Falar sobre a ajuda de soviéticos aos nazistas é tabu na era de Putin

Andrew Higgins

Em Podolsk (Rússia)

  • JAMES HILL/NYT

    Vladimir Melikhov construiu museu para "fazer os russos pensarem sobre a própria história"

    Vladimir Melikhov construiu museu para "fazer os russos pensarem sobre a própria história"

Como ex-diretor industrial soviético, Vladimir Melikhov sobreviveu às brutais disputas de poder dos anos 1990 e fez fortuna na construção civil. Hoje ele dedica sua energia e dinheiro àquilo que se tornou uma iniciativa realmente arriscada em uma Rússia governada pelo presidente Vladimir Putin: vasculhar a história russa.

Melikhov fundou um museu particular dedicado à memória da "resistência anti-bolchevique" e que investiga um tema que é especialmente tabu: por que tantos cossacos e outros cidadãos soviéticos perseguidos teriam recebido bem, ao menos inicialmente, a invasão de Hitler à União Soviética em junho de 1941?

O museu, abrigado em um prédio de três andares que ele mesmo construiu em sua propriedade privada em Podolsk, ao sul de Moscou, não tenta glorificar colaboradores nazistas. Mas ele enfureceu as autoridades ao focar na implacável perseguição que se seguiu à Revolução Bolchevique de 1917 da Rússia, criando um terreno fértil para traições antissoviéticas durante uma guerra que custou a vida de 25 milhões de soviéticos.

"Eles não gostam, na verdade, do fato de que eu faço as pessoas pensarem sobre o que aconteceu no passado e sobre o que está acontecendo hoje", diz Melikhov.

Como resultado, ele foi denunciado na televisão estatal como traidor, guardas de fronteira russos rasuraram seu passaporte para impedi-lo de deixar o país, e ele foi alvo de uma série de acusações criminais aparentemente fabricadas. Na última terça-feira, um juiz de Podolsk o considerou culpado de posse ilegal de armas e o condenou a um ano de "liberdade restrita", que consiste em prisão domiciliar ou outras limitações sobre sua movimentação.

JAMES HILL/NYT
Interior do museu de Vladimir Melikhov, que possuí diversas peças da história russa

A hostilidade do Estado russo em relação a Melikhov é uma medida do quanto a história da Segunda Guerra Mundial, que os russos conhecem como a Grande Guerra Patriótica, é um tema sensível—especialmente nesses tempos em que Putin e seus aliados se referem constantemente ao conflito para fortalecer sua legitimidade.

Eles se vendem como os verdadeiros herdeiros dos patriotas dos tempos de guerra e desprezam seus inimigos—como o ativista anti-corrupção Alexei A. Navalny, que orquestrou manifestações em todo o país contra o Kremlin no dia 12 de junho—como traidores comparáveis a colaboradores nazistas.

Com o fim do comunismo e o capitalismo liberal amplamente desacreditado como uma alternativa, a vitoriosa luta da União Soviética contra o nazismo entre 1941 e 1945 se tornou uma intocável pedra fundamental de uma nova ideologia de Estado construída em torno de uma história enfeitada de sacrifício patriótico, disciplina e unidade nacional.

"O mito da Grande Guerra Patriótica é o mito fundador da Rússia contemporânea pós-1991", diz Serhii Plokhii, um professor de história de Harvard nascido na Rússia. "Qualquer coisa que questione esse mito, entendido como a vitória do povo unificado russo sobre o Ocidente hostil, ou que introduza matizes de cinza no retrato preto-e-branco da batalha entre o bem e o mal, é rejeitado e atacado".

Melikhov não é o único perseguido. Um comitê estatal de Moscou vetou recentemente uma decisão tomada por acadêmicos de São Petersburgo de conceder um doutorado a Kirill Alexandrov, um historiador. Sua tese, sobre o Comitê pela Libertação dos Povos da Rússia, uma equipe criada em 1944 com apoio alemão para reunir uma oposição ao regime de Stalin, foi considerada insuficientemente patriótica.

Melikhov acredita que seu principal crime, do ponto de vista das autoridades, não seja só o tratamento factual dado aos traidores desprezados em seu museu em Podolsk e em outro museu seu perto de Rostov-on-Don, no sul da Rússia.

Ele diz que o problema maior seria o fato de que qualquer discussão aberta sobre as escolhas feitas pelos russos durante a guerra, mina os esforços de Putin para unir a Rússia em torno do heroísmo do passado e sua hostilidade contra os inimigos internos e externos que, segundo o Kremlin, estariam sitiando o país.

"A União Soviética desmoronou, mas o sistema soviético de governo e pensamento continuou o mesmo", diz Melikhov. "Havia monopolização do poder político, monopolização do poder econômico, monopolização da mídia de massa, monopolização da sociedade civil. Hoje, os elementos básicos desse sistema soviético estão todos voltando".

As provas apresentadas contra Melikhov em seu julgamento consistiam de uma arma enferrujada do século 19 do acervo de seu museu e de um estoque de balas que não serviam em nenhuma arma em sua posse. Melikhov disse que elas foram plantadas pelos investigadores.

"Lutei contra muitos bandidos nos anos 1990, mas agora é ainda pior: você não consegue resistir às nossas autoridades", ele disse em uma entrevista dada em sua propriedade, um complexo cercado com prédios de tijolos, jardins exuberantes e um lago construído sobre um lixão da era soviética.

