'É um milagre': católicos gays celebram aceitação e incentivo em igrejas dos EUA

Sharon Otterman

Em Newark (Nova Jersey, EUA)

  • BRYAN ANSELM/NYT

    Paroquianos da Basílica da Catedral do Sagrado Coração jantam após missa, em Newark

    Paroquianos da Basílica da Catedral do Sagrado Coração jantam após missa, em Newark

A palavra "peregrinação" geralmente evoca visões de lugares distantes e exóticos, mas para cerca de cem católicos gays e lésbicas dos EUA e suas famílias uma peregrinação à Basílica do Sagrado Coração, nesta cidade, em um domingo recente, mais parecia uma festa de volta ao lar.

As portas da catedral foram abertas para eles, que foram recebidos pessoalmente pelo líder da Arquidiocese de Newark, cardeal Joseph Tobin. Eles se sentaram em cadeiras dobráveis no centro da catedral, na frente do altar no grandioso santuário, sob o brilho azulado dos vitrais.

"Eu sou Joseph, seu irmão", disse Tobin ao grupo, que incluía católicos gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros de Nova York e das cinco dioceses de Nova Jersey. "Eu sou seu irmão, como discípulo de Jesus. Sou seu irmão, como um pecador que encontra o perdão no Senhor."

A recepção à missa de um grupo de pessoas declaradamente gays, por um líder da estatura de Tobin na Igreja Católica dos EUA seria impensável cinco anos atrás. Mas Tobin, que o papa Francisco nomeou para Newark no ano passado, faz parte de um pequeno mas crescente grupo de bispos que estão modificando o modo como a Igreja Católica americana se relaciona com seus membros gays. Eles tentam ser mais inclusivos e indicam aos sacerdotes subordinados que devem fazer o mesmo.

"A palavra que eu uso é 'receptividade'", disse Tobin em uma entrevista pouco antes da missa, em maio. "Estas são pessoas que não se sentiram bem recebidas em outros lugares, minha oração para elas é que se sintam. Hoje na igreja lemos um trecho que diz que você tem de dar um motivo à sua esperança. Eu estou rezando para que esta peregrinação para eles, e para toda a igreja, seja um motivo de esperança."

Quatro anos atrás, o papa Francisco incendiou o mundo católico com seu comentário sobre padres gays que buscam a Deus: "Quem sou eu para julgar?" Mas não ficou claro como suas palavras afetariam os católicos que buscam aceitação nos bancos das igrejas.

Afinal, a igreja ensina no catecismo que os atos homossexuais são "intrinsecamente desordenados". Os homens que "apresentam tendências homossexuais arraigadas ou apoiam a chamada cultura gay" não devem se tornar padres, segundo instruções do Vaticano renovadas em 2016.

Os bispos católicos dos EUA se opuseram fortemente ao casamento entre homossexuais. Mais de cem funcionários de instituições católicas em todo o país perderam seus cargos nos últimos três anos por serem gays ou se casarem com pessoas do mesmo sexo, segundo Marianne Duddy-Burke, diretora-executiva da DignityUSA, uma organização de católicos que defende a igualdade para pessoas lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros.

Mas gestos como o de Tobin são uma evidência de que as palavras do papa Francisco estão causando efeito. Os bispos hoje têm latitude para se concentrar nas partes mais inclusivas do catecismo católico sobre homossexuais, como o apelo a aceitá-los com "respeito, compaixão e sensibilidade". Eles podem seguir o princípio do acompanhamento, que significa que podem se reunir com pessoas onde elas estiverem espiritualmente e formar relacionamentos que as ajudem a aprofundar sua fé.

"É o começo de um diálogo", disse Francis DeBernardo, diretor-executivo do New Ways Ministry [Ministério Novos Caminhos], grupo que defende a atende aos gays católicos.

"A liderança da igreja, nos últimos 40 anos, foi tão silenciosa e avessa ao diálogo, avessa a orar com os católicos LGBT que, apesar de este não ser o último passo, é um primeiro passo", disse ele sobre a receptividade de Tolbin.

Alguns membros conservadores da igreja ficaram desconfiados, porém. O problema, segundo eles, não é a ideia de receber --afinal, Jesus recebia a todos--, mas que o abraço público a esse grupo possa ser interpretado como a aceitação da igreja de um estilo de vida homossexual, que o ensinamento da igreja proíbe.

"Todos são bem-vindos à igreja, mas ninguém é aceito como é", disse o reverendo Robert Gahl, professor de ética na Universidade Pontifícia da Santa Cruz, da Opus Dei, em Roma. "Estou muito feliz que eles tenham ido à missa na catedral, mas espero que o cardeal Tobin os tenha desafiado, como devem fazer os bons pastores, a viver segundo os ensinamentos de Jesus."

Em resposta, Tobin disse em uma entrevista na semana passada que misturar boas-vindas com críticas não teria sido uma recepção plena.

"Isso me parece um pouco atravessado", disse ele. "Foi apropriado receber as pessoas para virem rezar e chamá-las do que elas são. Mais tarde podemos conversar."

Para mostrar como o simples ato das boas-vindas pode ser delicado, o cardeal disse que depois da missa ele recebeu uma grande quantidade de mensagens de ódio de outros católicos. Alguém estava até organizando uma campanha de cartas para pedir que outros bispos o corrigissem.

