Senegalenses encaram 'missão suicida' rumo à Europa para salvar famílias da miséria

Dionne Searcey e Jaime Yaya Barry

Em Tongo (Senegal)

  • Xaume Olleros/The New York Times

    Salmata Boullo Diallo, que perdeu seus dois filhos, Amadou e Gibbe; ambos morreram em diferentes naufrágios no Mediterrâneo

    Salmata Boullo Diallo, que perdeu seus dois filhos, Amadou e Gibbe; ambos morreram em diferentes naufrágios no Mediterrâneo

Amadou Anne, o filho mais velho, foi o primeiro a tentar. "Se você tem uma forma de chegar lá, talvez deva tentar", seu pai lhe disse. A jornada exigia que se cruzassem milhares de quilômetros de desertos e mares impiedosos para chegar até a Europa. Meses se passaram sem notícias. Então veio o telefonema.

Amigos na França viram uma lista de migrantes que haviam se afogado. O nome de Amadou estava nela.

"Eu estava bem ali, e chorei", disse sua mãe, Salmata Boullo Diallo, perto do complexo de casas da família em uma vasta área de plantações de amendoim nessa parte remota do Senegal. 

A perda não parou por ali. O irmão mais novo de Amadou, Gibbe, também tentou chegar até a Itália. Ele também morreu no mar.

Xaume Olleros/The New York Times
Samba Issa Anne mostra foto de seu filho Amadou (à dir., com um amigo)

Seus destinos, selados em jornadas há quase dois anos, foram iguais aos de tantos outros nesta região, onde os jovens muitas vezes recaem em três categorias inclementes: aqueles que conseguem chegar à Europa, aqueles que ficam presos em algum lugar ou são deportados no meio do caminho, e aqueles que morrem tentando.

"Se eles tivessem conseguido, isso realmente teria mudado as coisas para nós", disse Diallo.

O mesmo mar que engoliu os irmãos Anne em jornadas diferentes no Mediterrâneo já ceifou as vidas de mais de 2.100 migrantes e refugiados este ano. Dessas mortes, 95% ocorreram na rota central entre a Líbia e a Itália, uma passagem usada principalmente por africanos subsaarianos que a Organização Internacional da Migração chama de "a rota mais mortífera que os migrantes usam na Terra".

No entanto, sempre há mais gente tentando. Até o dia 21 de junho, quase 72 mil migrantes haviam conseguido chegar à costa da Itália este ano, um aumento de 28% em comparação com o mesmo período em 2016, de acordo com a organização.

O fluxo de migrantes dessa região—Nigéria, Guiné, Gâmbia, Costa do Marfim e Mali—vem crescendo. Em 2016, o número de senegaleses a fazer a jornada quase dobrou desde o ano anterior.

Xaume Olleros/The New York Times
Habitação da família Anne, em Tongo (Senegal)

Este é um dos países mais desenvolvidos da África Ocidental. Na capital senegalesa, Dacar, prédios altos ocupam o centro da cidade e restaurantes à beira-mar cobram preços de Nova York por pratos de pescados locais. Descobertas recentes de petróleo e gás offshore oferecem esperanças de transformação para o país, atraindo empresas internacionais como a Total para fechar acordos de exploração.

No entanto, quase 47% da população senegalesa vive em pobreza, de acordo com o Banco Mundial. Em áreas rurais, quase dois de cada três habitantes são considerados pobres.

A região dos irmãos Anne, esparsamente povoada, está entre as mais pobres do Senegal. Pelo menos 110 pessoas daqui morreram em algum ponto da rota de migração desde 2015, de acordo com autoridades locais. Essa área perdeu 17 de seus homens em um único episódio, um naufrágio em abril de 2015 que matou mais de 800 pessoas.

"Não temos maquinário para cultivar a terra, não temos chuva e agora não temos jovens", disse Alassane Diallo, prefeito do vilarejo vizinho de Koussan.

Nessa paisagem arenosa, com seu calor escaldante e seus gordos baobás, o principal meio de sobrevivência é a agricultura. O tipo de vida que ela proporciona fica completamente exposto nos pequenos complexos de casas de barro de um quarto: um mini-rebanho de três ovelhas, um pedaço de espuma para amaciar uma cama de gravetos, algumas trocas de roupas e chinelos de dedo.

Xaume Olleros/The New York Times
Halimata e Kadidia Anne trabalham na habitação da família em Tongo

Mas alguns dos complexos que se veem ao longo das esburacadas estradas de terra aqui servem como chamariz para a Europa. Casas de alvenaria em vez de barro. Um automóvel estacionado do lado de fora. Uma antena parabólica brotando do chão. Um iPhone.

Tudo isso vem do dinheiro enviado da Europa, de migrantes que conseguiram chegar. Eles são heróis locais, invejados por todos.