Se não fosse por seu interesse em história, Melikhov, 60, pareceria se adequar bem à visão de Putin, de uma Rússia construída em torno de valores tradicionais e de um patriotismo robusto.

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Vladimir Melikhov, em seu museu em Podolsk, na Rússia

Melikhov é descendente de cossacos, os cavaleiros rústicos que protegiam as fronteiras do império russo e cujos membros estiveram na linha de frente de diversas causas nacionalistas desde o colapso da União Soviética em 1991. Ele é também um cristão ortodoxo e construiu uma bela igreja de madeira perto de sua casa em Podolsk.

Mas anos de trabalho colecionando e lendo livros e documentos antigos convenceram Melikhov de que o que Putin e seus aliados na Igreja Ortodoxa e em outros lugares celebram como uma tradição russa é uma distorção grosseira do passado.

Ele disse que embora Putin tenha ajudado a apagar a suspeita sobre os cossacos na era soviética, que em sua maior parte se juntaram às forças anti-bolcheviques durante a guerra civil da Rússia entre 1917 e 1922, ele se esqueceu do cerne dos ideais cossacos.

"O valor mais importante para um cossaco sempre foi sua própria liberdade", disse Melikhov.

Essa interpretação da tradição cossaca, que muitos ainda associam a pogroms e a serviços brutais para um império russo em expansão sob o tsar, ajudou Melikhov a conquistar um improvável apoio de progressistas russos.

Um de seus fãs proeminentes é Andrey Zubov, um historiador progressista que foi removido de seu cargo em um prestigioso instituto de Moscou depois de ter comparado a anexação da Crimeia por Putin em 2014 à anexação do território efetuada por Hitler em 1939. Zubov logo ganhou um lugar na lista de "traidores" elaborada por partidários de Putin.

"O comunismo está obviamente morto como ideologia", ele disse. "Não existe comunismo. Mas existe um modo soviético de pensar, uma forma soviética de imperialismo que persiste e que as autoridades querem proteger dos fatos históricos".

Chamar alguém de traidor, acrescentou Zubov, acaba com qualquer discussão: "Um traidor é um inimigo, algo horrível, mas se tornou só mais uma forma de nossas autoridades descreverem alguém que tem meramente um ponto de vista diferente".

Um site chamado predatel.net, que poderia ser traduzido como traidor.net, traz uma lista de intelectuais de Moscou e outros que são considerados traidores de seu país, e convida os leitores a preencherem um formulário e "indicar um traidor" para ser incluído na lista.

É um mistério quem está por trás do site, mas sua missão se encaixa com uma mensagem promovida incansavelmente pelo Kremlin e pela mídia controlada pelo Estado desde a crise na Ucrânia em 2014: a Rússia está sendo ameaçada por dentro e por fora por inimigos que precisam ser expostos e derrotados.

Melikhov disse que o caso mais recente contra ele havia sido orquestrado não por promotores locais em Podolsk, mas sim pelo Serviço de Segurança Federal em Moscou, o braço doméstico de inteligência da antiga KGB soviética, depois de ter apoiado publicamente um partido político anti-Kremlin antes das eleições parlamentares do ano passado.

Ele também se mostrou contrário à anexação da Crimeia, o principal teste indicador de suposta traição, um rótulo que, segundo Melikhov, estaria sendo aplicado àqueles que simplesmente discordam publicamente do Kremlin.

Isso, segundo ele, é o que torna seus dois museus tão ameaçadores: eles incitam os milhares de russos comuns que os visitam a pensar sobre sua própria história e a questionar simples rótulos como patriota e traidor. Eles também amplificam questões que historiadores profissionais levantaram discretamente sobre relatos oficiais da guerra.

Essas versões oficiais tendem a minimizar o pacto de Stalin com Hitler em 1939, seu expurgo assassino de oficiais militares nos anos 1930 e a perseguição incansável de supostos inimigos internos antes da invasão nazista.

Um visitante, enquanto escrevia no livro de presença do museu, disse: "Aos criadores e curadores deste museu, obrigado pela oportunidade de olhar essas páginas da história que as autoridades oficiais tentam esconder de nós".

Determinadas a fortalecer a versão oficial de uma unidade heroica e resistência quase sobre-humana, as autoridades restringiram constantemente o acesso a arquivos históricos que foram abertos após o colapso da União Soviética.

Elas também foram severas com acadêmicos que questionam lendas populares como a história dos 28 soldados liderados pelo major-general Ivan Panfilov que teriam se sacrificado para ajudar a derrotar as tropas alemãs que avançavam sobre Moscou no inverno de 1941.

O diretor do Arquivo Estatal da Rússia, Sergei Mironenko, foi removido de seu cargo no ano passado depois de ter exposto a história como uma "ficção" inventada por propagandistas soviéticos.

Em resposta, o ministro da Cultura da Rússia, o ultraconservador Vladimir Medinsky, declarou que não se deveria permitir que fatos históricos inconvenientes atrapalhem estimados mitos nacionais.

Heróis de guerra como Panfilov e seus homens, ordenou o ministro, devem ser tratados como "santos", e aqueles que lançam dúvidas sobre seus feitos são "canalhas" que devem "queimar no inferno".

* Com reportagem de Sophia Kishkovsky (Moscou).

Tradutor: UOL

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