Por que a ciberguerra dos EUA funcionou contra o Irã, mas falhou contra o EI?

David E. Sanger e Eric Schmitt

Em Washington (EUA)

  • Getty Images/iStockphoto

As fileiras de ciberguerreiros secretos dos EUA, em rápido crescimento, explodiram nos últimos anos centrífugas nucleares no Irã e usaram códigos de computador e guerra eletrônica para sabotar os lançamentos de mísseis da Coreia do Norte, com resultados mistos.

Mas desde que começaram a treinar seu arsenal de armas cibernéticas contra um alvo mais fugaz --o uso da internet pelo Estado Islâmico (EI)-- os resultados têm sido muitas vezes decepcionantes, segundo autoridades americanas. A eficácia do arsenal nacional de armas cibernéticas tem seus limites, segundo elas descobriram, contra um inimigo que explora a internet principalmente para recrutar, disseminar propaganda e usar comunicações criptografadas, coisas que podem ser rapidamente reconstituídas depois que "equipes de missão" dos EUA travam seus computadores ou manipulam seus dados.

Há mais de um ano o Pentágono anunciou que estava abrindo uma linha de combate contra o EI, ordenando que o Cyber Command, então com seis anos de idade, armasse ataques a redes de computadores. A missão era clara: perturbar a capacidade do EI de disseminar sua mensagem, atrair novos adeptos, pagar aos combatentes e transmitir ordens dos comandantes.

Depois dos recentes ataques no Reino Unido e no Irã reivindicados pelo EI, porém, ficou claro que os esforços de recrutamento e polos de comunicação ressurgem quase tão rapidamente quanto são derrubados. Isso está levando as autoridades a repensar como as técnicas de guerra cibernética, criadas para alvos fixos como instalações nucleares, devem ser modificadas para combater grupos terroristas que estão se tornando mais hábeis em transformar a web em uma arma.

"Em geral, houve certa sensação de decepção na capacidade geral de as ciberoperações acertarem um grande golpe no EI", disse Joshua Geltzer, que foi diretor de contraterrorismo no Conselho Nacional de Segurança até março passado. "Isso é muito mais difícil na prática do que as pessoas imaginam. Quase nunca é tão tranquilo quanto entrar em um sistema e pensar que você vê as coisas desaparecerem de uma vez."

Mesmo um dos raros sucessos contra o EI pertence pelo menos em parte a Israel, que foi parceiro dos EUA nos ataques contra as instalações nucleares do Irã. Ciberoperadores graduados de Israel penetraram numa pequena célula de extremistas que faziam bombas na Síria meses atrás, segundo as autoridades. Foi assim que os EUA souberam que o grupo terrorista estava trabalhando para fazer explosivos que enganavam máquinas de raios-X nos aeroportos e outras checagens, por serem muito parecidos com baterias de notebooks.

A inteligência foi tão refinada que permitiu aos EUA compreender como as armas podiam ser detonadas, segundo duas autoridades americanas inteiradas da operação. A informação ajudou a provocar uma proibição em março de grandes equipamentos eletrônicos em bagagens de mão nos voos de dez aeroportos em oito países de maioria muçulmana para os EUA e o Reino Unido.

Também fez parte das informações secretas que o presidente Donald Trump é acusado de ter revelado quando se reuniu no Salão Oval no mês passado com o ministro das Relações Exteriores russo, Sergei Lavrov, e o embaixador nos EUA, Sergei Kislyak. Sua revelação enfureceu as autoridades israelenses.

A agenda e as táticas do EI o tornam um inimigo especialmente duro na guerra cibernética. Os jihadistas usam computadores e as redes sociais não para desenvolver ou lançar sistemas de armas, mas para recrutar, angariar dinheiro e coordenar futuros ataques.

Essa atividade não está ligada a um único lugar, como estavam as centrífugas do Irã, e os militantes podem utilizar tecnologias de criptografia notavelmente avançadas e de baixo custo. O EI, segundo autoridades, fez um uso tremendo do Telegram, um sistema de mensagens criptografadas desenvolvido principalmente na Alemanha.

A mais sofisticada ofensiva de operação cibernética que os EUA realizaram contra o EI tentou sabotar os vídeos e propaganda do grupo online a partir de novembro, segundo autoridades americanas.

Nessa empreitada, chamada Operação Sinfonia Reluzente, a Agência de Segurança Nacional e seu primo militar, o Cibercomando dos EUA, obtiveram as senhas de várias contas de administradores do EI e as usaram para bloquear combatentes e deletar conteúdos. Foi inicialmente considerada um sucesso, porque os vídeos de batalhas desapareceram.

Mas os resultados foram só temporários. As autoridades americanas mais tarde descobriram que o material tinha sido restaurado ou movido para outros servidores. Esse revés foi relatado primeiramente pelo jornal "The Washington Post".

A experiência não surpreendeu ciberoperadores veteranos, que aprenderam, por meio da experiência dura, que as armas cibernéticas ganham tempo, mas raramente são uma solução permanente. Os ataques à instalação nuclear Natanz do Irã, iniciados no governo de George W. Bush e chamada de Jogos Olímpicos, destruíram aproximadamente mil centrífugas e fizeram os iranianos retrocederem cerca de um ano --o período de tempo ainda é discutido. Mas criou espaço para uma negociação diplomática.

Os ataques ao programa de mísseis da Coreia do Norte, que o presidente Barack Obama acelerou em 2014, foram seguidos de uma série notável de fracassos de mísseis que Trump comentou em uma conversa, que vazou recentemente, com o presidente das Filipinas. Mas evidências recentes sugerem que a Coreia do Norte, usando um tipo de míssil diferente, superou pelo menos parte dos problemas.

Os fracassos da Sinfonia Reluzente ilustraram os desafios que o governo enfrenta enquanto tenta paralisar o EI no espaço cibernético.

As disrupções muitas vezes exigem que combatentes mudem para comunicações menos seguras, tornando-os mais vulneráveis. Mas como os combatentes do EI são muito móveis, e seu equipamento relativamente comum, não é difícil reconstituir as comunicações e colocar material em novos servidores. Parte dele foi criptografado e armazenado na nuvem, segundo autoridades de inteligência, o que significa que pode ser baixado em um novo local.

"Havia gente trabalhando duro nisso, e algumas realizações tiveram certo impacto, mas não há um fluxo constante de coisas surpreendentes ocorrendo como alguns esperavam", disse Geltzer, que hoje dá aulas no Centro de Direito da Universidade Georgetown. "Não houve uma espécie de ciberferramenta brilhante."

A frustração do governo Obama pelo insucesso contra o EI foi um dos fatores em seu esforço para demitir o almirante Michael Rogers, diretor da ASN e comandante do Cibercomando, segundo várias ex-autoridades. Elas se queixaram de que as organizações estavam enfocadas demais na espionagem tradicional e esforços altamente sofisticados para usar redes para explodir ou neutralizar instalações inimigas, como as do Irã e da Coreia do Norte.

O ex-secretário da Defesa Ash Carter viajou ao quartel-general de Rogers em Fort Meade, em Maryland, em diversas ocasiões, segundo as autoridades, para manifestar descontentamento com o ritmo lento da iniciativa e para instigar novos esforços, como a Sinfonia Reluzente.

Membros do governo Obama recuaram mais ou menos na época em que o presidente eleito Trump parecia estar considerando Rogers, que tinha dirigido as operações do Cibercomando da Marinha, para diretor da inteligência nacional --e o governo Trump parece tê-lo adotado.

Mas permanece o problema fundamental de como usar com eficácia as técnicas cibernéticas contra o EI.

Isso ficou evidente na frustração manifestada pela primeira-ministra Theresa May, do Reino Unido, depois do recente ataque na Ponte de Londres e em restaurantes próximos. Ela se concentrou em como a internet cria um "espaço seguro" para a ideologia radical, e disse que "as grandes companhias que fornecem serviços baseados na internet" terão de entrar na briga mais plenamente.

Elas já policiam os vídeos violentos e o recrutamento aberto, e um ex-membro da ASN comentou recentemente que o Cibercomando também está altamente pronto para retirar qualquer coisa que pareça comemorar a morte de americanos ou outros ocidentais.

Mas nos EUA qualquer repressão provavelmente colidirá com questões da Primeira Emenda constitucional, onde a defesa de uma ideologia é expressão protegida, exceto a incitação direta à violência.

Autoridades americanas dizem que mesmo com a perda de território na Síria e no Iraque e um amplo esforço militar para perturbar as atividades do EI os militantes se mostram extremamente resistentes.

"O alcance global do EI hoje está amplamente intacto", disse em um discurso em Washington no mês passado o diretor do Centro Nacional de Contraterrorismo, Nicholas Rasmussen. "O grupo também continua publicando milhares de peças de propaganda oficial e usando aplicativos online para organizar seus seguidores e inspirar ataques."

A avaliação de Rasmussen foi feita um ano depois que algumas das melhores equipes de cibermissões recém-criadas se uniram a unidades militares mais tradicionais no combate. As equipes são o equivalente cibernético a unidades das Forças Especiais, enviadas por todo o mundo para trabalhar na defesa das redes do Pentágono ou lançar ataques cibernéticos em coordenação com operações mais tradicionais.

As ciberoperações são estreitamente integradas às missões aliadas de combate em terra e no ar, para maximizar o impacto contra os combatentes do EI encurralados nos dois principais baluartes do grupo extremista: Mossul, no Iraque, e Raqqa, na Síria.

"Somos capazes de cegá-los ou garantir que não possam nos escutar", disse o tenente-general Jeffrey Harrigian, comandante aéreo aliado, em uma entrevista em seu quartel-general em Qatar em dezembro. "Há coisas que fazemos no espaço e em cibernética que estão sendo efetivamente sincronizadas para alcançar efeitos importantes até em Mossul e Raqqa."

O tenente-general Sean McFarland, que foi o principal comandante militar americano no Iraque até agosto, disse que especialistas do Cibercomando ajudaram suas tropas a "perturbar o comando e controle inimigo durante nossas operações ofensivas, e esse apoio melhorou no tempo em que eu estive no comando".

Outras autoridades militares graduadas afirmaram que o número e a qualidade das ferramentas no arsenal cibernético dos EUA contra o EI se expandiram no último ano. Alguns dos efeitos são aplicados repetidamente durante dias. Impedir a entrada de especialistas em propaganda do EI em suas contas --ou usar as coordenadas de seus celulares e computadores para visá-los em um ataque de drone-- hoje é um procedimento operacional padrão.

Harrigian disse que os países aliados também empregavam armas e técnicas cibernéticas contra o EI que os EUA não tinham. Sem identificar países ou técnicas específicas, ele disse que os aliados "podem fazer coisas que nós não podemos --algumas atividades cibernéticas que eles têm autorização para executar e nós não temos."

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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