Em livro, mulher que quebrou tabu ao dirigir carro chama sauditas para 'despertar'

Somini Sengupta

Em Oslo (Noruega)

  • NATHAN BAJAR/NYT

    Manal al-Sharif, defensora do direito das mulheres na Arábia Saudita, em Nova York

    Manal al-Sharif, defensora do direito das mulheres na Arábia Saudita, em Nova York

Manal al-Sharif tinha 14 anos quando queimou as fitas-cassete dos Back Street Boys de seu irmão. Depois foram as revistas de moda de sua mãe. Ela deixou de desenhar figuras humanas e de ler suas queridas novelas de Agatha Christie. Havia aprendido que essas coisas eram proibidas, segundo a variedade puritana do islamismo que na época dominava seu país, a Arábia Saudita. Muitas coisas eram proibidas para mulheres e meninas, como lhe ensinaram: aparar as sobrancelhas, repartir o cabelo para o lado, mostrar o rosto em público.

A única coisa que ela não conseguiu destruir foi um saco plástico com fotos da família que sua mãe tinha guardado no quarto. Ela as encontrou anos mais tarde, quando a mãe morreu. Havia uma foto dela com um vestido vermelho, para o Eid; outra de sua mãe com uma saia até o meio da perna que ela mesma tinha costurado; outra de seu pai sem camisa, para o hajj.

"Estou tão contente que ela as tenha escondido", disse al-Sharif um dia desses, percorrendo as imagens que tinha carregado no telefone. "Pensei que não tivéssemos nenhuma."

Al-Sharif, 38, passou por uma mudança de mentalidade radical desde os tempos rebeldes do salafismo. Hoje ela é mais conhecida por contestar as leis e costumes que mantêm as mulheres subjugadas na Arábia Saudita, inclusive o que ela considera as restrições infantilizadoras do reino sobre o direito das mulheres a dirigir carros.

Seu primeiro livro, "Daring to Drive: A Saudi Woman's Awakening" [Ousando dirigir: o despertar de uma mulher saudita], publicado nesta semana nos EUA pela Simon & Schuster, é uma memória de seu amadurecimento político. É também um retrato do tumulto e da tirania na Arábia Saudita durante as últimas quatro décadas --e o relacionamento incômodo do reino com os EUA.

Conheci al-Sharif na Noruega, em uma conferência sobre direitos humanos na capital, Oslo, no final de maio, enquanto a família Trump visitava seu país. Falando a mulheres na capital saudita, Riad, Ivanka Trump disse que o progresso dos direitos das mulheres no país é "muito animador", enquanto reconhecia que "ainda há muito trabalho a ser feito".

Al-Sharif achou o elogio insultante.

Ela citou o caso de sua amiga Mariam al-Otaibi, que está detida desde abril por fazer campanha contra uma política que exige que as mulheres obtenham a autorização de um guardião para trabalhar, estudar ou viajar, independentemente de sua idade.

Al-Sharif usa uma faixa de plástico azul no pulso em apoio à campanha pelo fim do sistema de guarda. "#IAmMyOwnGuardian" [Sou minha própria guardiã], diz a faixa.

"Que tipo de progresso nos direitos das mulheres?", disse ela. "Gostaria que ela [Ivanka Trump] fosse mais específica para eu não me sentir insultada. Se você não quer nos apoiar, apenas fique quieta. Não elogie. Você está piorando as coisas para nós."

Sua geração foi limitada por uma forma rígida de islamismo. Ela lembra que líderes religiosos iam dar palestras pelos alto-falantes de sua escola. Folhetos eram distribuídos nas ruas, prescrevendo o que se devia fazer ou não. Uma tia mais velha que sempre havia usado batas sauditas coloridas tradicionais de repente começou a se cobrir com uma abaya preta da cabeça aos pés, porque seus filhos mandaram.

Sua mãe retirou da parede do quarto uma bonita tela bordada à mão que mostrava uma mulher se banhando. As fotos desapareceram do apartamento. Os rapazes eram habitualmente encorajados a aderir à luta contra as forças soviéticas no Afeganistão.

