Austrália luta contra ataques sexuais nos campi universitários

Jacqueline Williams e Damien Cave

Em Canberra (Austrália)

  • Facebook/Reprodução

    22.jun.2017 - A estudante Justine Landis-Hanley sofreu uma enxurrada de comentários pejorativos após escrever coluna sobre assédio sexual nos campi

    22.jun.2017 - A estudante Justine Landis-Hanley sofreu uma enxurrada de comentários pejorativos após escrever coluna sobre assédio sexual nos campi


Estudantes universitárias que se manifestaram contra assédio e ataques sexuais nos campi universitários australianos voltaram aos seus quartos de dormitório para encontrá-los alagados.

Outras voltaram para casa e encontraram portas pichadas ou colchões urinados.

Quando Emily Jones, uma estudante do terceiro ano, pediu a um grupo de homens que parasse de cercar as mulheres durante uma tradição de bar (na qual os homens baixam suas calças e cantam quando a canção australiana "Eagle Rock" é tocada), ela foi condenada ao ostracismo pelos amigos e também criticada pela mídia de notícias por ter se juntado à "polícia da diversão".

"Em vez de fazerem uma concessão por tantas mulheres estarem se sentindo incomodadas, eles preferiram continuar se divertindo", disse Jones, 22 anos, em uma entrevista no campus daqui. "Eu fiquei desolada."

A Austrália apresenta alguns dos mais altos índices do mundo de ataques sexuais denunciados no mundo, segundo a Organização das Nações Unidas, e ao longo do ano passado uma série de ataques em campi universitários, misoginia ritualizada e retaliação cruel provocaram uma conversa nacional sobre gênero, poder e prestação de contas.

Um relatório de janeiro pelo grupo de defesa End Rape on Campus Australia (Fim do Estupro no Campus, Austrália) apontou que as universidades com frequência falham em dar apoio às vítimas de ataques sexuais e assédio. Em alguns casos, disse o relatório, elas buscam ativamente encobrir os ataques sexuais para evitar danos à reputação.

E apesar do problema ser global, cada novo escândalo aqui (apenas nesta semana, uma mulher jovem acusou um membro do Partido Verde de "date rape", ou estupro em encontro) leva mais mulheres a se manifestarem, assim como uma resposta furiosa do que muitos australianos consideram um elemento central da identidade do país: sua cultura hipermasculinizada.

"De fato, o padrão é que quando as estudantes expõem o sexismo ou misoginia em sua própria universidade, elas quase sempre sofrem ostracismo e uma reação contrária horrenda, incluindo represálias", disse Nina Funnell, uma defensora das vítimas e escritora. "Isso é incrivelmente comum na Austrália."

As autoridades das universidades australianas, especialmente as duas universidades de elite que enfrentam as maiores críticas, a Nacional da Austrália e a de Sydney, insistem que estão tratando do problema de frente.

A Universidade de Sydney disponibilizou recentemente uma linha telefônica dedicada e melhorou o treinamento de seus funcionários, disse Tyrone Carlin, o vice-presidente. A Universidade Nacional da Austrália (UNA) introduziu um curso de treinamento de consentimento sexual para todos os alunos do primeiro ano neste ano, disse Richard Baker, vice-presidente da universidade.

A Comissão de Direitos Humanos Australiana está realizando um levantamento envolvendo 39 mil estudantes em 39 universidades australianas para mapear a extensão plena do problema.

"Todas as universidades estão dedicando um esforço enorme", disse Belinda Robinson, presidente-executiva da Universidades da Austrália, uma associação das universidades do país, que ajudou a financiar o levantamento. "Esta abordagem envolvendo todo o setor é a primeira no mundo."

Mas muitas estudantes questionam o compromisso das universidades. Elas dizem que ainda é comum queixas permanecerem sem resposta da universidade; homens acusados de, digamos, dar nota para os corpos das mulheres nas redes sociais receberem pouca punição; haver pouca coordenação nacional.

As ativistas dizem que suas exigências são razoáveis: uma linha telefônica dedicada que ofereça ajuda de um profissional treinado em trauma, treinamento obrigatório de consentimento sexual e um sistema claro e transparente para investigação das queixas.

Nos Estados Unidos, onde ataques sexuais nos campi continuam sendo um problema, educação obrigatória de consentimento está se tornando cada vez mais comum. Bancos de dados de casos de ataque sexual nas universidades podem ser facilmente checados online, e devido a uma lei federal de 1972 que exige acesso igual ao ensino superior, toda instituição educacional americana que recebe fundos federais é obrigada a ter um coordenador(a) que possa ser contatado(a) para denúncia de discriminação sexual, abuso sexual ou violência.

Na Austrália, muitas estudantes dizem que pedidos por políticas semelhantes foram rechaçados ou adiados mesmo enquanto os relatos de ataques sexuais atingiam o recorde dos últimos seis anos no ano passado.

Na UNA e na Sydney, os problemas há muito são óbvios. No ano passado, em uma carta aberta às autoridades da Universidade de Sydney, as mulheres que serviram no centro acadêmico escreveram: "Por toda uma década nós levantamos a questão dos ataques e abusos sexuais no campus junto à administração. Por toda uma década fomos recebidas com resistência à mudanças."

