Proibido nadar! Roma se prepara para um verão de turistas em suas fontes

Jason Horowitz

Em Roma (Itália)

  • GIANNI CIPRIANO/NYT

    Policial instrui turistas a não sentarem na borda da Fontana di Trevi

    Policial instrui turistas a não sentarem na borda da Fontana di Trevi

Em uma tarde quente de segunda-feira, um belo dia para nadar, Mario Messina notou alguns turistas perigosamente próximos das águas azul-turquesa e soou seu apito cinco vezes de forma breve.

"Desça!" disse Messina, com um gesto elegante com a mão para uma mulher inclinada na beira para testar a temperatura da água. "Desça!"

Apesar de seus óculos Ray-Ban, virtuosismo com o apito e disposição jovial siciliana, Messina não é um salva-vidas de praia, mas sim um policial romano usando capacete. A ele foi dada a tarefa de proteger a Fontana di Trevi, um dos monumentos mais apreciados e visitados do mundo, do flagelo do avanço dos exércitos de turistas ressequidos e sofrendo com calor. E agora ele conta com reforços.

Porque o verão está chegando.

O clima quente já traz a ameaça de turistas se comportando mal. Por meses, as multas severas não conseguiram impedir a moda de se banhar nas fontes em uma cidade nascida e abençoada com água corrente.

GIANNI CIPRIANO/NYT
Turistas na Fontana di Trevi, em Roma


Em 12 de abril, um homem decidiu nadar nu na Fontana di Trevi, resultando em um vídeo viral e uma multa de 500 euros (cerca de R$ 1.860). ("Eu estava aqui para o sujeito nu", disse Messina, acrescentando que o nudismo também resultou em queixa criminal, "por ser um ato obsceno".)

Naquele mesmo mês, um turista espanhol de 30 anos entrou na fonte vestindo uma longa túnica, uma mulher alemã sexagenária deu um mergulho matinal e dois dinamarqueses receberam multas de 900 euros por banharem os pés na Fontana dei Due Mare (Fonte dos Dois Mares), na Piazza Venezia de Roma.

Então veio maio. Uma dinamarquesa de 25 anos, talvez com visões de Anita Ekberg em "A Doce Vida" em sua cabeça, decidiu nadar em seu vestido de noite. E duas mulheres americanas, segundo Messina, também decidiram nadar. (Algo que incrivelmente não foi noticiado!)

E junho. Um malasiano de 30 anos se banhou nu na Fontana dei Quattro Fiumi (Fonte dos Quatro Rios) do artista barroco Gian Lorenzo Bernini, na Piazza Navona, e recebeu uma multa de 450 euros. ("Eu estava com calor", ele explicou repetidas vezes à polícia.)

A polícia também deteve um artista tcheco que lavava um pano sujo na Fonte dos Leões da Piazza del Popolo. Logo depois, ela multou os pais britânicos e romenos de duas crianças por deixarem que elas subissem nos leões.

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Policial romana fiscaliza fontes e utiliza um apito para chamar atenção


Os "Novos Bárbaros", como alguns jornais passaram a chamar os turistas, não se restringem a Roma. Na Catedral Florença, conhecida como Duomo, e em outros locais, as autoridades passaram a molhar as escadarias para impedir pessoas de sentarem e comerem nos degraus.

Mas é Roma e suas fontes que se encontram no centro da tempestade de selfies, levando a prefeita sitiada da cidade, Virginia Raggi, a emitir a ordem.

Até outubro, as multas serão mais pesadas por comer, beber ou sentar nas fontes, por lavar animais ou roupas nas águas das fontes ou por jogar qualquer coisa fora moedas nas águas da Fontana di Trevi e 36 outras fontes de importância artística ou histórica por toda a cidade.

"É inaceitável que alguém as use para nadar ou se lavar. É um patrimônio histórico que deve ser protegido", disse Raggi na segunda-feira, durante o que chamou de "inspeção" surpresa à situação na Fontana di Trevi.

Raggi, acompanhada por dois assessores, passou desapercebida pelos turistas em moda de praia e às vezes teve dificuldade de passar por entre a multidão. Ela disse que, em certo grau, o fenômeno do banho sempre existiu, mas que com os vídeos de banhos nus nas fontes se espalhando pelas redes sociais, ela sentiu que "simplesmente precisávamos fazer mais. E fizemos".