Seguir aquele tipo de doutrina, lembrou ela, exigia odiar os infiéis.

"Minha geração, nascida nos anos 1970 e 80, foi toda radicalizada", disse ela. "Você tem de abandonar muita coisa para seguir essas regras. A coisa penetra sob sua pele."

Mas, lentamente, saiu.

Havia uma garota no colégio, Sara, que não cobria o rosto. Ela era muito simpática e amistosa, lembra al-Sharif, era difícil não ser sua amiga. Parecia um paradoxo.

Havia também os Back Street Boys. Ela escutava em segredo as fitas de seu irmão, e gostava.

Depois veio o 11 de Setembro. Ela ficou horrorizada que a doutrina extremista em que ela foi criada tivesse produzido 19 sequestradores --15 deles da Arábia Saudita-- para matar tanta gente. Ela estava cansada do ódio.

Na Arábia Saudita, as regras eram --e ainda são-- especialmente pesadas para as mulheres.

Al-Sharif precisou da autorização de seu pai para entrar na universidade; ela estudou ciência da computação. Precisou da permissão dele para se candidatar a um emprego; foi contratada como especialista em segurança da informação na Aramco, a companhia de petróleo saudita. Precisava de autorização para viajar ao exterior a trabalho e para tirar o passaporte.

Uma viagem de negócios a New Hampshire (EUA) mudou sua visão sobre muitas coisas. Ela foi ao teatro, onde viu dois homens se beijando. Fez esqui. Aprendeu a dirigir.

Então, em 2011, houve uma onda de protestos a favor da democracia em todo o mundo árabe. Al-Sharif estava de volta à Arábia Saudita, vivendo no complexo da Aramco, divorciada e com um filho, Abdalla. Tinha comprado um carro, mas só podia dirigir dentro do complexo da empresa.

Certa manhã, em maio de 2011, ela decidiu que estava na hora de dar um giro lá fora. Uma amiga foi no banco do passageiro e gravou o passeio em seu telefone.

À tarde, era uma sensação no YouTube. Houve cobertura na mídia internacional, e, afinal, uma batida na porta no meio da noite, das autoridades sauditas. Al-Sharif foi atirada numa prisão de mulheres, cheia de baratas.

Hillary Clinton, que era então secretária de Estado dos EUA, sofreu pressão para se manifestar a favor da campanha para dirigir das mulheres sauditas. "O que essas mulheres estão fazendo é corajoso, e o que elas desejam é certo", disse Clinton.

Em 2012, al-Sharif recebeu o prêmio Vaclav Havel de Dissidência Criativa no Fórum da Liberdade de Oslo, uma conferência anual de defensores dos direitos humanos. Al-Sharif nem sabia quem era Havel, o escritor dissidente tcheco que depois se tornou presidente, nem o que exatamente significava "dissidência".

Manifestar-se --e no exterior-- significava perder o emprego, disse al-Sharif, juntamente com a moradia da companhia.

Só mais tarde ela percebeu que estava seguindo os passos de mulheres que ousaram dirigir em 1990 e depois se tornaram párias sociais.

Hoje ela vive na Austrália com seu marido, um brasileiro, e seu filho de 3 anos. Ela pediu ao governo saudita o reconhecimento de seu segundo casamento, mas ainda não o obteve. O exílio é frustrante. "Quando você está lá, você não apenas fala. Você age", disse. "Sinto-me um pouco impotente hoje, do lado de fora."

E há seu primeiro filho, que vive na Arábia Saudita com o pai. Al-Sharif o visita sempre que pode. Ele lhe pergunta sobre todo tipo de coisas, como quando deve falar com uma garota.

"Eu digo: 'Abdalla, você é um menino muito inteligente. Vou lhe dar duas respostas. Uma em que eu acredito. E uma que vai mantê-lo longe de confusões'", disse ela.

Hoje ele tem 12 anos, e a mãe espera que um dia leia o livro e entenda suas opções. "Ele conta toda a minha história" 

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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