Agentes defendem que tecnologia é mais eficaz do que muro na fronteira dos EUA

Ron Nixon

Em Roma, Texas (EUA)

  • WILLIAM WIDMER/NYT

    Jonathan Hoyt, agente que patrulha a fronteira, monitora de dentro de sua cabine áreas de até 5 km de distância

    Jonathan Hoyt, agente que patrulha a fronteira, monitora de dentro de sua cabine áreas de até 5 km de distância

De uma cabana compacta e portátil nos arredores desta cidade de fronteira, Jonathan Hoyt tem um amplo campo de visão. Seu computador está ligado a câmeras e equipamento de vigilância que lhe permitem ver as balsas de borracha no lado mexicano do Rio Grande, a quase 5 km de distância, apenas movendo um minúsculo joystick.

Hoyt, um agente da Patrulha de Fronteira, está usando equipamento que o Departamento de Defesa trouxe de volta do Afeganistão, onde era usado para rastrear o Taleban. Ele faz parte de um potente arsenal que inclui torres, drones e aeróstatos, balões gigantes presos ao solo e que podem voar a até 1.500 metros de altitude. Helicópteros usando poderosos sensores infravermelhos e câmeras de vídeo também patrulham os céus.

Os agentes da lei dizem que o uso desse conjunto de tecnologias resultou em dezenas de milhares de detenções em uma fronteira que continua sendo o principal ponto de trânsito para tráfico de drogas e travessia ilegal de imigrantes para o país.

Apesar dos pedidos do presidente Donald Trump para construção de um muro imenso para proteção da fronteira, que o deputado Henry Cuellar, democrata do Texas, ridicularizou como sendo uma "solução do século 14 para um problema do século 21", a luta contra a imigração ilegal e o tráfico de drogas na fronteira entre México e Estados Unidos tem se tornado cada vez mais de alta tecnologia.

Trump propôs um aumento de US$ 2,9 bilhões para a segurança na fronteira, mas quase 60% desse aumento seria destinado ao muro na fronteira.

Drones Predator, "aeróstatos e torres preenchem as lacunas existentes ao longo da fronteira, onde a Patrulha de Fronteiras não conta com pessoal", disse David Aguilar, um ex-comissário da Agência de Alfândega e Proteção de Fronteiras e agora diretor da Global Security and Innovative Strategies, uma empresa de consultoria em Washington.

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Balão preso ao solo pode voar até 1.500 metros de altitude para ajudar na patrulha da fronteira


"Isso lhes permite ver o que está acontecendo na fronteira", disse Aguilar, e "posicionar os recursos em resposta à travessia de pessoas ou contrabando de drogas".

Isso pode ser visto facilmente na mesa de Hoyt. Em um dia recente, ele moveu seu joystick e deu um zoom em dezenas de pessoas no lado mexicano do Rio Grande. Ele repassou a informação a agentes próximos do rio, que se deslocaram rapidamente para pegá-las no lado americano.

O equipamento é fornecido pelo Departamento de Segurança Interna sob um programa do Departamento de Defesa, estabelecido para reutilização de equipamento militar antes usado no Afeganistão e Iraque.

A Segurança Interna também usa mais de 12 mil sensores ao longo da fronteira, centenas de leitores de placas de veículos nos pontos de entrada e scanners gigantes de raio X para trens e caminhões. A agência está planejando adicionar drones menores com capacidade de reconhecimento facial, além de equipamento adicional capaz de coletar informação biométrica.

A combinação de tecnologia cria o que especialistas da Segurança Interna dizem ser um muro virtual em algumas áreas da fronteira, que pode ser tão eficaz quanto um muro físico, porém a um custo bem menor.

Aguilar disse que a aquisição de nova tecnologia para segurança na fronteira deveria ser a prioridade da Segurança Interna, mais que a construção de um muro ou outras barreiras físicas e que a contratação de mais agentes para a Patrulha de Fronteiras.

"A tecnologia está definitivamente em primeiro lugar", ele disse. "São coisas que podem ser usadas em qualquer parte da fronteira. Há lugares onde simplesmente não é possível construir um muro."

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Policial retira para-choque de carro que estava com U$ 250 mil escondidos


Ao mesmo tempo em que a tecnologia facilita e acelera o rastreamento de contrabando e drogas, também facilita o rastreamento de pessoas inocentes.

Guadalupe Correa-Cabrera, uma professora da Universidade do Texas no Vale do Rio Grande e membro do Centro Wilson, em Washington, disse que o aumento da tecnologia na fronteira transformou cidades antes pacatas, onde as pessoas se deslocavam livremente de um lado a outro da fronteira, em zonas de vigilância em massa.

