50 anos após a guerra, palestinos de Jerusalém Leste levam vida dividida

Isabel Kershner

Em Jerusalém (Israel)

  • DANIEL BEREHULAK/NYT

    Muro separa campo de refugiados, Shuafat, em Jerusalém Leste

    Muro separa campo de refugiados, Shuafat, em Jerusalém Leste

O clube noturno de música alternativa no centro de Jerusalém Oeste estava lotado às 12h45, quando uma dupla de hip-hop de Jerusalém Leste subiu ao palco, com um rap sobre a ocupação, a polícia e o amor, entre outras coisas, na maioria em árabe.

O público, que conhecia algumas das letras, cantava junto com os rappers Muzi Raps e Raed Bassam Jabid. Mas era um grupo jovem, de maioria israelense e que falava hebraico, incluindo soldados em folga pelo fim de semana, que enchia a pista de dança.

Essa interação social entre judeus e palestinos é rara aqui. Os palestinos a chamam de "normalização cultural", e muitos a rejeitam.

Enquanto os israelenses marcam o 50º aniversário da reunificação de Jerusalém na guerra de junho de 1967, os palestinos e a maioria do mundo considera a metade leste sob ocupação, e a cidade continua profundamente dividida. Depois de cinco décadas, porém, lidar com Israel tornou-se inevitável para os moradores de Jerusalém Leste.

"É um mundo totalmente diferente, uma vida totalmente diferente", disse Muzi Raps, cujo verdadeiro nome é Mustafa Jaber, sobre seus amigos em Jerusalém Oeste, que é predominantemente judaica. Jaber, 27, mora perto dali, no bairro muçulmano da Cidade Velha, do outro lado da linha do armistício anterior a 1967, hoje um limite invisível.

URIEL SINAI/NYT
Moradores locais próximos ao muro que separa o campo de refugiados em Jerusalém Leste

Os 320 mil palestinos de Jerusalém Leste formam atualmente 37% da população da cidade. Suspensos entre Israel e a Cisjordânia, onde a Autoridade Palestina exerce um controle limitado, muitos deles existem numa espécie de limbo político.

Alguns levam uma vida dividida, trabalhando em um café em Jerusalém Oeste ou consertando carros durante o dia e protestando à noite. Outros assumem uma fachada pública inescrutável enquanto navegam acordos de paz individuais com os israelenses.

Hoje, a metade da força de trabalho palestina de Jerusalém Leste trabalha em Jerusalém Oeste, segundo o Instituto de Pesquisa Política de Jerusalém, um centro de estudos israelense independente.

E sob a superfície o clima de desafio declarado parece estar mudando.

Mais de 5 mil estudantes colegiais em Jerusalém Leste estudam para o "bagrut", o exame de matrícula israelense que facilita a entrada nas universidades israelenses, contra cerca de mil em 2014, segundo a Prefeitura.

E 26 escolas de Jerusalém Leste oferecem o currículo israelense, ensinado em árabe, como opção, em comparação com 161 que só ensinam o currículo "tawjihi" da Autoridade Palestina.

BRYAN DENTON/NYT
Policiais israelenses circulam na cidade antiga de Jerusalém

O número de estudantes palestinos registrados na universidade hebraica de Jerusalém aumentou nos últimos anos. As famílias palestinas que solicitam a cidadania israelense --um antigo tabu-- bateram o recorde em 2016 --1.081, contra algumas dezenas em 2003.

Mas especialistas dos dois lados dizem que os motivos dessas mudanças são muitas vezes práticos e não indicam necessariamente um desejo de parte dos palestinos de Jerusalém Leste de participar da sociedade israelense.

"Há uma séria crise diante dos 50 anos de controle israelense e a invasão pelo seu sistema", disse Mahdi Abdul Hadi, diretor da Sociedade Acadêmica Palestina para o Estudo de Relações Internacionais, uma instituição de pesquisa independente. "Não há uma liderança nacional ou uma agenda nacional. Todo mundo tenta seu próprio caminho, seja em educação, moradia, questões de terra."

