Ex-crítico de Trump no Twitter é hoje porta-voz da equipe jurídica do presidente

Julie Hirschfeld Davis e Maggie Haberman

Em Washington (EUA)

  • JUSTIN T. GELLERSON/NYT

    Marc Kasowitz (na esq.), advogado pessoal de Trump, e Mark Corallo, porta-voz da equipe jurídica de Trump, em Washington

    Marc Kasowitz (na esq.), advogado pessoal de Trump, e Mark Corallo, porta-voz da equipe jurídica de Trump, em Washington

Mark Corallo, o porta-voz da equipe jurídica pessoal do presidente Trump, usou o Twitter em abril para sugerir --por duas vezes-- que o vice-presidente Mike Pence, e não Trump, deve ser nomeado candidato republicano para presidente em 2020.

Em maio, ele postou vários comentários criticando a influência de Ivanka Trump, a filha do presidente, e de Jared Kushner, seu genro, na Casa Branca, sugerindo que eles fazem parte do "pântano" que o presidente prometeu secar.

Ainda no mês passado, Corallo elogiou profusamente Robert Mueller, o procurador especial que comanda a investigação de possível conluio entre a campanha de Trump e a Rússia para interferir na eleição de 2016. O presidente, por sua vez, descreveu a investigação como uma "caça às bruxas (...) liderada por pessoas muito más e conflituosas!".

"Bob é o melhor", escreveu Corallo em 18 de maio, acrescentando: "Se os fatos merecerem, ele recomendará a denúncia. Mais importante, se não houver nada, ele não o fará".

Corallo é um antigo agente conservador de relações-públicas que hoje é porta-voz do advogado de Trump, Marc Kasowitz, e de uma equipe jurídica cada vez maior, encarregada de defender o presidente em uma série de investigações. Suas postagens são um caso raro de um aliado de Trump manifestar em público críticas a um presidente que preza a lealdade e é conhecido como avesso a dissidências.

"Ei, senhor presidente, onde estão todas as 'vitórias'?", escreveu Corallo no mês passado, parecendo comparar Trump a Bill Clinton, que é do Arkansas, e suas famosas análises de palavras. "Ou, como o cara do Arkansas, o senhor vai me dizer que depende da definição de 'vitórias'?"

Corallo, que tem ampla experiência no combate aos escândalos de Washington, incluindo o impeachment de Clinton, não é funcionário da Casa Branca ou do governo Trump. Seria simples descartar seus comentários no Twitter como divagações de um cidadão comum na rede social.

Mas Trump, que não faz muita distinção entre suas declarações pessoais e oficiais, muitas vezes se irrita com pequenos deslizes, mesmo em um ambiente informal. E ele é especialmente protetor com sua filha mais velha. O presidente lamentou em particular com amigos que se sente mal por sua filha receber tantas críticas devido à ira dos eleitores por suas políticas e declarações.

Críticas semelhantes ao presidente já cancelaram cargos de outros prospectivos membros do governo. Dezenas de potenciais candidatos foram descartados da lista de Trump por terem falado mal dele durante a campanha presidencial.

Não está claro se Trump ou outros na Casa Branca tinham ciência dos comentários de Corallo, o que é notável já que ele é hoje um defensor público do presidente. O secretário de imprensa da Casa Branca, Sean Spicer, que costuma remeter as perguntas dos repórteres sobre as investigações à equipe de Kasowitz, não respondeu a um e-mail solicitando comentários.

Em uma resposta por e-mail ao que ele chamou de "ataque do The New York Times", Corallo se defendeu indicando seu longo apoio a Trump durante a campanha e salientando que já trabalhou com Mueller.

"Não fui tímido ao demonstrar admiração e apoio ao presidente Trump. Eu o considero e à sua família com a mais alta estima, tanto pessoal quanto profissionalmente", escreveu Corallo na última segunda-feira, acrescentando: "Nunca fui tímido ao expressar minhas opiniões como cidadão privado. Não sou alguém que aceita tudo, e o fato de que posso ter criticado seu governo algumas vezes é prova disso".

As críticas mais acentuadas de Corallo ao presidente no Twitter parecem ter sido feitas entre março e o início de maio, período após a posse em que as feridas auto infligidas de Trump ficaram mais aparentes.

"Mas ele tem consciência de que não pode ser reeleito sem sua base?", disse Corallo em uma mensagem em 14 de abril. "A sensação horrível do pântano é uma tendência crescente --e realmente ruim."

Em duas outras ocasiões, Corallo comentou: "Pence Haley 2020", em um aparente apelo para que Pence e Nikki Haley, o embaixador americano na ONU, se unissem na chapa presidencial republicana em 2020, quando Trump disse que pretende disputar a reeleição.

Ele criticou duramente o plano fiscal de Trump e sua decisão de não insistir nas verbas para o muro na fronteira, que foi uma promessa básica de sua campanha presidencial. E em março Corallo divulgou um editorial do "Wall Street Journal" dizendo que o presidente tinha desgastado a credibilidade do cargo que ocupa.

Os hábitos de Corallo no Twitter são muito coerentes. Ele apoia causas conservadoras, elogia Stephen Bannon, o estrategista-chefe de Trump, e denuncia a ascensão da "ala de Nova York" na Casa Branca, que é composta por Kushner, Ivanka Trump, Gary Cohn, o diretor do Conselho Econômico Nacional, e Dina Powell, uma vice-assessora de segurança nacional que, assim como Cohn, é uma ex-executiva do Goldman Sachs.

"Caro senhor presidente, isto é pior que simples 'má visão'", escreveu Corallo no mês passado, referindo-se ao fato de a família Kushner alardear sua conexão com Trump ao promover os vistos EB-5 para imigrantes investidores na China. "É sujo. O senhor poderia começar a secar o pântano retirando seus parentes."

Corallo referiu-se duas vezes a Ivanka Trump e Kushner como "JANKA", uma combinação de seus nomes, sugerindo que eram liberais e em certo ponto questionando se a filha do presidente deveria ter seu próprio chefe de gabinete.

A maioria dos tuítes de Corallo, porém, é de apoio a Donald Trump.

"POTUS é o Comandante em Chefe. Não 'Chefe Humanitário'. O primeiro dever é proteger a população americana de inimigos", tuitou Corallo na noite de 28 de janeiro, parecendo apoiar fortemente a primeira tentativa do presidente de proibir as viagens de imigrantes.

Em outro tuíte, em 7 de janeiro, antes da posse presidencial, Corallo avaliou em um debate se Jim Mattis, hoje secretário da Defesa, deveria poder escolher seu pessoal, mesmo que eles tivessem criticado o presidente.

"A lealdade deveria ser a primeira consideração do presidente Trump", escreveu Corallo.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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