Pais que perderam filhos apoiam discurso anti-imigração de Trump

Vivian Yee

  • AL DRAGO/NYT

    Steve Ronnebeck teve um filho morto por um imigrante ilegal

    Steve Ronnebeck teve um filho morto por um imigrante ilegal

As famílias podem contar todas as vezes que contataram a mídia de notícias e escreveram para Washington, mas após todas as tentativas, nunca uma pessoa importante disse qualquer coisa como isso: a maioria dos imigrantes mexicanos, declarou Donald Trump em seu primeiro discurso de campanha, é de "estupradores" que "trazem drogas e criminalidade" pela fronteira.

Agora ele veio conhecê-las, as famílias das pessoas mortas por imigrantes ilegais, e elas querem lhe dizer que ele estava certo.

Um filho foi atropelado por uma picape, outro foi baleado na esquina de casa. Causas de morte diferentes, mas o motorista, o atirador, todos os perpetradores são iguais, segundo os pais: pessoas que nunca deveriam estar no país para começar.

Sentado sozinho com eles no Beverly Wilshire Hotel em julho de 2015, o candidato distribuiu abraços enquanto as famílias choravam. Quando a campanha entrou em contato, foi dito à maioria que se encontrariam com Trump. Mas então o grupo foi conduzido a uma sala vizinha, onde a campanha convidou repórteres para uma coletiva de imprensa.

Foi uma surpresa, mas ninguém pareceu se importar. Várias foram em frente e endossaram Trump.

"Ele está falando pelos mortos", disse Jamiel Shaw Sr., cujo filho adolescente foi morto por um membro de gangue em Los Angeles, em 2008. "Ele está falando pelo meu filho."

Shaw queria que a mídia soubesse que Trump poderia ter ido além quando chamou os imigrantes mexicanos de estupradores e criminosos.

"Eu teria dito que são assassinos", ele disse.

Saudados por sua coragem, acusados de racismo, ridicularizados como fantoches, esses são alguns dos defensores mais potentes de Trump, as pessoas cuja angústia particular formou um pilar de sua cruzada contra a imigração ilegal e lançou uma nuvem sobre o futuro dos 11 milhões de imigrantes ilegais nos Estados Unidos.

MONICA ALMEIDA/NYT
Memorial para Jamiel Shaw Jr., jovem que foi morto a tiros por um imigrante ilegal

A aliança pode ser vista desta forma: pais sedentos por entendimento, Trump sendo um gole de esperança. A campanha de Trump os levou para falarem em comícios e na Convenção Nacional Republicana, os hospedaram em hotéis Trump e mantiveram contato por telefone e mensagens regulares.

Após sua vitória, Trump convidou pelo menos um ao baile da posse e mais três para se sentarem com a primeira-dama durante seu primeiro discurso ao Congresso.

De lá para cá, eles o defendem nas redes sociais e pela imprensa, assegurando ao mundo que, com Trump na presidência, seus filhos não terão morrido em vão.

Nesta semana, a Câmara planeja votar um projeto de lei que endureceria as penas para os imigrantes que entrarem de novo nos Estados Unidos após serem deportados. O projeto de lei leva o nome da mulher morta com um tiro por um homem que cruzou ilegalmente a fronteira pelo menos cinco vezes.

Sabine Durden, a mãe de outra vítima, lembra de ter ficado de joelhos e chorado quando ouviu Trump alertar sobre os riscos da imigração ilegal. Então a campanha dele entrou em contato.

"Foi quase uma experiência fora do corpo após tamanha dor e ninguém dar ouvidos, ninguém querer falar com você a respeito", ela disse. "É quase como se eu colocasse uma capa de Supermulher, porque eu sei que estou travando uma luta que vale a pena ser travada."

Em Washington em abril, eles se sentaram nas primeiras filas enquanto o secretário de Segurança Interna de Trump apresentava um escritório para as vítimas de crimes cometidos por imigrantes ilegais: dentre as muitas promessas feitas pelo presidente em nome deles, uma das primeiras cumpridas.