"E há muita coisa a ser corrigida em mim, sem dúvida", disse Tobin. "Mas não por receber as pessoas. Não."

Paróquias de todo o país têm há décadas ministérios para gays e lésbicas. Mas forças mais tradicionais prevaleceram entre a hierarquia da igreja, conduzida por uma carta do Vaticano escrita em 1986 pelo cardeal Joseph Ratzinger, mais tarde papa Bento 16, advertindo contra qualquer aceitação da homossexualidade.

Os gays católicos tornaram-se um dos grupos mais marginalizados da igreja. Depois do tiroteio a uma boate em Orlando, na Flórida, no último verão, por exemplo, só um punhado de bispos americanos fez declarações públicas de apoio à comunidade gay que havia sido alvo do ataque.

O reverendo James Martin, padre e autor jesuíta, disse que achou o silêncio dos bispos revelador. Ele escreveu um livro pedindo pequenos passos adiante, que seria lançado nesta semana, "Building a Bridge: How the Catholic Church and the LGBT Community Can Enter Into a Relationship of Respect, Compassion and Sensitivity" [Construindo uma ponte entre a Igreja Católica e a comunidade LGBT].

O livro pede que os líderes da igreja mostrem respeito usando termos como "gay" e "LGBT", em vez de expressões como "aflitos pela atração pelo mesmo sexo". Ele também afirma que esperar um estilo de vida sem pecado dos católicos gays, mas não de qualquer outro grupo, é uma forma de "discriminação injusta", e que os gays não devem ser demitidos por se casarem com pessoas do mesmo sexo.

"O estilo de vida de quase todo mundo é pecaminoso", disse Martin. "A menos que a Mãe Abençoada apareça na fila da comunhão, não há ninguém sem pecado em nossa igreja."

Em todos os EUA houve recentes gestos de abertura que não teriam sido possíveis sob papas anteriores, disse DeBernardo.

A diocese de Jefferson City, no Missouri, por exemplo, disse no mês passado que permitiria estudantes transgêneros em suas escolas. Em outubro, o bispo Robert McElroy, de San Diego, organizou um sínodo sobre a família que pediu um ministério melhor voltado para católicos LGBT. Em uma conferência nacional do New Ways Ministry em abril, o bispo John Stowe, de Lexington, Kentucky, disse que admira e respeita pessoas LGBT que continuaram fiéis à igreja apesar de nem sempre serem bem recebidas.

Tobin e o cardeal Kevin Farrell, prefeito do Dicastério para os Laicos, a Família e a Vida, do Vaticano, que foi nomeado pelo papa Francisco, escreveu comentários positivos ao livro de Martin. Farrell, que antes foi bispo de Dallas (Texas), escreveu que acredita que o livro "ajudará os católicos LGBT a se sentirem mais em casa no que, afinal, é a sua igreja".

BRYAN ANSELM/NYT
Reverendo Francis Gargani, no centro, durante missa na Catedral Basílica do Sagrado Coração

Mas as boas-vindas de Tobin na missa de 21 de maio foi o mais significativo desses gestos recentes, por causa do simbolismo de um cardeal receber um grupo de gays católicos, alguns deles casados com pessoas do mesmo sexo, para participarem do sacramento da comunhão no centro de uma catedral, sem qualquer questionamento.

A "peregrinação LGBT" foi organizada por ministérios gays da Igreja do Sagrado Coração em South Plainfield, Nova Jersey, e a Igreja do Sangue Precioso em Monmouth Beach. Ela foi consequência de uma conversa entre David Harvie, do grupo paroquiano de South Plainfield, e o reverendo Francis Gargani, um padre do Brooklyn que, como Tobin, pertence à Ordem do Santíssimo Redentor, e levou a ideia a ele.

Tobin foi embora logo depois de receber os participantes da missa, afirmando que tinha um compromisso anterior, mas oito padres a celebraram com Gargani. O grupo também foi recebido pelo reitor da catedral, bispo Manuel Cruz, que lhes disse que as portas da catedral estão sempre abertas para eles, "porque somos filhos de Deus e nossa identidade é que todos pertencemos a ele".

Muitos dos participantes foram levados às lágrimas.

"Parecia um milagre", disse Ed Poliandro, membro da paróquia de São Francisco Xavier em Manhattan e um trabalhador social clínico. "Foi um milagre ouvir líderes da igreja dizerem 'Vocês são bem-vindos; vocês pertencem'. E eu senti, depois de uma vida de lutas, que estamos em casa."

O antecessor de Tobin em Newark, arcebispo John Myers, enfatizou a imoralidade da homossexualidade durante seu mandato, apoiando, por exemplo, a demissão em 2016 da diretora de um colégio católico em Paramus, Nova Jersey, que se casou com sua parceira lésbica. Por isso a receptividade de Tobin foi especialmente poderosa para os membros de sua própria diocese.

"Ele trouxe Francisco para nós", disse Thomas Smith, 66, um diácono que serve à comunidade de surdos na Catedral de Newark. "Estive esperando 25 anos por isto. Sou diácono da igreja e tinha de ser cauteloso. E temeroso."

Ele chorou ao lembrar que seus pais morreram pensando que ele iria para o inferno se encontrasse alguém para amar. "Isto é incrível para mim", disse Smith.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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