Assessores de Trump questionam se confiança na China deve ser mantida

Mark Landler

Em Washington (EUA)

  • Alex Brandon/AP

    7.abr.2017 - Presidente dos EUA, Donald Trump, na esquerda, e o presidente da China, Xi jinping conversam em Ma-a-Lago, nos EUA

    7.abr.2017 - Presidente dos EUA, Donald Trump, na esquerda, e o presidente da China, Xi jinping conversam em Ma-a-Lago, nos EUA

Não há líder estrangeiro no qual o presidente Donald Trump tenha feito maior aposta do que Xi Jinping da China.

A aposta de Trump se baseia em seu cálculo de que Xi, o presidente chinês, pode impor uma forte pressão sobre a Coreia do Norte para coibir seus programas de armas nucleares e mísseis. Para assegurar a cooperação de Xi, o presidente voltou atrás em sua posição dura a respeito das práticas comerciais da China, e tem dito pouco sobre o aventureirismo do país no Mar do Sul da China.

Mas um número cada vez maior de assessores de Trump teme que a aposta não dará resultado.

A China não endureceu significativamente a pressão sobre a Coreia do Norte desde que Trump se encontrou com Xi em Palm Beach, Flórida, em abril. O fracasso dela em fazer mais frustrou as autoridades na Casa Branca, que planejam levantar a questão junto a seus pares chineses na reunião de alto nível que ocorrerá aqui em 21 de junho.

A relutância da China em exercer sua influência nesta questão deixa o governo Trump com poucas boas opções para lidar com a crise da Coreia do Norte. E pode levar o governo a tentar negociar com os líderes norte-coreanos, uma abordagem que não funcionou para os antecessores de Trump, mas que ele periodicamente parece querer abraçar.

A Casa Branca deu um passo cauteloso na direção da negociação nesta semana, quando enviou um alto diplomata para a Coreia do Norte para conseguir a soltura de Otto Warmbier, um preso americano gravemente enfermo. O encontro, disseram algumas ex-autoridades americanas, poderia abrir caminho para um maior diálogo.

Mas o tratamento desumano da Coreia do Norte a Warmbier, 22 anos, complica as perspectivas para a diplomacia. Em uma coletiva de imprensa emotiva na quinta-feira, o pai de Warmbier disse que seu filho foi "brutalizado e aterrorizado" durante os 18 meses de cativeiro; médicos disseram que o filho sofreu lesões neurológicas severas.

Mesmo assim, atuais e ex-funcionários disseram que o governo dificilmente mudará sua estratégia devido aos maus-tratos a um único americano, independente de quão horríveis. O resultado mais provável, eles disseram, é que quaisquer futuros contatos com a Coreia do Norte serão conduzidos em segredo.

"O governo Trump deixou claro que esta é uma abordagem 'todas as alternativas anteriores'", disse Daniel R. Russell, que serviu como secretário assistente de Estado para assuntos do Leste da Ásia sob o presidente Barack Obama. "Eles explorarão que tipo de contatos oficiais e não oficiais com a Coreia do Norte podem levar a um avanço da causa."

Os assessores de Trump também estão motivados pela recente eleição na Coreia do Sul, que levou ao poder um líder progressista mais interessado em diálogo do que no confronto com a Coreia do Norte. O presidente Moon Jae-in suspendeu a implantação de um sistema antimísseis americano.

Os chineses estão entre os mais interessados em um encontro entre Trump e o líder norte-coreano, Kim Jong Un, disseram funcionários do governo, em parte porque isso transferiria o ônus de uma solução a Washington, não Pequim. Por ora, entretanto, a Casa Branca está mais concentrada em fazer com que a China pressione sua vizinha.

Trump chegou à presidência prometendo desafiar a China em uma série de questões. Mas o risco iminente apresentado pelos programas nuclear e de mísseis da Coreia do Norte mudou o cálculo.

Em abril, ele disse que Xi seria seu parceiro na contenção de Kim. Duas semanas depois, o Departamento do Tesouro se recusou a designar a China como manipuladora de câmbio, algo que Trump prometeu fazer durante sua campanha presidencial.

