Esquivas de Trump sobre ataque da Rússia em eleições frustram até seus aliados

Maggie Haberman

  • Chancelaria da Rússia/AP

    10.mai.2017 - O presidente dos EUA, Donald Trump, o chanceler russo, Sergei Lavrov, e embaixador russo, Sergei Kislyak, conversam na Casa Branca

    10.mai.2017 - O presidente dos EUA, Donald Trump, o chanceler russo, Sergei Lavrov, e embaixador russo, Sergei Kislyak, conversam na Casa Branca

No prazo de 72 horas, o presidente Donald Trump descreveu a invasão de e-mails que perturbou a campanha democrata em 2016 como um "boato" e como uma clara agressão da Rússia que seu antecessor, Barack Obama, deixou de enfrentar.

Em outras vezes, Trump disse que a invasão pode ter sido feita pela China. Ou, como ele alegou durante o primeiro debate da eleição, a invasão pode ter sido obra de um lobo solitário de 200 quilos, sentado em sua cama em casa.

Depois houve a ocasião em que Trump culpou "algum sujeito em sua casa em Nova Jersey". Ou, como ele também sugeriu, talvez não tenha havido nenhuma invasão...

No sábado (24), Trump tentou mais uma vez enfocar a atenção em Obama.

"Já que o governo Obama foi informado muito antes da eleição de 2016 de que os russos estavam interferindo, por que não tomou medidas?", escreveu Trump no Twitter. "Concentrem-se neles, não em T!"

E essa foi seguida de: "Autoridade do governo Obama disse que eles 'engasgaram' quando precisaram agir sobre a interferência russa na eleição. Não queriam prejudicar Hillary?"

Membros do governo, congressistas de ambos os partidos e até alguns apoiadores de Trump esperavam que, deixando a campanha para trás, ele finalmente falasse sobre a invasão dos e-mails e admitisse a ameaça que representam os ciberataques russos, sem aspas, piadas, advertências ou ofuscação.

Essa esperança desapareceu. Os últimos tuítes presidenciais são prova para os membros desolados do partido de Trump de que ele ainda se recusa a reconhecer um fato básico sobre o qual concordam 17 agências de inteligência dos EUA supervisionadas por ele: a Rússia orquestrou os ataques, e fez isso para ajudá-lo a se eleger.

Entenda o envolvimento da Rússia na política americana

"Acho que ele teria uma recompensa política se fosse duro com a Rússia", disse Mike DuHaime, estrategista republicano e assessor do governador Chris Christie, de Nova Jersey. DuHaime sugeriu que está na hora de Trump ajudar a si mesmo com uma declaração pública que definitivamente ponha a culpa na Rússia.

"A maioria das pessoas cresceu escutando que os russos não são nossos aliados", disse DuHaime. "Ele deveria ser duro em relação ao que eles tentaram fazer."

Não é fácil explicar por que o presidente não admite o problema da Rússia, mas assessores e amigos dizem que a questão o atinge onde é mais vulnerável. Trump, que com frequência se conflagra com as instituições a que serve, vê as perguntas sobre a Rússia como uma tentativa dos democratas e membros do movimento "Trump Nunca" de deslegitimar sua vitória na eleição.

Há outro motivo. Trump é um empresário rico de Nova York, mas não é um titã de Wall Street ou um mestre investidor. Ele é um magnata dos imóveis cuja visão de vida se baseia em fazer negócios e que encara quase tudo como uma discussão de final aberto. Quando se trata de sua posição sobre a Rússia e a eleição de 2016, Trump, mantendo sua abordagem típica em quase toda questão, parece deixar suas opções em aberto.

Foi uma fórmula vencedora durante a campanha. Trump falou sobre generalidades, recusando-se a se comprometer com propostas políticas específicas. "Vamos ter de examinar muitas coisas muito de perto" era um refrão vago e frequente.

Ele podia falar em apoio aos dois lados de uma questão, às vezes na mesma sentença, obrigando os entrevistadores a se esforçar para entendê-lo e deixando apoiadores e detratores lerem suas palavras do modo que preferissem.

"O presidente Trump trata todas as questões como uma negociação em curso, ao proteger seus comentários com frases que permitem uma interpretação flexível de sua posição", disse Ryan Williams, estrategista republicano e ex-assessor de Mitt Romney. "Ele se recusa a ser empurrado para um canto ou ficar preso a uma posição específica, de modo a sempre ter a opção de mudar de ideia e fazer uma correção de rumo no futuro."

Seus assessores copiaram essa estratégia.

Na sexta-feira (23), quando Sean Spicer, o secretário de imprensa da Casa Branca, foi questionado por um repórter sobre se o presidente mantinha sua declaração de janeiro de que a Rússia esteve por trás da invasão dos e-mails, Spicer respondeu de maneira vaga: "É claro. Ele se preocupa com que qualquer país ou qualquer ator queira interferir nas eleições".

Mas a campanha terminou há muito tempo. Enquanto muitos aliados e apoiadores de Trump ainda relutam em culpar a Rússia, a comunidade de inteligência dos EUA disse que a interferência russa é um fato, não uma opinião. A estratégia de Trump de obscurecer sua posição permitiu que a questão da Rússia crescesse, prejudicando o funcionamento de seu governo na condução de importantes leis e decisões.

"Geopoliticamente, afeta tudo", disse DuHaime.

Isso inclui algumas sérias decisões que Trump terá de tomar: se apoiará sanções mais duras contra a Rússia; se devolverá as propriedades russas confiscadas pelo governo Obama; ou se tentará remover Robert Mueller, o procurador especial que investiga se a campanha de Trump fez conluio com a Rússia.

Autoridades de diversos Estados, enquanto isso, queixaram-se de que a Casa Branca pouco fez para tentar proteger as eleições de 2018 e 2019 contra potenciais intrusões russas, mesmo enquanto crescem as evidências de que houve tentativas de alterar os registros de eleitores no ano passado.

Ao longo disso tudo, os aliados do presidente continuam vendo a Rússia como um bicho-papão dos democratas e da mídia predadora, uma questão que sua base de eleitores pensa que é fabricada.

"Ele não quer ser definido por essa narrativa de que os russos hackearam a eleição, quando precisa negociar com a Rússia, que, aliás, fica na fronteira da China", disse Sam Nunberg, ex-assessor de campanha de Trump. "Se Putin nega com veemência ter feito isso, francamente não é um problema do presidente."

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos