Wenquan, a cidade chinesa onde mongóis e cazaques convivem por séculos

Edward Wong

Em Wenquan (China)

  • GILLES SABRIE/NYT

    Cidade de Wenquan, na China

    Cidade de Wenquan, na China

Wenquan significa "fontes termais" e a cidade, aninhada em um trecho fértil da Ásia Central, com certeza tem sua parcela delas. Florestas alpinas cobrem as montanhas ao redor. Ao sul há um grande lago onde águas azuis batem em suas costas pedregosas. Cavalos e ovelhas perambulam pelos pastos.

Mas a abundância de beleza natural não é o que trouxe os guerreiros mongóis a esta terra de vales amplos na China, vizinha ao atual Cazaquistão.

Os tsahar fizeram a longa jornada em caravanas de cavalos e camelos no século 18, sob ordens do imperador Qianlong e sua corte em Pequim. Qianlong, o maior dos governantes manchu da dinastia Qing, formou um vasto império chinês multiétnico por meio de conquistas e alianças. Os canatos, exércitos e tribos mongóis caíram sob seu governo, com frequência após terríveis batalhas.

Qianlong enviou um exército tsahar de uma estepe mongol próxima para os territórios recém-conquistados ao longo do limite noroeste do império, onde os tsahar formariam uma guarnição de fronteira.

"Meu pai viveu aqui desde pequeno", disse Xiu Yun, 48 anos, uma gerente de um hotel resort modesto construído em torno das fontes termais no centro da cidade. "Os pais dele também eram daqui. Meus familiares são descendentes dos mongóis que vieram sob Qing. Nós, mongóis, nos orgulhamos muito dessa história."

Ela acrescentou: "Sei falar mongol, assim como ler e escrever. A maioria dos mongóis aqui também".

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Nômade cazaque oferece passeios a cavalo para os visitantes em lago congelado, em Wenquan, na China

Nos últimos anos, as autoridades de Wenquan começaram a acentuar a herança mongol da cidade. Placas de rua são escritas tanto em chinês quanto em mongol. Um novo mural de concreto na rua principal, ao lado do hotel das termas, retrata as antigas caravanas que viajaram para o oeste.

Um museu no outro extremo da rua tem um grande mapa mostrando as três ondas de migração tsahar. Em um muro, um poema chamado "A Porta do Arco-Íris" presta tributo a essa história.

Por séculos, os tsahar alegavam ter o selo de Gengis Khan, que conferia legitimidade. Assim, a aliança deles com Qing (eles foram incorporados ao sistema de bandeira após uma rebelião fracassada em 1675) era importante para os governantes manchus. Isso reforçava a posição manchu aos olhos de outras tribos mongóis.

"De Gengis Khan aos imperadores da dinastia Yuan e cãs das tribos tsahar, há uma única linhagem", disse Oyunbilig Borjigidai, um professor de história manchu e mongol da Universidade Renmin da China, em Pequim. "O status e influência deles eram muito maiores do que os de outras tribos."

Outro grupo mongol, os dzungar, governavam Xinjiang no noroeste, na fronteira da Ásia Central, antes de Qianlong dizimá-los em uma famosa série de campanhas. Qianlong quis então construir guarnições nas fronteiras, de modo que os exércitos dos grupos étnicos tsahar, xibe e solon forem enviados.

"Eles tiveram um papel realmente importante no estabelecimento pela corte Qing de uma posição segura na fronteira noroeste e em seu desenvolvimento", disse Oyunbilig sobre os tsahar. "Eles têm motivo para se orgulhar."

Wenquan faz parte da Prefeitura Autônoma Mongol de Bortala, a base dos tsahar em Xinjiang. (O lar ancestral deles fica na atual Mongólia Interior, onde vive a maioria dos tsahar na China.) A prefeitura é um dos vários enclaves espalhados que surgiram das guarnições da era Qing. Mais ao sul, no fértil Vale de Ili, fica outro, o dos xibes, que falam uma língua semelhante ao manchu e são um dos 56 grupos étnicos oficiais da China.

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Estátuas comemoram a migração de mongóis três séculos atrás


Wenquan é uma cidade pacata além de uma passagem ao norte do Lago Sayram, o maior lago alpino em Xinjiang e onde pastores cazaques pastam suas ovelhas e oferecem passeios a cavalo aos turistas no verão. Wenquan conta com pequena rua principal comercial, com o hotel das termas em uma extremidade e o museu na outra.

Metade da cidade é tomada por um "bingtuan", um termo para centro de produção agrícola originado na era de Mao como guarnição do Exército de Libertação Popular. É uma variação moderna da missão dos Exército de Libertação Popular.