"Sim", acrescentou ele, "alguns estão pegando o passaporte israelense como uma ferramenta de sobrevivência. Mas ninguém adota sua alma."

Dias depois da apresentação no clube em Jerusalém Oeste, Jaber e eu estávamos andando até a casa dele, em um canto perto de um bazar movimentado no bairro muçulmano, próximo de um portal do complexo da Mesquita de Al-Aqsa. Ele mal tinha dado três passos quando dois soldados armados da polícia de fronteira israelense o pararam e pediram sua identidade.

Nada incógnito, ele usava um grande pendente dos "Muzi Raps" em uma grossa corrente de ouro, camiseta Tupac, tênis e um boné de beisebol com os dizeres: "Estamos unidos, bebendo até cair".

Para Israel, a captura da Cidade Velha, com seus antigos locais sagrados, do controle jordaniano foi o apogeu emocional de sua rápida vitória em 1967. É o núcleo da cidade que Israel declarou sua capital soberana e eterna. É também o centro extremamente contestado do conflito.

Logo depois da guerra, Israel expandiu muito os limites de Jerusalém, dominando cerca de duas dúzias de aldeias da Cisjordânia, e anexou o lado Leste da cidade em uma medida que nunca foi reconhecida internacionalmente.

O país passou a construir enormes bairros judeus, ou assentamentos, ultrapassando as linhas e criando uma colcha de retalhos de populações. Os palestinos receberam a posição de residentes permanentes, o que lhes dá liberdade para se deslocar e trabalhar em qualquer lugar em Israel e o direito a benefícios sociais do país.

Hoje, Jerusalém Leste está isolada da Cisjordânia por um sistema israelense de muros, cercas e postos de controle que cresceram no início dos anos 2000 em meio aos atentados suicidas da segunda intifada palestina. Entrevistas com dezenas de moradores palestinos expuseram uma sociedade fragmentada e confusa.

Até um terço dos moradores palestinos da cidade vivem em áreas pobres, semelhantes a favelas, que tecnicamente fazem parte de Jerusalém, mas que Israel colocou além da barreira, em um limbo de futuro ainda mais incerto.

Enquanto a liderança palestina na Cisjordânia exige um Estado palestino com Jerusalém Leste como capital, alguns palestinos da cidade descrevem a Autoridade Palestina, que Israel proíbe de operar em Jerusalém Leste, como uma "máfia" corrupta e ilegal, e muitos dizem que não querem fazer parte dela.

"Temos nossos direitos aqui, onde vivemos", disse Ola Hedra, 35, uma professora de inglês do bairro de A-Tur, no Monte das Oliveiras. "Nem tudo, mas é melhor que a vida sob a Autoridade Palestina."

Moradores palestinos e judeus frequentam alguns dos mesmos parques e shopping centers da cidade em Jerusalém Oeste, e alguns israelenses também vão além da divisão.

Mas o governo israelense demonstrou certa ambivalência ao adotar os moradores palestinos. O índice de solicitantes de Jerusalém Leste que receberam a cidadania israelense caiu acentuadamente nos últimos anos. O Ministério do Interior israelense disse que a checagem da ficha policial de cada um leva muito tempo, especialmente diante da sobrecarga de pedidos.

A ambiguidade é mútua.

Muhammad Sbeih, 45, dono de uma pet-shop no bairro palestino de Beit Hanina, disse que sua carteira de residência israelense "não me representa", e que quando ele viajou a Ramallah, na Cisjordânia, em seu carro com placas de Israel, "trataram-me como se eu fosse um judeu".

Como muitos palestinos de Jerusalém Leste, ele valoriza sua ligação com a Al-Aqsa, um dos locais mais sagrados do islã, e hoje a essência da identidade de muitos palestinos de Jerusalém Leste. Sbeih trabalha como "muezzin" [o que faz os chamados para as orações] em uma mesquita e disse que gostaria de ver um califado na região.

"O islã é o que sobrou", disse.

*Colaborou Rami Nazzal

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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