Na Universidade de Sydney, por exemplo, o Grupo de Trabalho para Comunidades Mais Seguras, formado há mais de um ano para lidar, em parte, com ataques sexuais, é visto por algumas estudantes como sendo apenas fachada.

"Eu estava esperançosa, talvez ingenuamente, ao ingressar lá, achando que poderíamos levar as preocupações das estudantes e que elas seriam tratadas", disse Anna Hush, 23 anos, uma estudante de filosofia que participou do grupo no ano passado. "Mas se resumia a eles nos dizerem o que estavam fazendo, em vez de contribuirmos para as decisões sendo tomadas."

Alguns homens no campus reconheceram um problema maior, "o tratamento dado às mulheres como objetos sexuais em primeiro lugar", como colocou Harry Licence, 20 anos, um aluno do segundo ano de mídia e comunicações.

No mais recente escândalo, um estudante da Saint Paul's, uma faculdade de elite, postou um longo texto no Facebook comparando sexo com mulheres gordas a "arpoar uma baleia" e oferecendo conselhos sobre como "se livrar de algumas garotas" depois de ter relações com elas.

Licence, que tem amigos na Saint Paul's, disse que sempre que há concentração de estudantes privilegiados de uma escola apenas para meninos, há falta de experiência no tratamento das mulheres como iguais.

"Acho que há problemas significativos resultantes de viver dentro dessa bolha", ele disse.

Em Canberra, Jones ainda está lidando com as consequências desse isolamento.

O incidente "Eagle Rock" aconteceu na pista de dança de um bar de seu antigo dormitório, Burton and Garran Hall, durante uma festa em agosto passado. Desde que ela escreveu em abril sobre as críticas que recebeu após reclamar a respeito, ela não mais se sentiu bem-vinda lá.

Os moradores de seu dormitório começaram a tocar em alto volume pelos corredores "Eagle Rock", um rock australiano de 1971 tocado com frequência nos jogos de rúgbi e nos bares. Alguns de seus amigos pararam de falar com ela e passaram a ignorá-la no refeitório, táticas comuns, disseram especialistas.

Karen Willis, diretora executiva dos Serviços Contra Estupro e Violência Doméstica da Austrália, disse que outros atos comuns de retaliação incluem alagar os apartamentos, urinar em colchões e insultos pelas redes sociais.

Na UNA, as autoridades estão lidando há mais de um ano com incidentes sexistas, especialmente em seus dormitórios, a maioria dos quais é administrada de forma independente, semelhantes às fraternidades e irmandades nos Estados Unidos.

No ano passado, as autoridades da universidades descobriram um grupo online secreto iniciado por alunos da João 23, uma faculdade católica de prestígio, que estavam compartilhando fotos de seios de alunas e dando notas para eles no Facebook.

Em março, quatro alunos foram pegos cantando rimas sexuais explícitas sobre pegar mulheres.

Em ambos os casos, os alunos foram disciplinados e alguns foram suspensos. O Burton and Garran Hall também proibiu oficialmente cercar mulheres ao som de "Eagle Rock".

Jane O'Dwyer, uma porta-voz da UNA, disse que a universidade está trabalhando para tratar do problema em todo o país.

"É uma questão cultural na Austrália", ela disse. "Temos uma sociedade hipermasculinizada."

Essa cultura, dizem defensores, significa que casos sérios ainda ficam impunes.

"Todos conhecemos mulheres que foram estupradas", disse Jones. "O que costuma acontecer ao perpetrador é nada ou acabar sendo transferido para outra faculdade. Isso me faz lembrar a forma como a Igreja Católica transferia padres."

O relatório Fim do Estupro no Campus, baseado em registros públicos de 27 das universidades do país, apontou que as 575 queixas de assédio sexual e ataque sexual que foram feitas às universidades australianas nos últimos cinco anos resultaram em apenas seis expulsões.

As autoridades da UNA disseram que ainda estão tentando melhorar sua resposta ao problema.

"A universidade está revisando todas as suas políticas e procedimentos para ver se podemos melhorar sua transparência e justiça", disse Baker.

Mas as universidades têm um longo caminho pela frente caso queiram limpar o clima tóxico que levou uma estudante da Universidade de Sydney à beira do precipício no ano passado.

Após escrever uma coluna no jornal estudantil sobre ataques e assédios sexuais no campus, a aluna Justine Landis-Hanley sofreu uma enxurrada de comentários pejorativos nas redes sociais. Colegas pararam de falar com ela, ela disse, até mesmo se recusando a fazer contato visual.

Então as fotos pessoais que decoravam seu quarto no dormitório começaram a desaparecer, uma por uma.

"O que mais machucou foi o fato de pessoas com as quais eu convivia, que passei a ver como minha família, terem tentado propositalmente fazer com que me sentisse um lixo", ela disse. "Elas tentaram, de forma patética e covarde, me expulsar da minha casa."

Finalmente, quando restou apenas uma foto, a própria Landis-Hanley a retirou.

Como ela escreveu no Facebook, "Naquela noite fui levada ao hospital por estar em um estado suicida".

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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