É difícil dizer onde a cidade termina e o bingtuan começa. Os dois se fundem perfeitamente. O bingtuan, o 88º Regimento da 5ª Divisão, tem ruas, casas, escolas, lojas e prédios de escritórios.

Enquanto viajava para uma reportagem em Xinjiang, eu dirigi até Wenquan para passar a noite lá. Eu estava curioso com a cidade porque meu pai, como membro do exército chinês, esteve postado nela de 1955 a 1957 para trabalhar em um bingtuan anterior, como assessor do chefe do partido.

Ele dormia com dois outros em um quarto com um fogão a carvão. A cidade tinha uma rua de terra margeada de casas. Não havia lojas na época. O balneário das termas ficava separado, não como parte do hotel, e meu pai gostava de se banhar lá. A casa de paredes de barro onde meu pai morou ficavam colina acima de um extremo da rua, no terreno do quartel-general do 5º Regimento.

"Eu olhava todo dia para as montanhas", ele me disse. "Alguém disse: 'Se você cruzar as montanhas, estará na Rússia'. O Cazaquistão ficava do outro lado."

Wenquan é um pergaminho de conquista militar. De certo modo, meu pai e um punhado de outros soldados da etnia han postados aqui na primeira década do governo do Partido Comunista eram descendentes espirituais dos tsahar.

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Vista aérea da cidade de Wenquan, que faz fronteira com o Cazaquistão


Apesar da presença de mongóis na área na época, a maioria das pessoas na cidade e nas montanhas ao redor era cazaque, e continuam sendo o maior grupo étnico em Wenquan. Na ocasião, meu pai viajava a cavalo por um dia para visitar os nômades nos pastos elevados e passar uma noite ou duas em suas iurtes (tendas circulares). Ele aprendeu a falar um pouco de cazaque.

Para visitar os mongóis na sede próxima da prefeitura de Bortala, meu pai e seus camaradas iam em uma carroça puxada a cavalo. Em Wenquan, não havia ênfase na linguagem ou cultura mongol. Após minha viagem, meu pai ficou surpreso ao saber das exibições de cultura mongol que vi.

Apesar das políticas étnicas do partido serem contenciosas, há um interesse renovado em algumas partes da China nas línguas e tradições de grupos étnicos menores. Às vezes isso conta com forte apoio do governo central, como no caso dos manchus. Em outros casos, são pessoas comuns ou autoridades comunitárias que movem a retomada.

"Há essa nova consciência subétnica", disse Peter C. Perdue, um historiador da Universidade de Yale que estudou a conquista Qing de Xinjiang. "Os tsahar querem mostrar que são um grupo étnico separado, não misturados com outros mongóis dali."

"Você ouve sobre os uigures o tempo todo ali", ele acrescentou, referindo-se ao grupo de língua túrquica em Xinjiang. "As outras minorias também estão tentando regenerar um senso de identidade própria, em um sentido um tanto diferente da forma como a República Popular da China atribui rótulos étnicos às pessoas."

Na noite em que passei na cidade, mongóis, cazaques, hans e uigures apareceram no balneário do hotel. Nos últimos anos, a violência envolvendo os uigures e han estourou em cidades oásis no sul de Xinjiang, o coração do território uigur, e na capital regional, Urumqi. Mas parecia não haver muita tensão em Wenquan.

Xiu, a gerente do hotel, tem um tio que escreve poemas tsahar para jornais locais e toca o topshur, um instrumento de duas cordas popular entre as tribos mongóis do oeste. O tio, Madega, 66 anos, tem uma empresa local que fabrica o instrumento. Ele vive com a filha, Wuyunhua'er.

"O dialeto tsahar ainda é amplamente falado nas famílias tsahar em Wenquan", disse Xiu. "Mas de modo geral, não sei dizer o quão bem preservada é a cultura tsahar em Wenquan."

Ao longo da última década, a prefeitura realiza um festival de verão chamado Naadam, no qual os mongóis celebram esportes tradicionais que incluem luta livre, arco e flecha e corrida de cavalo. Wenquan se tornou sede do festival há quatro anos. No ano passado, as autoridades mudaram o nome de Naadam, uma palavra comum mongol para um festival desse tipo, para Festival das Termas, em uma tentativa de atrair mais turistas.

Mas em outras formas, o festival ampliou a atenção à herança mongol da área.

No evento do verão do ano passado, disse Xiu, "cazaques e mongóis locais passaram a vender pela primeira vez trajes típicos, artesanato e relíquias, algo que foi muito popular entre os turistas".

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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