outras cidades da UE enquanto tentam garantir --haja o que houver-- que eles possam executar todos os negócios. O Reino Unido poderá sofrer perdas de 15 mil a 80 mil empregos nos próximos dois anos, segundo estudos.

O investimento continua crescendo modestamente, porque os grandes projetos levam anos para se planejar e executar. Mas a maioria dos economistas supõe que ele será lento conforme o Brexit separar o Reino Unido do resto do mercado europeu, minando o incentivo às empresas multinacionais para que usem o Reino Unido como polo regional.

Andrew Testa/The New York Times
Peixes e frutos do mar são preparados no mercado Sea Fish, em Brixham, Inglaterra

"Conforme os esboços do Brexit começarem a ganhar forma, as empresas ficarão muito mais preocupadas", disse Peter Dixon, um economista financeiro global no Commerzbank AG em Londres. "Mesmo que as companhias não cortem o investimento, elas provavelmente adiarão as expansões."

Por enquanto, os balanços de cartão de crédito em todo o Reino Unido foram quase 10% mais altos em abril comparados com um ano antes, o ritmo mais veloz de crescimento em mais de uma década, revelou o Banco da Inglaterra. Isso aguçou as preocupações de que os consumidores poderão em breve esgotar suas fontes de dinheiro enquanto seus honorários são efetivamente reduzidos pela inflação.

"As pessoas conseguiram emprestar para manter os gastos do consumidor crescendo mais depressa que a renda real", disse John Hawksworth, economista-chefe da PwC UK em Londres. "Existe um ponto de interrogação sobre até onde o consumidor pode manter a economia andando sozinha."

Jennifer Corbin, 48, mãe de cinco filhos e moradora em Wembley, no noroeste de Londres, já tem uma resposta para essa pergunta: sua família vai economizar deixando de fazer a viagem anual às ilhas Canárias, para desfrutar seu sol abundante.

"Comida, casa, viagens, tudo está mais caro agora", disse ela no início de um recente fim de semana prolongado, enquanto esperava com a família o trem para um destino litorâneo mais próximo --a praia de Brighton, no sul da Inglaterra.

A previsão para lá era de frio e chuva, seguidos de chuva e frio.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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