Lua de mel de Trump com a China começou de modo inesperado e já corre risco de acabar

Steven Lee Myers

Em Pequim (China)

  • Doug Mills/The New York Times

    6.abr.2017 - O presidente dos EUA, Donald Trump, se encontra com o presidente da China, Xi Jinping, em seu resort Mar-a-Lago, em Palm Beach, na Flórida

    6.abr.2017 - O presidente dos EUA, Donald Trump, se encontra com o presidente da China, Xi Jinping, em seu resort Mar-a-Lago, em Palm Beach, na Flórida

A curta e inesperada lua de mel que a China desfrutou com o presidente Donald Trump parece em risco, arruinando as esperanças em Pequim de que os dois países entrariam em um novo relacionamento mais focado em negócios.

A afirmação de Trump de que a China fracassou em pressionar a Coreia do Norte a por fim a seus programas nuclear e de mísseis balísticos significa que Pequim agora tem que confrontar a perspectiva de um relacionamento mais tempestuoso à frente, não apenas em torno da Coreia do Norte, mas também posições mais duras a respeito de comércio, câmbio e o Mar do Sul da China, que Trump deixou de lado enquanto buscava a ajuda do presidente Xi Jinping com Pyongyang.

"Apesar de apreciar enormemente os esforços do presidente Xi e da China para ajudar com a Coreia do Norte, isso não funcionou", escreveu Trump pelo Twitter nesta semana, antes de uma reunião de alto nível de autoridades chinesas e americanas em Washington, na quarta-feira, sinalizando uma linha mais dura.

Trump não detalhou o que poderia vir após essa conclusão, mas as opções na mesa com a Coreia do Norte, incluindo sanções mais coercitivas que poderiam atingir empresas chinesas que negociam com o país, um aumento do poderio militar e até mesmo uso de força, todas enfrentam fortes objeções por Pequim.

Ao mesmo tempo, Trump sugeriu previamente que estava evitando endurecer com as políticas comerciais da China em troca da ajuda de Xi para conter a Coreia do Norte, frequentemente enchendo o líder chinês de lisonja. Agora, Xi e seus colegas em Pequim precisam perguntar, de novo, se Trump está falando sério sobre as ameaças feitas durante sua campanha.

A perspectiva de um relacionamento turbulento é particularmente sensível no momento em que Xi se prepara para presidir o 19º Congresso Nacional do Partido Comunista, no segundo semestre. Apesar da reeleição de Xi para um segundo mandato de cinco anos não estar em dúvida, ele disse que deseja usar o encontro para consolidar sua autoridade e promover mudanças na liderança, e não deseja crises estrangeiras como distrações.

"O que Trump está dizendo é, não preciso mais de você na Coreia do Norte, portanto talvez devêssemos resolver essas outras questões, como o comércio", disse John Delury, um especialista em China e Coreias da Universidade Yonsei, em Seul.

A resposta oficial da China foi contida, porém tensa.

"Preciso dizer que o nó do problema da Península Coreana e o foco do conflito não é a China", disse um porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Geng Shuang, em uma coletiva na quarta-feira.

Ele acrescentou: "A solução da questão da Península Coreana exige esforço conjunto e não funcionará caso dependa apenas da China". Ao mesmo tempo, ele disse que o "papel da China é indispensável".

A declaração por Trump, apesar de envolva em palavras de apreço por Xi, surpreendeu e irritou analistas em Pequim. A China adotou passos significativos para endurecer o comércio com a Coreia do Norte, eles disseram, e os Estados Unidos, como sempre, não deram tempo suficiente para que as sanções fizessem efeito.

"A China fez o melhor que pôde e as sanções estão funcionando", disse Lu Chao, diretor do Instituto de Estudo da Fronteira, na Academia Liaoning de Ciências Sociais, uma organização de pesquisa do governo em Shenyang. "Com o tempo, elas terão um maior impacto sobre a economia."

Até mesmo conversações diretas com o líder norte-coreano, Kim Jong Un (que parecem menos prováveis após a morte de Otto F. Warmbier, o estudante universitário americano que foi solto pela Coreia do Norte em coma na semana passada), poderiam deixar a China sem uma palavra em qualquer resultado negociado.

Cheng Xiaohe, um professor associado de relações internacionais da Universidade Renmin da China, em Pequim, disse que o governo Xi aprendeu a não interpretar literalmente as mensagens de Trump pelo Twitter.

"O governo chinês presume que os tuítes de Trump não necessariamente representam o governo", ele disse. "O governo não pode levá-los muito a sério. Trump muda o tempo todo."

Ele acrescentou que a nova rodada de reuniões em Washington ocorre "em um período crítico" e que o governo tentará manter o momento positivo dos primeiros meses da presidência Trump.

Autoridades em Pequim expressaram confiança de que seus gestos para Trump, incluindo a suspensão na terça-feira de um embargo de 14 anos à importação de carne bovina americana, aplacariam Trump, cuja plataforma como candidato sinalizava uma política de maior confrontação.

"Por que eu chamaria a China de manipuladora cambial quando está trabalhando conosco no problema da Coreia do Norte?" ele escreveu em um tuíte em abril, defendendo a reversão da promessa de campanha.

A visita de Xi em abril a Mar-a-Lago, o clube de Trump em Palm Beach, Flórida, ressaltou a importância que a China dá às relações com os Estados Unidos, e as autoridades esperam que a cordialidade inicial entre os dois líderes estabeleceria o tipo de parceria não confrontativa que Pequim prefere.

A disposição da China em ajudar com a Coreia do Norte, ou pelo menos ser vista como ajudando, se transformou na base desse relacionamento. Nas últimas semanas, entretanto, funcionários da Casa Branca sinalizaram uma crescente frustração com Pequim, argumentando que a aposta de Trump não se pagou. O presidente parece ter chegado à mesma conclusão.

"Nós entendemos que os americanos estão furiosos com a morte do estudante", disse Jin Qiangyi, diretor do Centro para Estudos da Coreia do Norte e do Sul da Universidade de Yanbian, em Yanbian, perto da fronteira da China com a Coreia do Norte. Mas a imposição de novas sanções contra empresas chinesas apenas levaria a mais problemas, ele disse.

"Os Estados Unidos podem querem cobrir a Coreia do Norte de sanções para que abandone seus programas nucleares, mas duvidamos que isso funcionará", ele disse. "Trata-se de um país que conseguiu enfrentar décadas de sanções."

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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