Minúscula ilha norueguesa teme ser primeira vítima em eventual Terceira Guerra Mundial

Andrew Higgins

Em Vardo (Noruega)

  • Andrew Testa/The New York Times

    Estação de radar em Vardo, ilha remota na Noruega

    Estação de radar em Vardo, ilha remota na Noruega

A população da ilha ártica de Vardo encolheu pela metade em comparação a 20 anos atrás, e a indústria pesqueira que sustentou seus moradores por gerações em grande parte entrou em colapso.

Mas a empresa de energia elétrica local, citando um aumento misterioso na demanda por eletricidade, começou no mês passado a trabalhar para aumentar a capacidade de fornecimento, instalando um novo cabo espesso em um túnel sob as águas geladas que separam a ilha do território continental norueguês.

O novo cabo de transmissão de eletricidade, juntamente com a recente aparição de tratores no topo de um platô rochoso com vista para a Rússia, do outro lado do mar, aponta para uma atividade que está florescendo nesta parte do Ártico: a vigilância da crescente frota de submarinos nucleares da Rússia, armados com mísseis balísticos, no mar de Barents.

A eletricidade extra é necessária para o funcionamento do sistema de radar financiado pelos Estados Unidos, em construção em uma ilha com vista para a Península de Kola, um território gelado russo repleto de bases navais de alta segurança e zonas militares restritas.

O presidente da Rússia, Vladimir Putin, tornou prioridade o fortalecimento das forças armadas do país e de seu papel econômico no Ártico. Ele prometeu tornar a Rússia o país dominante no extremo norte à medida que a mudança climática abre novas rotas marítimas comerciais da Ásia para a Europa, possibilita a prospecção de gás e petróleo e proporciona uma nova arena para disputa de poder.

A fundação das ambições russas no Ártico, disse Katarzyna Zysk, uma professora associada do Instituto Norueguês de Estudos de Defesa, é o papel da região nas estratégias navais e de dissuasão nuclear da Rússia. No centro delas está o submarino Borei, uma nova geração de armamento estratégico que pode levar pelo menos 12 mísseis balísticos, cada um armado com múltiplas ogivas nucleares.

Andrew Testa/The New York Times
O pescador Aksel Robertsen visita a agora abandonada fábrica de processamento de peixe onde trabalhava em Vardo


O primeiro dos pelo menos oito submarinos da classe Borei que a Rússia planeja construir, o Yuriy Dolgorukiy, agora faz parte da Frota do Norte russa. A Rússia conta com mais de 200 submarinos, incluindo seis Delta 4 armados com múltiplos mísseis balísticos, a partir de uma série de bases na Península de Kola, que fica a apenas 64 km de mar agitado de Vardo.

"Este lugar é muito, muito importante para a América e para o Ocidente, para que possam ficar de olho no que os russos estão fazendo", disse Lasse Haughom, um ex-prefeito de Vardo e um veterano do serviço de inteligência militar da Noruega.

"A Rússia deseja espiar nossos segredos, e os Estados Unidos e a Noruega querem espiar as atividades deles", acrescentou Haughom. "É assim que o jogo é jogado."

O jogo teve início em Vardo nos primeiros estágios da Guerra Fria, com a construção de um radar de alerta antecipado primitivo. Mas em vez de acalmar com o fim da União Soviética, há mais de um quarto de século, esta disputa perigosa agora entrou em uma nova e alarmante etapa (para a Rússia) com o início das obras em Vardo de um novo sistema sofisticado de radar conhecido como Globus 3.

O projeto conjunto americano-norueguês de radar, que custará centenas de milhões de dólares e consumirá quantidades substanciais de eletricidade, enfureceu Moscou, que o vê como parte de um esforço do Pentágono para cercar e conter a Rússia ressurgente de Putin.

O embaixador russo em Oslo, a capital da Noruega, alertou recentemente o país que "não deve ser ingênuo" a respeito da prontidão de resposta da Rússia.

Andrew Testa/The New York Times
May-Sissel Dorme, residente de Vardo


"A Noruega precisa entender que após se tornar um posto avançado da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte, uma aliança militar ocidental), ela encarará de frente a Rússia e o poderio militar russo", disse o embaixador, Teimuraz Ramishvili, disse à emissora pública norueguesa "NRK". "Portanto, não haverá mais um Ártico pacífico."

O novo sistema de radar em Vardo apenas atualizará o sistema anterior construído pelos americanos e dará continuidade a sua missão, disse Morten Haga Lunde, o chefe da agência de inteligência militar da Noruega, em uma declaração no ano passado. Essa missão, ele acrescentou, é monitorar lixo espacial, como satélites inoperantes, e "monitorar nossa área nacional de interesse no Norte".

Mas os generais da Rússia e muitos noruegueses rejeitam a história de lixo espacial. Eles dizem acreditar que o novo radar Globus 3 faz parte dos esforços do Pentágono para desenvolvimento de um sistema global de defesa antimísseis, o que o torna um dos primeiros alvos de ataque em caso de um conflito.

"A Rússia considera Vardo como um alvo de alto valor", disse o tenente-coronel Tormod Heier, conselheiro da Universidade de Defesa da Noruega, em Oslo. "Em caso de uma crise, será um dos primeiros lugares a serem explodidos."

O que mais alarma a Rússia, ele acrescentou, é que o papel de Vardo em uma defesa antimísseis minaria severamente a última reivindicação incontestável de Moscou ao status de grande potência: seu arsenal nuclear e sua capacidade de lançar um ataque em retaliação a partir de sua frota de submarinos no Ártico.

Putin colocou a defesa antimísseis no topo de sua lista de queixas contra os Estados Unidos, dizendo aos repórteres em São Petersburgo, em 1º de junho, que o programa americano "destrói o equilíbrio estratégico no mundo".