Para os críticos de Trump, o escritório e as pessoas que supostamente representa são pouco mais que peões em suas tentativas toscas de transformar em monstros uma população em grande parte cumpridora da lei, uma que pesquisas mostram cometer crimes em uma taxa menor do que os próprios americanos.

Mas ali, diante das câmeras, o secretário John F. Kelly estava pondo sua mão sobre o coração e agradecendo às famílias.

"Para dizer o mínimo, meu coração está com vocês", Kelly lhes disse. Naquela noite, eles celebraram o que consideraram uma realização em um juntar e drinques no Trump International Hotel, na Pennsylvania Avenue. Eles reconheceram que foi algo caro, mas que parecia certo. Era estranho que um dos momentos mais doces de suas vidas envolvia reviver um dos mais amargos.

Mas ocorreu muito disso nos último ano ou dois, ao buscarem uma forma de fazer com que tudo significasse algo: o orgulho surpreso e doloroso de se verem em televisão nacional e recebidos na Casa Branca para falarem do flagelo da imigração ilegal, tudo por terem perdido seus filhos e filhas.

Um despertar da noite para o dia

O noticiário local dizia que a moto de Dominic Durden foi atingida por uma picape enquanto ele passava pela Pigeon Pass Road, em Moreno Valley, Califórnia, a caminho de seu emprego como atendente do número de emergência 911. Ele tinha 30 anos. O outro motorista foi identificado como Juan Zacarias Tzun, que foi indiciado de homicídio.

Era 12 de julho de 2012. Sabine Durden tinha visto seu filho pela última vez no dia anterior, quando ele a levou ao aeroporto para uma viagem para Atlanta. Do outro lado do país, ela disse, ela quase desmaiou no momento da morte dele. Posteriormente, após seu telefone começar a se encher de mensagens dos amigos dele, ela já sabia o motivo.

Apenas depois ela soube por parte dos amigos de seu filho na polícia que Tzun era um imigrante ilegal da Guatemala, que já tinha sido condenado duas vezes por dirigir embriagado. Ele foi solto sob fiança semanas antes da colisão.

Quando sua sentença foi proferida em 2013, Tzun culpou Deus pelo acidente. Durden culpou o sistema de imigração.

"Se tivesse sido um acidente, eu poderia lidar com isso, mas não foi um acidente, porque se aquele sujeito não estivesse no país às 5h45 de 12 de julho de 2012, meu filho ainda estaria vivo", ela disse. (Tzun foi deportado em 2014.)

Mas nenhum dos responsáveis pelo caso de seu filho parecia disposto a ver a morte dele daquela forma, ela disse. "Você se sente tratada de forma evasiva", ela disse.

Durden, 59 anos, veio da Alemanha para os Estados Unidos quando se casou com um americano do Exército, posteriormente se tornando cidadã. Ele era democrata, de modo que ela era uma democrata. Ela nunca pensou muito a respeito do debate da imigração antes da morte de Dominic. Agora aquilo passou a ser a vida dela.

Então veio Trump. Sempre que o via, ele a recebia com um "grande abraço", ela lembrou. "A mãe do Dom", ele a chama.

"Ele diz: 'Você nunca mais estará sozinha de novo. Nunca terá que travar essa luta sozinha'", disse Sabine Durden, que já falou em três comícios dele.

A candidata democrata, Hillary Clinton, estava falando sobre a necessidade de criação de um caminho para a cidadania para os imigrantes ilegais. Quando Durden ouviu isso, ela mudou seu registro de eleitora para republicana no mesmo dia.

Imigração era "uma dessas questões que não me afetava, já que eu estava ocupado trabalhando", disse Steve Ronnebeck, 50 anos, cujo filho de 21 anos, Grant, foi morto com um tiro enquanto trabalhava na madrugada em uma loja de conveniência em Mesa, Arizona, em janeiro de 2015.

"Com o passar do tempo fui ficando mais furioso, de modo que me tornei mais ativo", ele disse. "É assim que lido com meu pesar."

