Ucranianos ganham acesso sem visto à Europa e se veem libertados da mentalidade soviética

Andrew E. Kramer

Em Moscou (Rússia)

  • Ye Pingfan/Xinhua

    22.jun.2017 - Presidente da Ucrânia, Petro Poroshenko (na esq.), cumprimenta o presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk, em reunião na cúpula da União Européia em Bruxelas

    22.jun.2017 - Presidente da Ucrânia, Petro Poroshenko (na esq.), cumprimenta o presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk, em reunião na cúpula da União Européia em Bruxelas

Desde 11 de junho, quando 30 países europeus começaram a dispensar os vistos para curta permanência para os ucranianos, como um incentivo para que Kiev siga adiante com suas reformas, dezenas de milhares de ucranianos já visitaram esses países.

Mais de 20 mil ucranianos aproveitaram a mudança de regra, alguns saindo dos aeroportos de destino erguendo os punhos fechados para comemorar o fim da dor de cabeça burocrática. Nos dias de pico, segundo o serviço de fronteiras da Ucrânia, cerca de 5.000 de seus cidadãos partem para países europeus.

Eles não podem trabalhar e às vezes têm de mostrar a passagem de volta. Mas a mudança é um raro ponto de otimismo para a Ucrânia, país imerso na guerra com a Rússia, perturbado por problemas econômicos e que luta para conseguir uma reação simpática do governo Trump, que busca estreitar os laços com Moscou.

"Foi tudo muito rápido e confortável", disse Timofey Matskevich, um pequeno empresário que passou com sua mulher, Daria, por um aeroporto próximo a Barcelona.

"Não fizeram perguntas, carimbaram nossos passaportes e disseram 'Bem-vindos à Espanha'", disse Matskevich em um bate-papo online, no apartamento onde está hospedado, que segundo ele tem uma vista maravilhosa da praia e do Mediterrâneo.

"É uma mudança de mentalidade", disse ele. "Você tem mais liberdade para ir aos lugares, para ver as coisas. Para que a mentalidade do país mude, para livrar-se do legado soviético, é preciso ver outras partes do mundo."

Enquanto a dispensa de visto para os ucranianos é a maior alteração do tipo para os antigos países soviéticos, a maioria dos 45 milhões de habitantes da Ucrânia não tem condições de passar férias no exterior. Os cidadãos da Geórgia e da Moldova já qualificados para viagens curtas sem visto para a maior parte da Europa ocidental, e os dos países bálticos, que são membros da União Europeia, podem ir e vir à vontade.

Poroshenko comemorou a mudança abrindo uma simbólica "porta para a Europa", montada sobre uma plataforma em um cruzamento de fronteira com a Eslováquia. Para ajudar a ilustrar o que há para oeste, a porta foi cercada de paredes que mostravam a Torre Eiffel, o Coliseu em Roma, moinhos holandeses e outras atrações turísticas europeias.

Poroshenko chamou a dispensa de visto de "uma saída final de nosso país do império russo", e brincou que agora "as palavras 'de volta à URSS' só serão ouvidas na canção dos Beatles ["Back in the U.S.S.R", de 1968]."

Três anos atrás, dezenas de milhares de ucranianos, incluindo Matskevich, saíram às ruas de Kiev em protesto contra o governo pró-russo da época e para mostrar apoio a um pacto comercial entre a Ucrânia e a UE, chamado Acordo de Associação.

A Rússia reagiu com uma intervenção militar, em que anexou a Crimeia e enviou forças para duas províncias no leste da Ucrânia, em uma guerra que já matou mais de 10 mil pessoas. Em meio a essa grave crise, a história da Ucrânia passou a ser manter a Rússia fora, e não entrar na Europa ocidental.

A UE continuou pressionando o governo de Kiev para aderir às normas europeias, não apenas em questões técnicas como os padrões agrícolas, mas também no combate à corrupção, sem muito efeito.

Nos jornais, os ucranianos desanimados leem diariamente sobre parlamentares ou autoridades econômicas que forram os próprios bolsos com dinheiro público.

A mudança de regras para vistos permitiu que Poroshenko reivindique o crédito por uma conquista popular da virada da Ucrânia para o Ocidente, na esperança de que venham medidas mais substanciais, segundo Kadri Liik, um membro sênior de política no Conselho Europeu de Relações Exteriores.

"Isso dá muita força aos setores da sociedade que pressionam por reformas", disse ela.

"As viagens sem visto são a primeira coisa que a população ganhou com o Acordo de Associação", disse Matskevich. "É um passo para nosso país entrar no mundo normal, na sociedade normal."

A abertura ocorreu suavemente, com algumas exceções. Uma mulher que não tinha passaporte para seu filho de 8 anos tentou passá-lo por uma fronteira da Polônia dentro de uma mala. Foram descobertos, multados e deportados.

De modo geral, porém, a mudança fez ucranianos entusiasmados postarem mensagens no Facebook sobre suas férias europeias.

"Hurra! Funcionou!", escreveu uma viajante, Ivetta Delikatnaya, depois de passar pelo controle de passaportes em Toulouse, na França.

Com a redução das restrições de viagem, as companhias aéreas de baixo custo estão olhando cada vez mais para a Ucrânia. A Wizz Air começou há pouco tempo a operar voos entre Lviv e Berlim por apenas US$ 22 cada trecho (cerca de R$ 74). A Ryanair está lançando voos para Kiev e Lviv.

Andriy Homanchuk, um veterano da guerra no leste da Ucrânia, publicou no Facebook que conseguiu, de alguma forma, curtir um fim de semana em Bruxelas por menos de US$ 100, sua primeira viagem à Europa ocidental.

"O regime sem vistos funciona", escreveu ele com animação, da Bélgica. "Você não precisa de documentos, nem conhecer alguma língua. Pode passar um fim de semana." 

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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