Novo príncipe herdeiro favorece aliança de Trump com Arábia Saudita

Mark Landler e Mark Mazzetti

Em Washington (EUA)

  • Bandar Algaloud/Courtesy of Saudi Royal Court/Handout/Reuters

    O recém-anunciado príncipe herdeiro da Arábia Saudita, Mohammed bin Salman

    O recém-anunciado príncipe herdeiro da Arábia Saudita, Mohammed bin Salman

O presidente Donald Trump não perdeu tempo na última quarta-feira e telefonou para o recém-nomeado príncipe herdeiro da Arábia Saudita, menos de 24 horas depois de o rei Salman ter promovido o príncipe Mohammed bin Salman, seu filho de 31 anos. Trump lhe deu os parabéns e comemorou a cooperação da monarquia em erradicar o financiamento de terroristas e outras questões.

Ainda mais que Karel Handel, o republicano que ganhou um lugar fortemente disputado na Câmara em uma eleição especial na Geórgia nesta semana, Mohammed bin Salman era o candidato favorito de Trump --nesse caso, para a luta insidiosa pelo controle da Casa de Saud.

Trump considera o príncipe um aliado crucial em seu esforço para solidificar uma aliança muçulmana sunita no golfo Pérsico. Salman, que também é o ministro da Defesa saudita, favorece uma linha de confronto com o Irã, que combina com a posição hostil do governo Trump sobre esse país. E ele defende o embargo da Arábia Saudita ao vizinho Catar, o que Trump elogiou porque, assim como os sauditas, ele acusa os catarianos de financiar grupos extremistas.

O príncipe também é um favorito do genro do presidente, Jared Kushner.

Kushner começou a cultivar Salman logo depois da eleição de Trump. Quando o príncipe visitou Washington em março, jantou com Kushner e sua mulher, Ivanka Trump, na casa destes. Quando o casal acompanhou Donald Trump na visita à Arábia Saudita no mês passado, o príncipe retribuiu o convite e recebeu Kushner e Ivanka para jantar em sua casa.

"Existe uma certa compatibilidade aí", disse Jon Alterman, diretor do Programa de Oriente Médio no Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais em Washington. "O presidente e seu séquito pensam que colegas bilionários que sentem coceira para fazer as coisas fazem o mundo girar."

Kushner e Salman, segundo autoridades graduadas, trabalharam estreitamente coreografando a viagem de Trump à Arábia Saudita, que produziu um compromisso renovado de dezenas de líderes árabes e muçulmanos de combater o extremismo em seus países e fechar a torneira do financiamento a grupos extremistas.

Para assessores de Trump, essa viagem representa um destaque de sua política externa até agora, e eles atribuem ao príncipe o que uma autoridade descreveu como prometer menos e entregar mais.

A posição destacada de Salman ficou aparente nos primeiros dias do governo Trump. Autoridades importantes dos EUA disseram que o país devia ajudar a Arábia Saudita em sua campanha no Iêmen contra os rebeldes houthis apoiados pelo Irã, em parte porque o sucesso ou fracasso da campanha militar poderia afetar o destino do príncipe na batalha pela sucessão no reino.

Durante a primeira visita do príncipe Salman à Casa Branca, em março, o presidente o recebeu para uma reunião no Salão Oval e um almoço formal na Sala de Jantar de Estado. No dia seguinte, Salman passou quatro horas no Pentágono com o secretário da Defesa, Jim Mattis.

Kushner também espera o apoio de Salman, ou pelo menos sua bênção, em uma iniciativa de paz entre Israel e os palestinos. Na última quarta-feira, Kushner fez sua primeira grande incursão no processo, encontrando-se em Jerusalém com o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu e na Cisjordânia com Mahmoud Abbas, presidente da Autoridade Palestina.

"As autoridades americanas e a liderança israelense salientaram que forjar a paz levará tempo", disseram autoridades da Casa Branca em um comunicado. Mas membros do governo disseram que o processo seria beneficiado se os grandes países árabes, notadamente a Arábia Saudita, aprovassem o conceito de um acordo.

Especialistas em Oriente Médio disseram que Salman acredita que a Arábia Saudita deve ter um relacionamento normal com Israel no futuro. Mas vários deles manifestaram dúvida de que o príncipe queira que os sauditas sejam uma parte importante de uma negociação israelense-palestina.

Enquanto o governo Trump claramente considera Salman um reformista --indicando Vision 2030, seu ambicioso projeto para modernizar a economia e a sociedade sauditas--, outros advertiram que a Casa Branca poderá se decepcionar.

"Há outras pessoas mais circunspectas", disse Alterman. "Elas se perguntam se ele tem o temperamento certo, se ele tem as habilidades políticas certas."

Essa ambivalência vigorava no governo Obama, que foi apanhado desprevenido pela rápida ascensão do filho favorito do rei Salman. Mohammed bin Salman, ao contrário de outros membros importantes da realeza, não estudou no Ocidente, não tem um histórico de serviço no governo e era quase desconhecido em Washington quando galgou à posição de vice-príncipe herdeiro, em 2015.

Ele também assumiu o título de ministro da Defesa e quase imediatamente se tornou a face pública da campanha militar lançada às pressas pelo reino contra os houthis no Iêmen. Os primeiros meses caóticos da campanha lhe deram a reputação em algumas áreas do governo Obama de rebelde e "cabeça quente".

Também havia o problema de encontrar alguém em Washington para desenvolver uma relação com o jovem príncipe. O homólogo de Salman no lado americano, o secretário da Defesa, Ash Carter, tinha pouca inclinação para dedicar tempo a alimentar laços com o príncipe.

O secretário de Estado, John Kerry, assumiu essa missão: convidou Salman para um jantar árabe de Ramadã em sua casa em Georgetown e se reuniu com o príncipe em maio de 2016 no iate de luxo Serene, que o saudita comprou de um bilionário russo.

Mas havia questões que nunca foram superadas. Um ponto de atrito especial eram as tentativas do governo Obama de se reaproximar do Irã.

Em um encontro na Turquia em novembro de 2015 entre o presidente Barack Obama e o rei Salman, o príncipe entrou no que autoridades americanas disseram que foi um sermão sobre o que ele considerava fracassos do governo americano no Oriente Médio.

Não existem essas diferenças com o governo Trump, porém. Autoridades sauditas elogiaram Trump por bombardear a Síria e sua posição belicosa diante do Irã.

O governo Trump também parece ter tido pouca preocupação em demonstrar favoritismo na rivalidade entre os príncipes Salman e Mohammed bin Nayef, que até quarta-feira era o primeiro na linha sucessória do trono saudita.

Nayef tinha ligações estreitas com autoridades da segurança nacional no governo Obama. Mas a mudança política nos EUA neste ano trouxe uma virada no destino de Nayef, que perdeu muitos contatos.

A visita em março à Casa Branca de Mohammed bin Salman irritou tanto Nayef que ele manifestou seu incômodo ao governo americano utilizando canais não oficiais. 

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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