Cada movimento dos moradores é documentado e catalogado, ela disse, minando a privacidade dos moradores locais.

Apesar da preocupação dos defensores dos direitos de privacidade, Manuel Padilla Jr., o chefe da Patrulha de Fronteiras do setor do Vale do Rio Grande, disse que a área na verdade precisa de ainda mais tecnologia.

"Se olhar no momento para o Vale do Rio Grande, não temos conhecimento do que está acontecendo do outro lado da fronteira, por causa da falta de tecnologia", disse Padilla.

Ele disse que tecnologia adicional, como sensores capazes de penetrar em folhagem densa, é necessária porque os agentes da Patrulha de Fronteiras não podem chegar a muitos lugares ao longo do rio, onde não há estradas de acesso.

"Na ausência de podermos ir até lá, precisamos ao menos poder ver o que está acontecendo, para que possamos pegar o tráfico de drogas e outras atividades" antes que as pessoas responsáveis cheguem às cidades na região, ele disse.

O uso de tecnologia do Departamento de Defesa "nos possibilita ver coisas que antes nem mesmo sabíamos que existiam", disse Padilla. "Mas há necessidade de mais tecnologia para lidarmos com os desafios singulares no vale."

A tecnologia também é usada nos pontos de entrada, onde milhares de pessoas cruzam a fronteira diariamente. Ela é usada para tudo, desde a detecção de pragas agrícolas que representam uma ameaça à oferta de alimentos da nação até contrabando de drogas.

No ponto de entrada de Hidalgo, na fronteira perto da cidade mexicana de Reynosa, a tecnologia está em plena exposição.

À medida que os veículos se aproximam dos postos de controle, câmeras fixas registram imagens das placas dianteira e traseira dos veículos, do motorista e uma colorida do carro. Essas imagens então passam por um banco de dados para checar ficha criminal, violações da lei de imigração ou atividades terroristas.

As câmeras também armazenam em um banco de dados a localização do veículo e a data em que a imagem foi registrada, mesmo se a busca não disparar um alerta a respeito dos passageiros no veículo.

"Isso nos dá uma boa ideia de quem está atravessando a fronteira", disse Frank Longoria, um agente da Alfândega e Proteção de Fronteiras que é diretor assistente de operações de campo para segurança na fronteira. "Dentre as pessoas que cruzam a fronteira, 99% o fazem por um bom motivo, mas tentar pegar o 1% que está fazendo algo ilegal é que é o desafio."

Em um pequeno prédio não distante das pistas de entrada e saída, um agente da Alfândega e Proteção de Fronteiras, Eugene Jimenez, olhava o sistema de raio X, que lhe permite ver anomalias na estrutura de um veículo. Ele disse estar à procura de espaços onde deveria haver material sólido, ou sinais óbvios de alterações nos tanques de combustível, baterias ou outras áreas.

Poucos dias antes, após um cão farejador de dinheiro ter reagido a um Volkswagen Passat 2008 branco viajando para o México, Jimenez notou um espaço no para-choque quando o carro encostou para ser escaneado, ele disse.

Quando o para-choque foi removido, os agentes descobriram mais de US$ 250 mil escondidos em seu interior. O motorista foi preso.

"Eles podem ser bastante criativos", disse Jimenez. "Já encontramos metanfetamina em tanques de combustível, maconha arrumada para se parecer com melancias ou limões."

Os agentes da Alfândega e Proteção de Fronteiras usam versões maiores das máquinas de escaneamento para examinar ônibus e até mesmo trens à procura de contrabando de drogas e até mesmo pessoas.

Mas há limites ao uso de tecnologia na fronteira. Os drones Predators e aeróstatos, por exemplo, não podem voar durante tempestades ou ventos fortes.

As câmeras de alta resolução não conseguem penetrar na mata cerrada que cresce ao longo do Rio Grande, e animais selvagens e gado podem ativar os sensores, enviando agentes da Patrulha da Fronteira atrás de alarmes falsos.

E os cartéis das drogas adaptam constantemente seus métodos e encontram formas de driblar a tecnologia. Com o tempo, disseram agentes da Segurança Interna, os contrabandistas aprendem como o sistema funciona e ajustam sua estratégia.

Longoria disse que a mudança de tática por parte dos cartéis mostra que a tecnologia na fronteira está tendo o efeito desejado.

"O fato de estarem tentando encontrar formas cada vez mais criativas de contrabandear drogas e pessoas mostra que o sistema em camadas de tecnologia e pessoal está funcionando", ele disse. "Queremos dificultar o máximo possível a operação deles. As câmeras, balões e outros equipamentos nos permitem fazer isso."

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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