"Um jovem senegalês sempre se cobre de vergonha e culpa quando vê sua própria mãe tentando pagar as contas de casa, sem poder sustentar e ajudar seus pais", disse Ousmane Sene, diretor do West African Research Center em Dacar.

Alguns pais e esposas pressionam seus filhos e maridos a fazer a viagem. A vida no vilarejo é tão isolada que muitas vezes eles não fazem ideia dos riscos da viagem. A pressão para tentar pode ser tão intensa que alguns homens que não conseguem e são deportados nunca mais voltam para casa. Envergonhados, eles preferem que suas famílias pensem que eles morreram.

Moussa Kebbe, que reside na área, tentou fazer a jornada em 2014. Ele vendeu sua casa para financiar a viagem, que incluía 16 dias no deserto com tão pouca água que ele foi obrigado a beber sua própria urina. Quatro pessoas em seu veículo morreram de sede, ele conta.

Uma vez que Kebbe chegou à Líbia, ele trabalhou em construção civil e limpou banheiros para tentar ganhar dinheiro suficiente para pagar o barco para a Itália. Oficiais de imigração líbios o puseram na cadeia por três meses antes de ele ser deportado.

Ele voltou para casa de mãos abanando, em uma situação pior do que quando partiu. Kebbe explicou para sua mulher o que havia acontecido. Ela chorou e implorou para que ele tentasse novamente.

"É uma missão suicida", disse Ousmane Thiam, que também não conseguiu chegar à Europa.

No minúsculo complexo da família Anne, as cabanas de Amadou e de seu irmão Gibbe, uma ao lado da outra, continuam vazias, com uma bicicleta quebrada encostada na parede de barro de uma delas.

Ninguém se deu conta de que a jornada seria tão perigosa, disse a mãe dos homens, Boullo Diallo. "Nós só havíamos ouvido histórias de sucesso", ela disse, balançando a cabeça.

Antes de partir, Amadou, 36, pediu a seu irmão que esperasse. Mas Gibbe, 28, que trabalhava em Dacar como oleiro, achava que ele poderia ganhar mais na Europa. Ansioso para seguir seu irmão, ele partiu sozinho, mesmo antes de saber do destino de Amadou.

"Não fazíamos ideia de onde ele estava", disse Boullo Diallo.

O nome de Gibbe apareceu na lista de migrantes mortos poucas semanas depois do de seu irmão.

Xaume Olleros/The New York Times

A família Anne contava com outros filhos para ajudar financeiramente. Um deles vivia no Gabão, onde havia encontrado trabalho. Alguns meses atrás, ele veio ao vilarejo. Ele adoeceu de repente e morreu, de causas naturais, de acordo com a família.

Outro filho, Adama Anne, planejava partir para a Europa ou algum outro lugar promissor, disse sua família.

Mas ele também estava doente. Algumas semanas atrás, enquanto o "The New York Times" entrevistava a família no vilarejo, Adama começou a tossir violentamente. Seu pai tentou ajudá-lo a caminhar de volta para sua cabana, mas o homem desabou nos braços de seu pai e ficou gelado.

"Ele se foi", chorou seu pai. "Ele finalmente se foi."

Agora cabe a Arouna Anne, o último homem da família, conseguir uma vida melhor para seus pais e os filhos que seus irmãos mortos deixaram para trás. Ele tem somente 14 anos de idade.

Arouna sabia que ele não conseguiria sustentar a família vivendo em seu pequeno vilarejo. Ele partiu para uma cidade que fica a algumas horas de distância, ao leste.

Ele chegou na quarta-feira, dia de mercado, carregando somente uma troca de roupa e o equivalente a US$ 33 (R$ 110). Quando escureceu, ele viu algumas crianças lendo em árabe do lado de fora de uma grande casa. Ele entrou e pediu ajuda para o professor. Hoje Arouna vive ali junto com três outros meninos, dormindo em um colchão feito de palha de arroz.

Ele pensa neles com frequência—em Amadou, o austero, sempre tentando discipliná-lo, e em Gibbe, o piadista, sempre pregando peças.

Uma vez, Arouna acompanhou Gibbe nas plantações. Ele se virou e Gibbe havia desaparecido, tendo se escondido em uma árvore. Imitando sons de babuínos, ele saltou sobre Arouna, que ficou apavorado e saiu correndo.

"Todos riram quando contamos o que aconteceu", disse Arouna, rindo tanto que mal conseguia falar.

Arouna não vê seus pais há seis meses. Ele envia um pouco de dinheiro para eles de vez em quando, mas não é suficiente.

"Sou o único filho que restou agora", ele disse. "Preciso sustentar a família".

Arouna conhece bem os riscos da viagem para a Europa. Um de seus amigos de sua cidade também tentou a viagem há pouco tempo e morreu na Líbia.

Arouna diz que alguma hora ele irá ao Gabão ou ao Congo, para trabalhar nas minas. "Lá não é arriscado como na Líbia".

Tradutor: UOL

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