Os inimigos da prefeita, uma figura nacional importante do Movimento Cinco Estrelas anti-establishment, adicionaram o ataque aos monumentos à lista de apuros de Roma sob a administração dela, incluindo o acúmulo de lixo nas calçadas da cidade, parques não cuidados que lembram plantações de trigo, e as ruas congestionadas transformadas em estacionamentos ociosos. Quando em uma Roma degradada, eles argumentam, os turistas farão como os romanos degradados.

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Policial romano vigia Fontana di Trevi


Mas é difícil atribuir a perturbação dos turistas a ela. Em 1999, a Itália sentiu a necessidade de aprovar uma lei para proteção dos monumentos da cidade e proibiu o nado nas fontes. Em 2012, um prefeito anterior decretou uma multa aos turistas de até US$ 650 por pingar sorvete, derrubar migalhas e almoçar nos monumentos.

Muitos romanos lembram do herói folclórico local conhecido como D'Artagnan, que por décadas nadava na fonte antes do amanhecer para pescar as moedas jogadas pelos turistas.

Mesmo assim, Vittorio Avanzini, o editor de guias históricos romanos incluindo "As Fontes de Roma", insistiu que ao longo de toda a longa história da cidade, "nunca chegou a este ponto".

Para combater as hordas com calor, Dario Franceschini, o ministro da Cultura italiano, ofereceu a ideia de limitar o número de turistas permitidos a ver os monumentos mais famosos de cada vez.

"Não dá para ter 50 mil pessoas na Fontana di Trevi, é preciso que haja uma capacidade máxima. São lugares frágeis, que precisam ser protegidos", disse Franceschini.

Ele aprecia a explosão de turistas da China e de outros países ávidos em visitar a Itália, mas disse que o número elevado cria novos desafios e argumenta que nova tecnologia permite a contagem automática e o controle das massas. "É absolutamente necessário."

Enquanto Raggi deixava a Fontana di Trevi para checar a situação em uma fonte renascentista na Piazza d'Aracoeli, aos pés do Monte Capitolino, ela se recusou a considerar a ideia de limitação do número de pessoas.

"Os monumentos são para todos", ela disse. "E é justo que todos que respeitem as regras possam visitá-los, desfrutar de sua beleza."

Mas algo em que Raggi e Franceschini concordam, no espírito de políticos de toda parte, é que a polícia (incluindo o esquadrão à paisana nas fontes) está fazendo um trabalho excelente de proteção aos monumentos.

Em uma tarde recente, os braços dos turistas se erguiam no ar como alavancas de caça-níqueis para arremessar parte dos mais de 1 milhão de euros anuais em moedas na Fontana di Trevi.

Messina mantinha um olhar vigilante e soprava seu apito para os turistas que subiam nas bordas da fonte. "Eles acham que é um playground", ele disse, atribuindo o aumento de abusos na fonte às redes sociais, por "fazerem propaganda de mau comportamento".

Ele lembrou de um turista turco que seis meses atrás escalou a estátua de Netuno, que é senhor da fonte.

Mas ele confidenciou que os piores infratores foram três idosos locais que vinham toda manhã para se sentar por horas em um banco ao lado da fonte, com seus olhos atentos às mulheres que passavam acima deles de saias curtas.

"Obcecados", disse Messina, balançando a cabeça.

Enquanto Messina habilmente fiscalizava o cumprimento da lei, ele assegurava para não atrapalhar as pessoas desfrutando de suas férias em Roma. Ele posava para fotos e instruía turistas agradecidos sobre como melhor arremessar suas moedas. ("Mão direita por cima do ombro esquerdo, cruzando o coração.")

Ele disse apreciar o decreto e o aumento de pessoal, de dois para agora seis policiais de vigilância 24 horas por dia, porque "não é fácil controlar milhares de turistas".

De novo ele apitou para que retardatários descessem dos muros da fonte enquanto um de seus reforços, uma policial em colete de néon, vinha em sua ajuda.

"Estou aqui para o turno das 5 horas", ela disse. "Pode fazer uma pausa."

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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