Tratamento VIP

Aqui está o paradoxo de Donald Trump, o magnata sem filtro que parece tão distante quanto a Quinta Avenida e tão próximo quanto a TV na sala de estar. Enquanto uma legião de críticos alertava que ele estava paparicando seus fãs antes de traí-los, a aliança entre ele e as famílias parecia, para muitas delas, um elo inquebrável.

O fato é que ele prestou atenção. E nunca deixou de prestar.

Após o encontro em Beverly Hills, Shaw recebeu uma cesta de presentes contendo "A Arte da Negociação" de Trump, chocolates, assim como gravatas e abotoaduras da marca Trump, segundo um relato ao "Wall Street Journal". Em uma ocasião, Shaw voou no jato particular de Trump. Em outra, enquanto estava hospedado no Trump International Hotel em Las Vegas, ele gravou uma propaganda de campanha.

As outras famílias também receberam atenção regular da campanha. Um conselheiro de Trump, Stephen Miller, ligava ou enviava mensagem de texto pelo menos uma vez por mês, as convidando para falar em comícios ou apenas para saber como estavam. Algumas falavam regularmente com Corey Lewandowski, o diretor de campanha de Trump na época, ou com Hope Hicks, a porta-voz da campanha.

Miller, um defensor da restrição da imigração e atualmente um conselheiro sênior da Casa Branca, ajudou a elaborar a ordem executiva (algo semelhante a uma medida provisória no Brasil) de Trump de 25 de janeiro, ordenando ao governo a intensificação da fiscalização da imigração.

Alguns poucos pais também trocavam regularmente mensagens de texto com Keith Schiller, guarda-costas veterano de Trump e atual assessor no Escritório Oval. Foi Schiller o enviado por Trump para entregar pessoalmente a carta a James Comey, lhe informando que não era mais o diretor do FBI (Birô Federal de Investigação, a polícia federal americana).

Na Convenção Nacional Republicana, Shaw, Durden e outro pai se revezaram falando sobre seus filhos. O discurso de Trump de aceitação da indicação foi dedicado em parte à história de Sarah Root, 21 anos, que foi morta em Nebraska um dia após se formar na faculdade, por um imigrante hondurenho que estava dirigindo embriagado.

"Eu conheci a bela família de Sarah", disse o candidato. "Mas para este governo, a filha incrível deles era apenas mais uma vida americana que não vale a pena ser protegida."

Ele também mencionou o caso que, ao menos para a direita, passou a definir os riscos da imigração ilegal: o de Kathryn Steinle, uma mulher de 32 anos morta a tiros em um píer de San Francisco em 2015. O suspeito era um ex-criminoso do México que foi deportado cinco vezes. Poucos meses antes da morte de Steinle, as autoridades locais o soltaram da prisão sem notificarem os agentes federais de imigração.

"Minha oponente quer cidades santuário", disse Trump, referindo-se a governos locais, como o de San Francisco, que limitam sua cooperação com as autoridades de imigração. "Mas onde estava o santuário para Kate Steinle?"

O presidente então jurou privar essas cidades de recursos federais, mas um juiz bloqueou temporariamente seu governo de fazê-lo. A Câmara deverá votar nesta semana um projeto de lei, conhecido como Lei da Kate, que endureceria as penas para imigrantes pegos entrando novamente no país ilegalmente após serem deportados.

Mas apesar de toda a agitação gerada pelo caso Steinle, a família dela manteve distância da campanha, ocasionalmente quebrando seu silêncio para expressar seu desconforto com a forma como a morte dela foi transformada em uma granada política. (Por meio de seu advogado, a família se recusou a comentar.)

"Para Donald Trump, éramos apenas o que ele precisava: uma garota bonita, San Francisco, imigrante ilegal, preso um milhão de vezes, um crime violento e blá, blá, blá", disse Liz Sullivan, a mãe de Steinle, ao jornal "The San Francisco Chronicle" em setembro de 2015.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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