O prefeito de Vardo, Robert Jensen, disse não ver razão para alarme e apoia o novo projeto de radar, por causa dos empregos que gera. "Não acho que a Rússia iniciará a Terceira Guerra Mundial aqui", ele disse.

Ele acrescentou que os moradores estão mais incomodados com o fechamento das fábricas de processamento de peixe do que com a chegada de outro radar americano.

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Estação de radar em Vardo


Dan Tore Jorgensen, um repórter do jornal local de Vardo, o "Osthavet", disse que isso é verdade até certo ponto. Mas ele disse que a discussão do assunto foi atrapalhada por um "voto de silêncio" a respeito do que realmente está acontecendo no platô, que é isolado por cercas de segurança e pontilhado de placas de "não entre", declarando em inglês, norueguês e russo que a área é uma zona militar de acesso proibido.

Apesar do atual sistema de radar ser operado pelos noruegueses, ele disse que o principal hotel de Vardo está frequentemente cheio de técnicos e espiões americanos disfarçados como observadores de pássaros.

Aksel Robertsen, um pescador de 34 anos, disse que Vardo precisa muito de empregos para impedir que a população de cerca de 2.100 habitantes encolha ainda mais e se diz grato pela operação de inteligência militar proporcionar trabalho.

Mas caminhando pelas ruínas da fábrica de processamento de peixe onde trabalhou quando era jovem, Robertsen xingou as autoridades por tratarem Vardo "como se fosse o Congo Belga", um território dependente que fornece mão de obra, mas que não pode opinar e nem mesmo ter conhecimento sobre seu destino. "Queremos viver da pesca, não de radares secretos", ele disse.

O sigilo em torno dos sistemas de radar provoca medo de que as autoridades estejam encobrindo riscos à saúde e outros possíveis perigos.

Os pulsos eletromagnéticos emitidos pelo atual sistema de radar interferem na recepção de rádio e televisão, assim como são culpados por alguns moradores por uma série de casos de aborto e câncer em um distrito civil vizinho à zona de segurança cercada.

Haughom, 72 anos, o ex-prefeito e veterano da inteligência, rejeitou as preocupações de saúde. "Eu trabalhei no local por quase 30 anos, até mesmo dentro dos domos quando o transmissor ainda estava em operação e, bem, ainda estou vivo", ele disse.

May-Sissel Dorme, uma das três mulheres na única rua próxima do sistema de radar que sofreram abortos espontâneos em 2000, disse não saber ao certo se o radar teve algum papel, mas tem certeza de uma coisa: "Em caso de uma guerra, nós seremos o primeiro lugar que os russos bombardearão", ela disse.

Os Estados Unidos insistem que seus planos de defesa antimísseis visam apenas conter os mísseis de Estados inamistosos como o Irã e a Coreia do Norte.

Ao mesmo tempo, a Rússia, que é muito mais fraca do que os Estados Unidos em forças armadas convencionais, considera os esforços americanos para desenvolvimento de um escudo antimísseis como uma ameaça direta à única área em que ainda pode competir, a dissuasão nuclear.

"Há uma nova Guerra Fria, mas é mais ameaçadora do que a anterior porque a Rússia está muito mais fraca, e por causa disso muito mais perigosa e imprevisível", disse o coronel Heier em uma entrevista em Oslo. "O risco de guerra nuclear é muito maior agora do que na antiga Guerra Fria, quando a União Soviética contava com toda uma variedade de armas diferentes."

Theodore Postol, um especialista em radar do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, disse que a instalação de um radar de alta potência como o Globus 3 em Vardo "não faz sentido, se a meta principal é monitorar lixo espacial". Ele disse que o papel bem mais provável é o monitoramento dos mísseis russos.

Postol disse que duvida que um sistema de defesa antimísseis realmente funcionaria, mas acrescentou que a Rússia tem bons motivos para ficar ansiosa, apesar das garantias do Pentágono de que os Estados Unidos não estão tentando enfraquecer a dissuasão nuclear de Moscou.

Andrew Testa/The New York Times
Robert Jensen, prefeito de Vardo


"Se você tem um vizinho andando de um lado para outro da cerca com uma espingarda, ele pode lhe dizer que não está carregada, mas mesmo assim gera todo tipo de perguntas sobre quais são suas intenções", disse Postol. "Isso cria a aparência de que os Estados Unidos estão fazendo todo o possível para obter inteligência sobre os novos mísseis russos e pensar em todas as medidas necessárias para contê-los."

Mas Zysk, do Instituto Norueguês de Estudos de Defesa, disse que "em comparação ao escopo, ritmo e ampliação da capacidade militar russa no Ártico, o fortalecimento da capacidade norueguesa de coleta de inteligência é uma medida bastante modesta".

As suspeitas de que os sistemas de radar em Vardo têm pouco a ver com monitoramento de lixo espacial foram acentuadas por uma séria de declarações ao longo dos anos por autoridades americanas, às vezes contradizendo a posição oficial.

Em uma postagem em seu site (posteriormente removida), a Raytheon, a fabricante do sistema de radar anterior Globus 2 em Vardo, disse que "visava originalmente coletar dados de inteligência contra mísseis balísticos".

Bard Wormdal, um jornalista da empresa nacional de radiodifusão da Noruega que vive perto de Vardo, escreveu um livro, "The Satellite War" (a guerra dos satélites, em tradução livre, não lançado no Brasil), mostrando as falhas na história oficial.

Em uma entrevista, Wormdal disse entender que "é difícil discutir inteligência em público", mas teme que o sigilo extremo e o acobertamento que cerca os sistemas de radar criam "um Estado separado dentro do Estado".

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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