De lá para cá, há pouca evidência de uma repressão pela China ao comércio chinês com a Coreia do Norte. O governo chinês não anunciou o fechamento de qualquer grande empresa comercial, nem os comerciantes em Dandong, a cidade portuária chinesa na fronteira com a Coreia do Norte, relataram qualquer sinal de movimento contra suas empresas. Os norte-coreanos dispararam 16 mísseis neste ano, nove deles desde o encontro de cúpula entre Trump e Xi.

"É preocupante que o presidente pareça pensar que convenceu Xi Jinping a mudar de curso", disse Michael J. Green, um alto conselheiro para Ásia do Conselho de Segurança Nacional do presidente George W. Bush. "Essa é a posição que ele adotou publicamente e tem implicações imensas para a região. Ele não deveria tê-la enfatizado tanto."

O toma lá dá cá de Trump semeou preocupação no Japão e no Sudeste Asiático, onde as autoridades estão preocupadas com os Estados Unidos estarem calando sua resposta às agressões da China no Mar do Sul da China ou suspendendo a venda de armas para Taiwan, ações que funcionários do governo negam.

Para aumentar a pressão sobre a China, funcionários do governo disseram que os Estados Unidos estão considerando sanções a uma série de indivíduos e bancos chineses que fazem negócios com a Coreia do Norte, um passo que poderia agravar as tensões com a China e azedar o nascente relacionamento entre Trump e Xi.

A próxima oportunidade de os dois líderes se encontrarem face a face é na reunião do Grupo dos 20 em Hamburgo, Alemanha, em julho. Mas um alto funcionário do governo disse que resposta da China à Coreia do Norte pode afetar a agenda da Casa Branca para uma reunião individual.

Não está claro que mesmo esses passos possam levar a China a alterar radicalmente sua abordagem em relação à Coreia do Norte, que é movida menos pela preocupação com as ambições nucleares do país e mais pelo temor do que um colapso do país possa significar para a China, que compartilha com ele uma fronteira de mais de 1.400 km.

A impaciência com a China fervilha há semanas dentro da Casa Branca. Mas apenas nos últimos dias ela começou a transparecer.

"Não podemos permitir que a China use seu poder econômico para comprar sua saída de outros problemas, seja a militarização das ilhas no Mar do Sul da China ou o fracasso em impor uma pressão apropriada à Coreia do Norte", disse o secretário de Estado, Rex Tillerson, na semana passada em Sydney.

Trump tem evitado julgar publicamente Xi. Em um comício em abril, para marcar os primeiros 100 dias de sua presidência, Trump disse que seria prejudicial designar a China como manipuladora cambial em um momento em que está buscando a ajuda do governo em relação à Coreia do Norte. E ele disse que desenvolveu um apreço por Xi após horas de conversas.

"Ele é um homem bom", disse Trump a seus simpatizantes. "Mas ele está representando a China. Não está nos representando. Mas é um homem bom. E acredito que ele deseja que essa situação seja resolvida. Eles têm um poder tremendo, de modo que veremos o que acontecerá."

Em sua conta no Twitter, o presidente alterna entre otimismo e leve repreensão à China.

Em 21 de abril, ele escreveu: "A China é basicamente a linha vital econômica da Coreia do Norte, logo, apesar de não ser fácil, se quiserem resolver o problema da Coreia do Norte, eles conseguirão". Em 29 de maio, após outro teste de míssil, Trump escreveu: "A Coreia do Norte demonstrou enorme desrespeito por sua vizinha, a China, ao disparar outro míssil... mas a China está se esforçando!"

No mês passado, os comerciantes disseram que as exportações chinesas à Coreia do Norte estavam sofrendo inspeções mais meticulosas. As autoridades provinciais alertaram os comerciantes a não esconderem itens proibidos que possam ser usados no programa nuclear norte-coreano (produtos químicos, por exemplo) em suas cargas.

Alguns diplomatas veteranos previram que a China anunciaria algumas medidas modestas, como uma repressão a um punhado de bancos ou empresas sem fortes laços políticos, como forma de dar a Trump apenas evidência suficiente para mostrar que sua confiança em Xi não foi completamente equivocada.

"Há a percepção de que os chineses exploraram sua vaidade e o ludibriaram", disse Chris Hill, um emissário especial para a Coreia do Norte durante o governo George W. Bush. "Isso o coloca em uma posição desajeitada. Minha sensação é que sabem disso e querem agir com base nisso."

*Yufan Huang, em Pequim (China), contribuiu com reportagem

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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